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Indústria cervejeira ganha fôlego, mas balanço da Ambev deixa investidores com sede de mais

Volumes da fabricante cresceram apenas 0,5% no 3º tri; mercado avançou 4%

29 de outubro de 2026, às 18:27

Ambev
Foto: Leo Martins/Estadão - 15/05/2026

Júlia Pestana

A indústria voltou a encher os copos de cerveja, mas a Ambev ainda precisa convencer os investidores a brindar. Enquanto os volumes da fabricante cresceram apenas 0,5% no Brasil no terceiro trimestre, o mercado cervejeiro avançou cerca de 4%, diferença que azedou o humor na Bolsa. Para a companhia, porém, a fotografia de um único trimestre não revela toda a história.

O calendário da Copa do Mundo embaralhou a comparação entre os períodos, uma vez que o torneio movimentou as vendas tanto no fim de junho quanto em julho. A avaliação é do diretor financeiro da Ambev, Guilherme Fleury, que considera mais adequado analisar o segundo e o terceiro trimestres em conjunto.

Nessa conta, a história muda de figura. Entre abril e setembro, os volumes de cerveja vendidos pela Ambev aos estabelecimentos cresceram 2,7%, mais que o dobro da expansão de 1,3% registrada pela indústria no mesmo período, conforme dados da Nielsen apresentados pela fabricante.

A própria indústria, porém, ainda tenta encontrar seu ritmo. Depois de dois anos, 2023 e 2024, favorecidos pelo avanço da renda disponível e pelas temperaturas elevadas do El Niño, o consumo perdeu força no ano passado. “2025 não tinha um problema estrutural da categoria, foram coisas cíclicas que impactaram a nossa base”, afirmou o Fleury, em entrevista a Broadcast.

A explicação não impediu uma reação negativa na Bolsa. As ações da Ambev chegaram a cair 5% na primeira etapa do pregão de hoje, tocando mínima intradiária de R$ 14,45 e liderando as perdas do Ibovespa. A pressão diminuiu ao longo da sessão, mas os papéis ainda fecharam em baixa de 4,4% (R$ 14,55).

O incômodo dos analistas vai além do descompasso com a indústria. Para a XP, que esperava crescimento de 4% nos volumes de cerveja da Ambev no Brasil, a estratégia de preços da fabricante em relação aos concorrentes pode ter limitado as vendas.

“A Ambev agora enfrenta um ambiente competitivo, mais desafiador e não contará mais com as comparações favoráveis que sustentaram os resultados recentes”, disse o analista da corretora, Leonardo Alencar.

Disputa acirrada

A concorrência acrescenta pressão a essa equação. Ontem, 28, a Heineken divulgou crescimento de volumes na faixa de 4% a 6% no Brasil, embora sobre uma base mais fraca, após retração de cerca de 12% no terceiro trimestre de 2025, segundo o Citi.

Mais do que a diferença nas vendas, o movimento coloca os preços no centro da disputa. A própria Heineken reconheceu que decisões comerciais contribuíram para a volatilidade dos preços no Brasil e passou a corrigir essa estratégia.

Para o Itaú BBA, a possibilidade de reajustes abaixo da inflação pela concorrente nas Américas pode dificultar o repasse de custos da Ambev em 2027, num ambiente de consumo ainda pressionado.

A Ambev, por sua vez, aposta na força das marcas para conciliar preços mais elevados. “Mantivemos o preço relativo acima do ano passado e, ainda assim, ganhamos mercado”, afirmou o presidente da Ambev, Carlos Lisboa, durante teleconferência.

O portfólio ajuda a sustentar essa confiança. Enquanto as cervejas tradicionais perderam volume, as marcas premium cresceram na faixa de 10% no Brasil, e as versões sem álcool avançaram na casa de 40%.

As chamadas opções equilibradas, que incluem produtos com menos calorias e carboidratos, mais que dobraram de volume. Segundo o CEO, a força das marcas da Ambev alcançou o maior nível dos últimos cinco anos.

O avanço das categorias de maior valor agregado, contudo, ainda não se traduziu integralmente em rentabilidade. Na operação brasileira de cerveja, a receita líquida cresceu 4,8%, para R$ 10,1 bilhões, mas o Ebitda ajustado avançou apenas 1%.

Além dos volumes

No consolidado, o Ebitda ajustado somou R$ 7,27 bilhões, alta de 3%, mas abaixo das expectativas. Já o lucro líquido ajustado surpreendeu positivamente, com avanço de 14,3%, para R$ 4,3 bilhões. Para XP e Itaú BBA, entretanto, parte dessa melhora veio do resultado financeiro, beneficiado por efeitos cambiais que não necessariamente se repetirão.

O desempenho fora do principal negócio brasileiro ajudou a equilibrar o resultado. Na América Latina Sul, o Ebitda ajustado cresceu 41,5% organicamente, apesar da fraqueza do consumo argentino.

A posição financeira também oferece algum conforto. O fluxo de caixa operacional cresceu 11%, para R$ 7,68 bilhões, e a Ambev anunciou a recompra de até 190 milhões de ações, equivalente a cerca de R$ 2,9 bilhões. A medida pode dar suporte aos papéis, na avaliação dos bancos, mas não elimina as dúvidas sobre a recuperação operacional.

A chegada de 2027, porém, deve trazer novos desafios. Sem as bases favoráveis de comparação deste ano, a Ambev terá de sustentar a recuperação dos volumes em meio a um consumidor ainda pressionado e a uma concorrência mais intensa, sem abrir mão da rentabilidade.

A fabricante mantém o otimismo, mesmo sem esperar um ambiente mais tranquilo. “A gente não espera um cenário estável de novo”, reconheceu Lisboa. A aposta é que a força das marcas e a diversificação do portfólio sejam suficientes para manter o crescimento, mesmo quando as condições externas deixarem de ajudar.

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