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O País ganhou espaço nas divulgações de balanços de gigantes globais
3 de novembro de 2026, às 07:00
O Brasil subiu de posto e foi alçado a um dos principais pontos de atenção de gigantes multinacionais depois da reação dos mercados à vitória de Lula com a virada inédita no segundo turno das eleições presidenciais. Investidores tentam saber quais impactos sobre os cenários traçados pelas companhias e como elas se prepararam para reagir ao quadro.
A discussão sobre as perspectivas do mercado local ganhou espaço nas divulgações de resultados de gigantes globais que têm o Brasil como um mercado relevante, em especial, em bens de consumo, como Unilever, Whirlpool (dona da Brastemp) e AB InBev, além de nomes das finanças, como Santander.
Processos eleitorais costumam estar na pauta de companhias quando podem provocar uma grande mudança de políticas e de cenário. Neste ano, as incertezas acompanharam o pleito brasileiro desde o início, pois as pesquisas mostravam uma disputa acirrada, de difícil leitura, com a liderança de duas propostas bem distintas de governo.
Após a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, o mercado antecipou as chances de vitória de uma proposta mais pró-mercado e a aposta de maior controle nas contas públicas, com potenciais impactos positivos sobre os juros e o câmbio. Como reflexo, no dia após a apuração da primeira rodada das urnas, o dólar teve a maior queda diária desde junho de 2018 e a Bolsa subiu 7,7%, chegando a recordes nos dias seguintes.
A virada inédita de Lula do primeiro para o segundo turno teve o efeito contrário. A Bolsa caiu mais de 10% no dia seguinte e precisou ter o pregão interrompido. O dólar registrou a maior alta diária em 27 anos. O que conta para as multinacionais é quais impactos podem haver no câmbio, nos juros e, como consequência, na atividade econômica. Além de temas como Reforma Tributária, sobre os quais havia propostas de mudança ao longo da campanha.
O Santander já costuma ser pressionado por analistas a discutir as perspectivas para o Brasil, segundo mercado mais lucrativo do grupo espanhol. Desta vez, porém, o tema ocupou uma posição ainda mais central na teleconferência com analistas, três dias após as eleições. Na ocasião, os ativos de risco brasileiros estendiam a volatilidade causada pelo resultado do pleito, que derrubou a tese vigente de que o País entraria em um ciclo de ajuste fiscal e consequente alívio nos juros.
Já na primeira pergunta, um analista quis saber como o ajuste agressivo nas expectativas da Selic afeta a meta de levar a rentabilidade da subsidiária brasileira à casa dos 20%. O CEO global da instituição, Héctor Grisi, buscou minimizar os eventuais impactos e destacou o trabalho do banco para reduzir a sensibilidade à oscilação dos juros.
O executivo lembrou que, até meados do ano, o banco trabalhava com a perspectiva de uma reeleição de Lula. Há cerca de três meses, as expectativas de investidores começaram a mudar e, após o primeiro turno, favoreceram Flávio. A reação do mercado nos últimos dias precisa ser lida justamente por essa ótica, na visão dele. “É uma reação normal”, avalia. “Veremos a situação normalizar nos próximos meses”, acrescentou.
Os comentários sugerem que o Santander mantém uma visão construtiva para os negócios no Brasil. O País representa cerca de 9% da carteira de crédito total do grupo, mas gera resultados desproporcionais porque os spreads bancários são bem maiores na maior economia da América Latina do que na Europa. A ampla capilaridade global da operação, porém, amortece eventuais estresses em mercados específicos. “Essa é a beleza da diversificação”, resumiu Grisi.
Também no setor financeiro, a Principal Financial Group foi questionada sobre os resultados das eleições brasileiras. A companhia atua no País por meio de uma joint venture societária com o Banco do Brasil, a Brasilprev, o braço de previdência complementar da BB Seguridade. Esse é um segmento que vem enfrentando desafios este ano, com o início da vigência do IOF sobre aportes anuais superiores a R$ 600 mil em planos VGBL. Hoje, a Principal tem 25% de participação econômica na Brasilprev, além de metade das ações com direito a voto.
A CEO da Principal, Deanna Strable, reconheceu que o ambiente deve continuar sendo marcado por volatilidade nos mercados brasileiros, enquanto investidores desmontam posições compradas depois do primeiro turno. Mas, para ela, o Brasil continua sendo atraente para os negócios no longo prazo. “Um aspecto positivo é que isso permitirá a continuidade dos nossos negócios no Brasil, devido à estabilidade da liderança do nosso parceiro na joint venture, o Banco do Brasil”, ressaltou.
Ao responder uma pergunta de analistas sobre o Brasil, o presidente global da Unilever, Fernando Fernandez, relativizou o efeito de curto prazo do mercado, mas admitiu um pouco de instabilidade política. “O Brasil não estava em tão boa forma no primeiro turno e não está com uma forma tão ruim após o segundo turno”, afirmou o executivo argentino, que presidiu a unidade brasileira antes de ser promovido ao comando global.
Fernandez lembrou que a desvalorização do câmbio se seguiu a uma apreciação no período anterior e descartou impactos mais significativos no curto prazo. O presidente destacou que os negócios no Brasil caminham bem, avançaram 8%, e houve ganhos nos negócios de desodorantes, por exemplo.
A direção da companhia foi questionada também sobre os impactos das mudanças tributárias no Brasil. Os executivos destacaram que a equipe está pronta para as alterações da reforma, mas sinalizaram que ainda vão aguardar para ver como caminha o tema após o resultado das eleições.
Na mesma linha, o presidente global da Whirlpool, Marc Bitzer, explicou aos investidores que a companhia deve ser beneficiada pela política de hedge (proteção cambial) adotada pelo grupo, quando se avalia o impacto da desvalorização do real. O executivo havia sido questionado por um analista sobre o cenário de câmbio depois da mudança abrupta na direção do mercado após as eleições.
O impacto na companhia se dá nas duas pontas. De um lado, torna componentes mais caros e aumenta o custo de produção. De outro, como há produção local, torna os itens mais competitivos na disputa com os concorrentes estrangeiros. “Nem tudo é ruim. Como se trata de algo muito recente, estamos agora analisando todas as possíveis repercussões dos resultados das eleições.”
A Whirlpool tem ao menos três fábricas no Brasil e produz de geladeiras a máquinas de lavar. Outro ponto de atenção para a companhia é a recuperação da Casas Bahia, que também foi apontado como um tema de incerteza no mercado local. Dias antes da Whirlpool, a sueca Electrolux já havia destacado as eleições e a crise da varejista como atenções no País.
Outras duas gigantes globais de bens de consumo que também estão de olho nos desdobramentos das eleições são a Heineken e a AB Inbev, dona da Ambev e da Budweiser. A holandesa tem no Brasil o seu mercado de maior volume e contratou recentemente o brasileiro Rafael Oliveira para o comando mundial. Em resposta a investidores, Harold van den Broek, diretor financeiro da Heineken, citou a reação do câmbio às eleições e disse que o cenário ainda é frágil. Citou uma visita do brasileiro ao País em que ele disse haver ainda muita tensão no mercado local.
Já os executivos da AB InBev passaram uma visão mais positiva. Indicaram que o processo eleitoral acabou tendo um efeito positivo sobre a renda, considerando o aumento dos benefícios anunciados durante a campanha. Outro efeito colateral positivo da disputa foi o veto às bets, que deve estancar a drenagem de recursos das famílias brasileiras.
“Vemos uma melhora do ambiente para os consumidores no quarto trimestre no Brasil”, afirmou o presidente global da AB InBev, Michel Doukeris, em resposta aos analistas.”Acredito que, com as eleições, haverá mais dinheiro na economia. Com a restrição das bets haverá mais renda disponível. A Reforma Tributária ainda é um ponto de atenção, mas ainda é cedo para dizer. O discurso do governo é que a carga será neutra, quando considerados todos os setores.”
O impacto eleitoral deve ser também alvo de avaliações nas companhias no Brasil. Isso deve ficar mais claro à medida que a temporada de resultados avança nos próximos dias. Nesta semana, por exemplo, o presidente da Gerdau, Gustavo Werneck, afirmou, ao detalhar os números da empresa, que espera continuidade das políticas de defesa comercial e uma melhora nas contas públicas. “Se não houver compromisso fiscal, seguiremos com muita dificuldade.”
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