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Justificativa foi considerada pouco usual pela Warren Rena, para a qual o Copom adotou tom significativamente flexível
18 de junho de 2026, às 11:54
Por Caroline Aragaki, Daniel Tozzi, Gustavo Nicoletta, Francisco Carlos de Assis e Antonio Perez*
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) entregou o corte de 0,25 ponto porcentual da Selic conforme esperado, mas surpreendeu ao citar o primeiro trimestre de 2028, visto que o período só seria horizonte relevante a partir da próxima reunião.
A interpretação do mercado financeiro é de que o uso da flexibilidade temporal, permitida pelo atual regime de meta contínua da inflação, foi feita para respaldar o afrouxamento desta quarta-feira e ainda manter a porta aberta para mais cortes, apesar da deterioração nas expectativas de inflação e do balanço de riscos assimétrico para cima.
No nono parágrafo do comunicado, o Copom diz avaliar: “que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos”.
A justificativa foi considerada pouco usual pela Warren Rena, que diz que o Copom adotou um tom significativamente dovish ao cortar o juro básico em 0,25 pp com base em trajetórias possíveis para a política monetária e alongando o horizonte relevante.
Na mesma linha, a Capital Economics cita que o banco central adicionou vários novos parágrafos que parecem projetados para justificar a decisão de cortar as taxas hoje e para manter a porta aberta a mais flexibilização. Tanto é que a consultoria britânica se diz confortável com a projeção base de que a taxa Selic encerre 2026 a 13,75% ao ano, visto que o Copom sugere que pretende afrouxar ainda mais a política monetária.
O superintendente de pesquisa econômica do Itaú, Fernando Gonçalves, considera que o comitê deixou a porta aberta para as próximas decisões, mas que o viés é claramente dovish. Segundo o profissional, o fato de o BC ter antecipado a menção à inflação ao final do primeiro trimestre de 2028 para este comunicado é como se ele estivesse fazendo uma projeção da projeção, é uma rolagem antecipada.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, nota que o BC faz uso de uma flexibilidade permitida pelo atual regime de meta contínua da inflação. “Quando muda o horizonte de tempo relevante e a inflação fica mais próxima de 3%, mantém a possibilidade de queda dos juros”, afirmou.
Já a pesquisadora da FGV-EESP e consultora econômica, Tatiana Pinheiro, afirma não saber qual justificativa o BC dará para o aumento do horizonte relevante da política monetária, que saiu de 18 para 21 meses. Ela nota, também, que no final do comunicado o BC ainda traz projeções para o quarto trimestre de 2027.
Para o economista Marco Caruso, do Santander, o comunicado foi hawkish em comparação com o de abril, mas dovish em relação à função de reação e às expectativas do mercado.
De fato, o Copom não fechou um guidance. No sétimo parágrafo, a autoridade “reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
Para Caruso, do Santander, a ressalva da autarquia de esperar novas informações para decidir os próximos passos é importante, uma vez que as expectativas de inflação seguem elevadas e há potencial de piora, já que variáveis relevantes, como a taxa de câmbio e as condições financeiras globais, podem evoluir em uma direção desfavorável com uma postura mais agressiva do Federal Reserve.
Nesta quarta-feira, antes da decisão do Copom, a mensagem do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, foi de que o banco central norte-americano vai buscar a meta de inflação de 2% ao ano. Na esteira, até o presidente dos EUA, Donald Trump, usualmente crítico a juros elevados, admitiu a possibilidade de que pode haver alta nos juros americanos este ano.
No comunicado de ontem, o Copom adicionou um risco para cima ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA): “estímulos à demanda agregada, em particular consumo”. Com isso, passou a apontar quatro riscos para cima e três para baixo, enquanto nas reuniões anteriores vinha apresentando três riscos para cada lado.
O Copom trouxe ainda revisão altista nas projeções para IPCA de 2026, saindo de 4,6% no comunicado anterior para 5,2%. E, para o IPCA no horizonte do quarto trimestre de 2027, de 3,5% para 3,7%.
*Com colaboração de Cristina Canas, Denise Abarca e Renata Pedini
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