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Alguns fornecedores que garante os estoques da varejista também estão na lista de credores
20 de agosto de 2026
A recuperação judicial pode ajudar a Casas Bahia a trocar a roda, mas não garante que o carro volte a andar. Enquanto busca renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas, a varejista precisa de dinheiro para comprar mercadorias e de prazo para pagá-las. Parte dos fornecedores que sustentam esse giro, porém, também está na lista de credores. Na prática, a empresa precisa continuar comprando de quem ainda espera receber.
Na lista estão alguns dos maiores fabricantes dos produtos vendidos pela empresa: Samsung, Electrolux, Whirlpool, LG e Motorola têm, cada uma, mais de R$ 600 milhões a receber. Também aparecem Britânia, Midea, Lenovo e TCL Semp. São justamente empresas das quais a varejista depende para manter celulares, televisores e eletrodomésticos nas lojas.
Além de negociar o pagamento das mercadorias já entregues, esses fabricantes precisarão decidir se continuarão vendendo para a Casas Bahia e em quais condições. A própria varejista reconheceu a preocupação com o abastecimento ao pedir à Justiça que os fornecedores não interrompessem a entrega de mercadorias já compradas e em trânsito.
A varejista vinha reduzindo os estoques de forma deliberada para preservar o caixa. No segundo trimestre, o volume encolheu R$ 1,15 bilhão, e os dias de estoque passaram de 95 para 75. O movimento contribuiu para a geração de R$ 798 milhões em caixa no período.
A estratégia deu fôlego à companhia, mas deixou menos margem de segurança para atravessar a recuperação judicial. Agora, a Casas Bahia precisa voltar a comprar justamente quando o acesso a novas mercadorias se tornou mais incerto. O CEO, Renato Franklin, já reconheceu que o nível mais baixo dos estoques traz riscos de ruptura no segundo semestre.
Para Eugênio Foganholo, consultor de varejo e sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, o relógio das lojas corre mais rápido que o das negociações com os credores. Sem recompor os estoques, a companhia pode vender menos, gerar menos caixa e perder ainda mais capacidade de compra.
“No curtíssimo prazo, a empresa precisa continuar operando. Mas, com pouco dinheiro para se abastecer, pode haver ruptura nas lojas, queda nas vendas e um círculo vicioso muito difícil de romper”, afirmou.
Confiança abalada
A recuperação judicial tornou mais visível uma relação que já vinha sob pressão. Desde 2023, bancos, seguradoras de crédito e fornecedores reduziram a exposição ao varejo, movimento agravado pela crise da Americanas, pelos juros elevados e pelo enfraquecimento do consumo de bens duráveis.
Segundo uma fonte próxima à Casas Bahia que acompanhou diretamente as negociações, a varejista chegou a comprar cerca de R$ 5 bilhões por ano da Samsung. Em determinado momento, porém, a fabricante reduziu em aproximadamente 80% o limite de crédito concedido à empresa.
O caso da Samsung não foi isolado. Fornecedores passaram a pedir garantias para liberar crédito, enquanto seguradoras internacionais, responsáveis por cobrir o risco dessas vendas, aumentaram a vigilância sobre a Casas Bahia. “Eram quatro ou cinco multinacionais que acompanhavam regularmente a liquidez da companhia”, disse a fonte.
Com o tempo, o aperto saiu da mesa financeira e chegou à operação. A restrição de crédito fez a Casas Bahia comprar menos, perder vendas e carregar custos fixos cada vez mais pesados.
Dinheiro novo
A perda de crédito aumentou a importância de uma entrada de dinheiro novo. A Casas Bahia tentou captar recursos nos mercados de dívida e de ações, inclusive no exterior, mas não conseguiu concluir as operações. Segundo a companhia, o investidor-âncora da captação internacional desistiu, enquanto alternativas de empréstimos de curto prazo também não avançaram.
Bradesco e Banco do Brasil avaliam participar de um empréstimo do tipo Debtor in Possession (DIP) de até R$ 1 bilhão, linha destinada a manter a operação de empresas em recuperação judicial. As conversas ainda são iniciais. A Casas Bahia afirmou hoje cedo que não há operação aprovada ou contratada, nem definição sobre valor, prazo ou participantes.
O recurso não teria como primeira função pagar os R$ 17,3 bilhões incluídos na recuperação. A prioridade seria financiar despesas correntes, novas compras e o funcionamento da companhia durante a negociação do plano. Manter a operação de pé.
“Ninguém está pensando, neste primeiro momento, em dinheiro para pagar os credores. Estão pensando em dinheiro para sobreviver durante a recuperação judicial”, afirmou Joana Bontempo, consultora especializada em reestruturação de empresas e falência do CSMV Advogados.
Para ela, a recuperação judicial pode facilitar a obtenção desse financiamento ao oferecer mais segurança e prioridade de pagamento a quem colocar dinheiro novo na companhia. O tamanho necessário, porém, dependerá de quanto do caixa, dos recebíveis e dos estoques já está comprometido em garantias.
O financiamento pode dar combustível à Casas Bahia, mas a companhia ainda terá uma longa viagem antes de voltar a acelerar. Sem crescimento previsto pelos próximos dois anos, o primeiro destino será manter abastecida a rede que restou e fazer a operação pagar as próprias contas.
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