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Presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho diz também que foco do banco agora está na vanguarda da IA
29 de maio de 2026
O Brasil precisa discutir uma agenda de reformas para conter a escalada da dívida, reduzir os juros estruturais e melhorar o ambiente institucional, defende o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, em entrevista exclusiva à Broadcast.
Em conversas com investidores estrangeiros, o banqueiro tem notado um mercado financeiro vigilante com as eleições presidenciais deste ano e o impacto na trajetória fiscal. A avaliação é de que o País ostenta uma série de atributos favoráveis, como a matriz energética limpa e uma população numerosa. Mas o orçamento rígido e os juros elevados seguem como obstáculos para aliviar o custo de capital e atrair investimentos de longo prazo.
“O que eu espero daqui para frente é um debate menos polarizado e mais focado em projetos, planos e programas”, afirma. “O País precisa avançar em reformas estruturantes, com uma agenda de produtividade e eficiência para aumentar a competitividade global”, acrescentou.
Dentro de casa, o Itaú atravessa o ciclo econômico mais desafiador com uma postura mais seletiva na concessão de crédito. No primeiro trimestre, a carteira de empréstimos alcançou R$ 1,48 trilhão, um avanço de 9% ante igual período do ano passado, desconsiderando efeitos cambiais. O aumento, no entanto, está concentrado em linhas mais seguras, como a imobiliária, consignado e de pequenas e médias empresas com garantia do governo. “Diante de um cenário de maior incerteza global e local, com discussões sobre juros, inflação, desemprego e um ano eleitoral, nós somos mais cautelosos”, ressalta.
Leia os principais trechos da entrevista:
Broadcast: No crédito, o Itaú projeta um crescimento da carteira total entre 5,5% e 9,5% este ano. Como ampliar uma carteira já grande, em um cenário econômico restritivo ao crédito?
Maluhy: Ao longo dos anos, posicionamos o portfólio para crescer em clientes mais resilientes aos ciclos econômicos, com forte presença em média e alta renda. Também crescemos em grandes corporações, desconcentrando a carteira e melhorando o rating médio do portfólio. Em pequenas e médias empresas, avançamos mais em operações colateralizadas. No varejo, operamos com um índice de inadimplência que geralmente fica em torno de metade do observado no mercado. Isso mostra que o nosso portfólio está muito bem preparado, diversificado e gerido do ponto de vista de alocação de capital, seja para enfrentar um cenário mais desafiador, seja para aproveitar oportunidades de crescimento. O banco tem capital sólido, liquidez sólida, forte relacionamento com clientes e uma franquia forte, o que permite continuar crescendo. Mas, diante de um cenário de maior incerteza global e local, com discussões sobre juros, inflação, desemprego e um ano eleitoral, nós somos mais cautelosos. Por isso, a expectativa é a de que o crescimento da carteira caminhe mais próximo do ponto médio do guidance do que do teto da projeção, sempre com os devidos cuidados. Entre entregar o guidance e entregar um banco sustentável, com bons resultados e custo de crédito bem administrado, a gente fica com o segundo.
Broadcast: Na pessoa física, como tem sido a montagem da carteira de consignado privado, quase um ano após o começo do programa de Crédito do Trabalhador do governo?
Maluhy: Se a nossa estratégia é colocar o cliente no centro, então o consignado privado é o melhor produto a ser oferecido para os clientes elegíveis. A gente já tinha liderança no consignado privado antes desse novo produto. Tínhamos cerca de 30% de participação em um mercado de aproximadamente R$ 40 bilhões. Hoje, estamos mais próximos de 20% de um mercado que já chega a R$ 100 bilhões. Temos conseguido crescer, liderar o mercado em volume de produção e manter uma inadimplência menor do que a observada no restante do mercado, oferecendo o produto da melhor forma possível aos clientes. Além disso, se você olhar as taxas praticadas, o Itaú está entre as menores taxas médias do mercado. A gente continua muito confiante no consignado privado e ele seguirá como ponto central da nossa estratégia de atender bem os nossos clientes.
Broadcast: Essa postura acontece em um momento de pressão no endividamento dos brasileiros. A inadimplência da pessoa física em crédito livre no País subiu a 7,2% em abril, de acordo com dados do Banco Central. Como o senhor avalia as medidas do governo para lidar com isso.
Maluhy: O Desenrola 2.0 para o mercado foi construído junto com as instituições financeiras. Houve uma abertura muito grande para o debate, com discussões construtivas entre os principais bancos, o Ministério da Fazenda e o governo. Na minha visão, saiu um desenho equilibrado para todos. Até aqui, eu vejo o resultado como positivo. O programa ainda está dentro da janela inicial de 90 dias, mas já tem ajudado muitas famílias nessa transição. O governo também entendeu que era necessário desenvolver um programa voltado para taxistas e motoristas de aplicativo. Naturalmente, uma iniciativa desse tamanho depende dos agentes financeiros, que são os responsáveis por repassar o crédito no final do processo. Nós ainda estamos no começo desse movimento, mapeando os clientes elegíveis, as ofertas e as condições em que esse crédito será ofertado. É um programa mais recente e ainda não existe um resultado concreto, porque ele segue em construção operacional, inclusive com participação do FGI. Além disso, existem outros programas, como o Pronampe e o próprio FGI voltado para pequenas e médias empresas. Países desenvolvem programas específicos para determinados segmentos, e o importante é que haja diálogo com o setor financeiro, algo que tem acontecido.
Broadcast: A incerteza eleitoral pode prejudicar o ambiente de negócios e do mercado?
Maluhy: O mercado está vigilante. Acabamos de fazer a nossa conferência em Nova York e houve muito interesse dos investidores para entender o cenário político. Naturalmente, cada investidor faz sua própria leitura sobre quem pode ser o próximo presidente, se haverá reeleição do Lula ou um novo candidato, e quais serão os programas apresentados. O que eu espero daqui para frente é um debate menos polarizado e mais focado em projetos, planos e programas. É isso que o mercado tende a observar: qual é a equipe econômica, qual é o plano econômico, qual é a visão sobre dívida pública e quais são as expectativas olhando para frente. Ainda é cedo, porque a eleição será apenas em outubro, mas o interesse pelo tema deve aumentar. Mais perto da eleição, pode haver mais volatilidade dependendo do posicionamento dos candidatos e da evolução das pesquisas. Independentemente de quem seja o candidato, o nosso partido é o Brasil. O Itaú é uma instituição apartidária e a nossa principal visão é que o País precisa avançar em reformas estruturantes, com uma agenda de produtividade e eficiência para aumentar a competitividade global. No fim do dia, não é o Brasil contra o Brasil, é o Brasil competindo com outros países. O País tem muitos atributos favoráveis, como geolocalização, segurança alimentar, matriz energética limpa, capital humano e empresários competentes, mas a trajetória da dívida pública é um tema relevante.
Broadcast: Como enfrentar essa questão fiscal?
Maluhy: Nos últimos anos, a dívida cresceu de forma importante em relação ao PIB, enquanto o juro real brasileiro continua elevado. Evidentemente, existem fatores externos que afetam esse cenário, como guerras, petróleo, inflação e fertilizantes. Mas isso não está sob nosso controle. O que o Brasil pode controlar é sua capacidade de enfrentar reformas estruturais, discutir um orçamento mais flexível, melhorar o ambiente institucional, reduzir os juros estruturalmente e fortalecer a segurança jurídica. Esses são os pilares centrais para reduzir o custo de capital no Brasil e criar condições para investimentos de longo prazo, tanto de empresas brasileiras quanto estrangeiras. O País precisa construir uma agenda estruturante para enfrentar seus desafios e aumentar os investimentos olhando para frente.
Broadcast: Depois da liquidação do Banco Master, o Conselho Monetário Nacional (CMN) endureceu regras do Fundo de Garantidor de Créditos (FGC), mas foram mudanças focadas no lado dos bancos emissores. O senhor espera medidas voltadas para as plataformas de distribuição?
Maluhy: Essa agenda vem sendo discutida em grupos de trabalho montados com as diversas associações e que abrangem todos os agentes do sistema, dos bancos grandes aos pequenos, passando pelas plataformas. É importante lembrar que hoje todos nós [os bancos] somos distribuidores. Não existe monopólio da distribuição. O regulador tem informações suficientes para avaliar os eventos que aconteceram, entender se houve alguma distorção que precise ser corrigida e fazer simulações internas com base nos dados fornecidos pelas instituições financeiras. As propostas estão na mesa sendo debatidas com o regulador e, no fim do dia, cabe a ele decidir e levar os temas ao CMN para deliberação. Eu vejo o Banco Central, o Gabriel Galípolo (presidente do BC) e a equipe bastante engajados nesse debate, atentos aos riscos e preocupados com as consequências das mudanças, mas também dando tempo para que as instituições se adaptem e corrigindo eventuais distorções. Ainda existem pontos que podem ser ajustados, sem dúvida, mas essa é uma agenda que vem sendo conduzida de forma mais aberta e transparente, com todos os agentes sentados à mesa.
Broadcast: No ano passado, o Itaú registrou lucro recorde de R$ 47 bilhões. O que explica essa resiliência em um cenário macroeconômico mais desafiador?
Maluhy: Não existe uma bala de prata. Isso é uma construção feita ao longo dos anos. O banco completou recentemente 101 anos de história sempre com alguns princípios e valores muito importantes, como visão de longo prazo, criação de valor para o acionista e uma companhia centrada no cliente acima de tudo. Também somos uma companhia que foi capaz de se reinventar ao longo dos ciclos, em uma transformação constante. O Itaú Unibanco é um banco universal, que atua em diversos negócios, do atacado ao varejo, e em todos eles buscamos ter um papel de relevância. Acho que essa completude de portfólio, com operações dentro e fora do Brasil, somada a uma cultura forte e a uma transformação digital e cultural que vem sendo feita ao longo dos anos é o que nos guia a entregar resultados relevantes ao longo do tempo. E tudo isso só é possível por causa do capital humano que o banco tem. Então, os nossos 90 mil Itubers [colaboradores] fazem parte dessa entrega.
Broadcast: O senhor está há cinco anos à frente do banco. O quanto desse resultado reflete o seu estilo de gestão?
Maluhy: O meu maior legado é criar as condições para o banco se perpetuar. Eu não trabalho olhando para qual será o meu legado pessoal, qual será a minha marca registrada ou como vou ser lembrado quando não estiver mais aqui. Acho que isso é consequência do conjunto da obra. Eu comparo isso a uma corrida de revezamento. Recebi o bastão em uma posição de destaque e meu objetivo é passar esse bastão ao meu sucessor também em uma posição de destaque, para que alguém com um perfil melhor do que o meu para o próximo ciclo possa correr e entregar resultados ainda maiores e melhores.
Broadcast: O senhor assumiu em um momento em que os bancos grandes eram confrontados com a concorrência crescente com as fintechs. O quanto dessa distância já diminuiu?
Maluhy: A transformação é uma condição constante da organização. Ao longo desse período, o banco passou por uma transformação digital e cultural muito importante. Na transformação digital, sempre haverá algo a mais para fazer. Mas acredito que o Itaú já superou a fase em que devia para os novos competidores em velocidade de entrega, modernização de plataformas, modelo de trabalho, dinamismo e foco no cliente. Hoje, o banco já consegue competir de igual para igual com qualquer player, seja ele um banco tradicional ou digital.
Broadcast: O que ainda falta?
Maluhy: Ainda existem etapas relevantes pela frente. Uma delas é o desligamento definitivo dos mainframes nos próximos dois anos, algo muito relevante para uma instituição com o legado do Itaú. A inteligência artificial passou a fazer parte do dia a dia da transformação do banco. Nessa nova etapa, o Itaú quer estar na vanguarda. O que no passado eram virtudes do banco, como seus sistemas legados, também se transformaram em desafios olhando para frente. Toda a migração para arquitetura em nuvem e a modernização das plataformas habilitaram o banco para participar da transformação trazida pela inteligência artificial. Nesse sentido, o timing foi muito favorável para o Itaú chegar preparado a esse novo ciclo de transformação dos mercados e da economia global.
Broadcast: No primeiro trimestre, muitos analistas se surpreenderam com a capacidade do Itaú de expandir a rentabilidade – o retorno sobre o patrimônio (RoE) fechou o trimestre em 24,8%, bem à frente de pares. É possível sustentar esse nível de rentabilidade?
Maluhy: Não costumamos dar guidance de RoE. O nosso olhar sempre é criação de valor, que é a diferença entre a rentabilidade e o custo de capital. No guidance deste ano, o ponto médio implica um RoE acima de 20%, e a gente não vê razão para não entregar um resultado acima desse patamar ao longo de 2026. A rentabilidade do banco é uma função do custo de capital no Brasil. Quanto mais baixo o custo de capital, com juros estruturalmente menores, ambiente institucional mais sólido e maior segurança jurídica, menor tende a ser o custo de equity. E o nosso foco continuará sendo gerar retorno acima desse custo. Nós dirigimos a organização com disciplina de alocação de capital, criação de valor e visão de longo prazo. E, para isso, é preciso ser uma organização obcecada pelo cliente. Se você consegue entregar uma organização melhor para o cliente todos os dias, todo o restante do modelo de negócio evolui junto: principalidade, relacionamento, crescimento da base de clientes, expansão dos negócios e novas oportunidades. A gente pretende continuar sendo um banco muito relevante, com um ecossistema completo, olhando novas oportunidades e entregando rentabilidade acima do custo de capital – portanto, criando valor para os acionistas.
Broadcast: Apesar disso, depois da divulgação do balanço do primeiro trimestre, a ação reagiu em queda. Preocupa que o mercado esteja ficando mais exigente para os resultados do Itaú?
Maluhy: Claro que não. A gente não olha o curto prazo e não se move pelas oscilações da ação no curto prazo. Quando você olha o nosso Total Shareholder Return [retorno total ao acionista] nos últimos cinco anos – uma métrica que considera a valorização da ação somada aos dividendos pagos no período – o retorno ficou acima de 20%. Isso mostra que o banco continua entregando rentabilidade relevante, distribuindo dividendos, crescendo e mantendo uma boa alocação de capital. O preço de mercado sempre será impactado por variáveis que a gente controla e outras que não controla. O desempenho também depende do cenário externo, do ambiente doméstico e das posições relativas dos investidores dentro do setor financeiro. Há investidores com visão de longuíssimo prazo e outros mais focados no curto prazo. Por isso, a volatilidade faz parte do negócio.
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