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Para Alexandre Tombini, executivo do BIS e ex-presidente do Banco Central, o ambiente global está mais complexo
29 de junho de 2026
Por Altamiro Silva Junior
A economia internacional tem se mostrado resiliente a choques, mas está sob pressão da inflação, da política fiscal pelo maior endividamento dos governos e das incertezas em torno da inteligência artificial, diz à Broadcast o representante-chefe para as Américas do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), Alexandre Tombini, ex-presidente do Banco Central do Brasil. “A política fiscal deve colocar as finanças públicas em uma trajetória sustentável”, afirma ele, do México, onde fica o escritório regional da entidade, sediada na Suíça.
O BIS acaba de publicar seu relatório anual de 2026, que demonstra preocupação com o boom de investimentos em IA e alerta para o risco de episódios de estresse nos mercados se espalharem mais rapidamente, em razão do crescimento das instituições financeiras não bancárias, que já são as maiores detentoras de títulos soberanos em países avançados. “Instituições financeiras não bancárias ampliam a volatilidade e podem forçar intervenções no mercado”, diz Tombini, argumentando que essas medidas precisam ser temporárias, focadas e reversíveis. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: O relatório anual do BIS mostra que a economia mundial tem se mostrado resistente a choques, ajudada por fatores como os investimentos em IA. Mas esses fatores estão sob pressão. Quais os desafios que esse novo cenário coloca?
Alexandre Tombini: Em 2025, vimos uma economia bastante resiliente. As tarifas efetivas de importação ficaram abaixo do que se temia. As empresas também ajustaram suas cadeias de suprimento e as margens, não repassando aos consumidores esses choques em 2025 e também ao longo deste ano. O otimismo em torno da inteligência artificial também impulsionou o investimento, com impacto nas bolsas, especialmente nos Estados Unidos, e isso manteve as condições financeiras de certa forma favoráveis ao longo daquele ano e uma parte deste ano.
Broadcast: Esse ambiente está passando por mudanças?
Tombini: Esse ambiente se tornou mais complexo. O choque de energia com a guerra no Oriente Médio reacendeu pressões inflacionárias. Cresceram as dúvidas sobre os gastos com investimento em IA, se seriam sustentáveis. As avaliações, especialmente no mercado de ações, parecem um pouco esticadas, elevadas. E as taxas de juros mais altas recentemente têm pesado sobre o custo do serviço da dívida soberana dos países.
Broadcast: E a inflação é um ponto de atenção nesse cenário?
Tombini: O relatório do BIS ressalta quatro áreas que merecem atenção. A primeira é que a inflação voltou a subir diante dessas pressões de custos que vão se propagando ao longo das cadeias e devem se dissipar de forma gradual, mesmo com a reabertura do Estreito de Ormuz. Resta saber se o tráfego total será retomado de forma sustentável. O segundo ponto é que o boom de investimento em IA pode ser difícil de sustentar se os rendimentos esperados não se materializam.
Broadcast: E a terceira área de atenção?
Tombini: A terceira tem a ver com as vulnerabilidades financeiras. Os prêmios de risco estão bastante comprimidos, o endividamento subiu e aumentou também de forma não tão transparente, com o desenvolvimento do mercado de crédito privado. Então, um ajuste brusco no preço dos ativos pode gerar choques que se amplificam e se transmitem mais fortemente.
Broadcast: E pelo lado fiscal?
Tombini: O quarto fator de atenção são as pressões fiscais, que se intensificaram mais recentemente. Temos neste momento uma confluência de dívida mais alta, maiores pagamentos de juros e mais necessidade de refinanciamento, isso em um ambiente que é um pouco menos benigno.
Broadcast: Quais as implicações que o BIS aponta no relatório dessas mudanças para as políticas econômicas?
Tombini: O relatório ressalta três implicações. A primeira é que a política monetária deve se manter vigilante para ancorar as expectativas de inflação e priorizar a estabilidade de preços no médio prazo, mesmo que isso implique custos fiscais de curto prazo. Isso pode exigir uma postura mais restritiva como vimos ocorrendo em várias jurisdições nas últimas semanas.
Broadcast: E a recomendação para os governos na política fiscal?
Tombini: A segunda recomendação é que a política fiscal deve colocar as finanças públicas numa trajetória sustentável, fundamentada num arcabouço institucional de médio prazo que seja crível. A consolidação fiscal deve proteger o gasto que resulte em maior crescimento. A terceira e última é que a adoção de medidas prudenciais deve ir além dos bancos, para conter os riscos de endividamento excessivo, descasamento de liquidez, onde quer que eles apareçam, nos bancos ou nas instituições não bancárias que fazem parte do sistema financeiro.
Broadcast: No caso da inflação, o que esperar pela frente?
Tombini: O choque de oferta de energia que estamos vendo neste momento é substancial. E seus efeitos têm se propagado pelas cadeias de suprimentos. Desde que o conflito no Oriente Médio se intensificou, a inflação global voltou a subir. E os preços de insumos-chave, como plásticos e fertilizantes, aumentaram. Embora o estreito de Ormuz tenha sido reaberto, vai precisar de tempo para eliminar os gargalos, para repor estoques e reparar a capacidade danificada. O relatório aponta que as pressões de preços podem persistir nesse contexto.
Broadcast: O relatório diz que tem havido reavaliação dos riscos fiscais. Em que sentido?
Tombini: A política fiscal avança nas recessões, como na pandemia, mas tem dificuldade de se consolidar nos períodos de recuperação. Essa assimetria gera uma situação que estamos vivendo hoje. O relatório explica como maiores níveis de dívida pública afetam os canais de transmissão da política monetária em direções incertas. O fato de ter dívida muito maior nos países avançados em meio a uma política fiscal não consolidada pode fazer com que esses canais se intensifiquem, uma situação que conhecemos bem nos mercados emergentes. Pode ocorrer uma reavaliação do risco fiscal, com uma alta da percepção do risco fiscal quando a expansão da dívida é vista como não sustentável ou quando um aperto de política monetária gere mais dúvidas na cabeça dos agentes sobre a sustentabilidade da dívida. Se há uma reprecificação de alta do risco fiscal, isso pode endurecer as condições financeiras da economia, e aí contrair a demanda agregada e desvalorizar a moeda.
Broadcast: As instituições financeiras não bancárias já são os maiores detentores de títulos de governos em países desenvolvidos. Que tipo de risco trazem para a economia mundial?
Tombini: O mercado financeiro era dominado na questão dos ativos pelo sistema bancário. Agora há uma grande participação das instituições financeiras não bancárias, que são grandes detentores de ativos financeiros e soberanos, seja nas economias avançadas ou nas emergentes. E elas reagem com maior velocidade ao aumento de volatilidade e à reprecificação da taxa de juros do que os bancos. Elas têm mais sensibilidade às mudanças nas condições de mercado, o que gera mais volatilidade. Os bancos centrais têm que estar focados nisto. Eventualmente, isso pode gerar necessidade de intervenção nos mercados, para estabilizar seu funcionamento. Neste caso, recomendamos que essas intervenções sejam temporárias, focadas e reversíveis, pois tem consequências de médio e longo prazo.
Broadcast: A valorização forte das ações das empresas de IA é um tema que preocupa o BIS? O relatório fala que uma grande correção no mercado de ações pode ter consequências macroeconômicas maiores hoje do que no passado.
Tombini: Na IA, há uma corrida grande para sair na frente. Os investimentos podem não gerar retornos antecipados e isso geraria frustração. A IA vai ter um impacto importante, ainda não sabemos exatamente suas consequências macroeconômicas. Vai depender do nível de adoção, de quão disruptiva vai ser. Temos um contexto agora de juros mais altos em função desse aumento da inflação e isso pode afetar como esse investimento em IA é financiado. Havendo uma correção importante nesse setor, as consequências podem se transmitir com mais rapidez e força do que em ciclos anteriores. As famílias, especialmente nos EUA e outras economias avançadas, detêm hoje mais ações. Então, o efeito riqueza por uma correção no preço dessas ações poderia ter um impacto maior e sendo os EUA o centro, isso teria uma propagação internacional também mais rápida.
Broadcast: E pelo lado do investimento?
Tombini: Temos visto mais recentemente que há maior alavancagem para financiar esse boom, inclusive no mercado de crédito privado, que tem menos transparência. Se o ânimo mudar nesse setor, podemos ter uma redução importante de investimentos. O financiamento a essas empresas pode se tornar muito mais restritivo e ocorrer certa escassez de liquidez para o setor.
Broadcast: O relatório fala em potenciais riscos que a IA representa para a estabilidade financeira mundial. Que tipo de desafio a rápida evolução da IA coloca para os bancos centrais?
Tombini: Eu destacaria três riscos. Primeiro, sobre o investimento. Essa corrida para elevar a participação no mercado de IA pode estar levando a um excesso de investimento. Isso pode ter um ajuste lá na frente. O segundo risco é associado ao financiamento. Tem mais alavancagem, menos respaldo em fluxo de caixa, tudo isso num ambiente em que os retornos podem vir a decepcionar pelo menos para algumas empresas. E terceiro, os riscos cibernéticos. As ferramentas novas de IA podem reduzir o custo dos ataques cibernéticos, aumentar a frequência e a velocidade em que esses ataques ocorrem ao sistema financeiro. Pelo lado positivo, pensamos que a IA pode, deve e está ajudando a detectar em tempo a vulnerabilidade no sistema financeiro e nos sistemas de pagamento das jurisdições.
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