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Falta pouco para que o comércio entre máquinas seja realidade no Brasil

Brasileiros estão entre os maiores entusiastas em abrir a carteira para IA

3 de agosto de 2026

Aramis Merki II

Imagine pedir a um assistente de inteligência artificial (IA) para encontrar o melhor preço, comprar uma passagem aérea, um fone de ouvido ou renegociar o cheque especial – e ele simplesmente resolver, sem que você abra um aplicativo, digite um cartão ou clique em nada. Esta é a realidade que o chamado “comércio agêntico” deve proporcionar, uma negociação entre as máquinas. A tecnologia com autonomia para decisões de compra e de gestão financeira ainda é promessa, mas ela pode se tornar realidade mais rapidamente e de forma mais ampla no Brasil graças ao Pix e ao Open Finance.

Os sistemas construídos para outros propósitos, como o Pix, deixam uma infraestrutura disponível que falta ao resto do mundo para dar aos agentes de IA a chave da carteira dos consumidores.

Levantamento da consultoria Gartner, de janeiro deste ano, projeta que 20% das transações de comércio digital serão realizadas por meio de plataformas de inteligência artificial até 2030, seja via finalização de compra dentro da própria plataforma, seja por agentes autônomos que compram em nome do usuário.

Segundo a Associação Open Finance Brasil, o país reúne hoje boa parte dos alicerces necessários para o comércio agêntico: dados financeiros padronizados e compartilhados mediante consentimento, mecanismos de identidade e segurança e uma infraestrutura de pagamentos instantâneos disponível 24 horas por dia. Na prática, o Open Finance permite que uma aplicação de IA construa uma visão consolidada das finanças de uma pessoa, condição essencial para que um agente tome decisões contextualizadas, enquanto o Pix oferece a camada padronizada de execução, com pagamentos imediatos, agendados e automáticos.

O consumidor brasileiro, aliás, já demonstra disposição acima da média. Pesquisa da Accenture mostra que 10% das pessoas permitiriam hoje que um agente de IA comprasse sem qualquer intervenção humana, mas um terço (33%) já aceitaria conceder autonomia plena ao agente dentro de limites predefinidos, como preço e preferências. Mais expressivo ainda: 85% dos brasileiros preferem um agente de IA pessoal a uma pessoa próxima para fazer compras em seu lugar.

Os números do Brasil superam a média global levantada pela mesma pesquisa, que ouviu mais de 25 mil consumidores em 16 países. Mundialmente, a confiança em um agente pessoal de IA superando a de um amigo próximo aparece em 74% dos entrevistados, 11 pontos porcentuais abaixo do resultado brasileiro. Já os que topariam uma experiência de compra totalmente autônoma são 9%, ante os 10% do Brasil.

Apesar da infraestrutura brasileira compatível com o funcionamento dos agentes, ainda há desafios. Para a Open Finance Brasil, a camada de execução financeira está madura, mas ainda é preciso construir etapas como a certificação de identidade dos agentes, o controle do que eles são autorizados a operar e quais os limites.

As mudanças também impactam o setor de varejo. De acordo com a Bain & Company, o tráfego gerado nas plataformas de comércio digital a partir das ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Gemini e Claude, cresceram 5.000% no último ano.

Testes na rua

Já existem movimentações no mercado local. A fintech Iniciador, que atua como iniciador de transação de pagamento (ITP) autorizada pelo Banco Central, tem uma solução de pagamentos agênticos via Pix: o usuário autoriza previamente o acesso à conta, de forma semelhante a salvar um cartão em uma carteira digital, e as transações seguintes passam a ser autenticadas por biometria dentro do próprio canal de conversa com o agente.

Guilherme Besler, cofundador da Iniciador, avalia que o Pix é ideal para funcionar como trilho para as operações entre agentes. Ele compara com o uso de stablecoins, que são baseadas na tecnologia blockchain, mas são muito mais custosas.

Na mesma linha, Frederico Succi, vice-presidente de produtos e inovação da Visa no Brasil, argumenta que o Pix é adequado ao pagamento programável pelo fator “tempo real”. A instantaneidade é central para agentes que precisam confirmar diversas microdecisões para executar ações. Ele pondera, no entanto, que a confiança do consumidor ainda é o principal freio: pesquisas citadas por ele mostram que a maioria dos brasileiros toparia usar agentes de IA em etapas críticas de compra, mas ainda resiste à ideia de autonomia total, sem intervenção humana final.

Além do Brasil

A tese ganha eco fora do sistema financeiro doméstico. Nos EUA, a Visa já anunciou parceira com a OpenAi, criadora do ChatGPT, para criar ferramentas e protocolos que viabilizam o comércio agêntico. O projeto já passou por testes avançados no país, com usuários reais, embora o calendário para expansão global ainda dependa de aprovações regulatórias.

Levantamento da Deloitte focado no comércio B2B indica que compradores estão adotando IA agêntica mais rápido que seus fornecedores. Segundo a pesquisa, feita com mais de mil compradores e fornecedores americanos, quase 40% dos compradores já usam agentes de IA no processo de compra – para avaliar produtos, configurar pedidos, revisar contratos e comparar preços. Do lado dos fornecedores, a adoção ainda é menor (24% já utilizam agentes no processo de vendas). Na Ásia-Pacífico, outra pesquisa da consultoria mostra que 29% das empresas de consumo já adotam IA agêntica hoje, número que deve saltar para 76% em até dois anos.

Eduardo Migotto, superintendente de produtos, tecnologia e dados da Cielo, considera que as infraestruturas para o comércio agêntico são diversas, e que o Pix é apenas uma das opções. A Cielo lançou recentemente um assistente conversacional para e-commerces com protocolo para a parte de pagamentos desenvolvido pelo Google Cloud, o Agent Payments Protocol (AP2). Esta tecnologia é que orquestra os agentes, os dados dos itens comercializados e todos os atores envolvidos.

Para Migotto, o Pix programado deve entrar nesse ecossistema à medida que a confiança do consumidor amadurecer, permitindo ações agendadas e assíncronas dentro de limites definidos previamente pelo usuário.

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