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Brasil entra na nova rota bilionária da internet por satélite

O D2D tem potencial de atrair muitos mais clientes, sem depender de roteadores, antenas ou redes terrestres

21 de maio de 2026

Por Circe Bonatelli *

O mercado de internet por satélites está movimentando bilhões de dólares ao redor do mundo, com as gigantes internacionais se preparando para crescer por meio de uma nova tecnologia, que é a oferta de internet rápida diretamente nos celulares, uma tecnologia conhecida como direct to device, ou D2D. E o Brasil está na rota dos investimentos.

Esta é uma nova fase para o setor, que até aqui comercializou internet por satélite como uma espécie de banda larga fixa, dependente de roteadores em solo. O D2D tem potencial de atrair muitos mais clientes, sem depender de roteadores, antenas ou redes terrestres. Também deve ajudar a cobrir áreas remotas não atendidas pelas operadoras tradicionais, além de situações de emergências e desastres naturais, em que a infraestrutura em solo sofrem panes.

De olho nesse mercado, a Amazon fechou há poucos dias a compra da Globalstar, um negócio de US$ 11,6 bilhões (cerca de R$ 58 bilhões). Com essa aquisição, a rede de satélites da Amazon poderá oferecer conexões diretas de internet para celulares e demais dispositivos móveis, como tablets e computadores.

Outra grande tacada foi da Starlink, empresa de internet por satélites de Elon Musk. Em setembro do ano passado, ela acertou a compra da Echostar por US$ 17 bilhões (perto de R$ 90 bilhões). A Echostar detém frequências para D2D em diversos países, inclusive no Brasil.

Ao redor do mundo, pouco mais de uma dezena de países já conta com esses serviços, mas a maioria em fase experimental, porque a cobertura ainda não é grande o suficiente para a conexão funcionar sem interrupções. Os planos comerciais ainda têm um alcance pequeno, mas devem ganhar escala nos próximos meses.

“O D2D está saindo de algo experimental para algo mais comercial. Tem mais de uma dezena de países já utilizando o D2D”, afirmou o presidente da Abrasat, Mauro Wajnberg, durante o Painel Telebrasil, organizado pela Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil). “Tem algo realmente mudando nessa dinâmica”.

Brasil entrou na rota

Aqui no Brasil, há duas empresas mais avançadas no páreo do D2D. A AST Space Mobile, do Texas, e listada na bolsa americana Nasdaq, acaba de receber autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para atuar no setor. E a Starlink que protocolou, em fevereiro, um pedido oficial do mesmo gênero junto ao órgão regulador, conforme apurou o Broadcast.

O modelo de negócios de ambas será baseado em parceria com as operadoras locais para oferta dos planos aos consumidores finais. A estratégia é complementar a oferta de internet móvel em áreas com pouca cobertura, e não competir diretamente com as teles tradicionais.

A AST abriu seu escritório em São Paulo ano passado e está procurando firmar parcerias até o começo do ano que vem, contou o Head de Assuntos Internacionais e Regulatórios da AST, Rodrigo Gebrim, em entrevista ao Broadcast. “Já conseguimos a autorização da Anatel, que foi um passo muito importante. E agora, temos muitas conversas em andamento com as operadoras”.

Nos Estados Unidos, a AST tem acordos com a AT&T e a Verizon, e na Europa, trabalha com a Vodafone. Essas operadoras enxergam tanto potencial no negócio que entraram no seu quadro de acionistas. Pela frente, a AST espera chegar a 45 satélites em órbita até o fim de 2026, e atingir 90 até o fim de 2027, contou Gebrim. Com isso, será possível ter uma cobertura global, sem interrupções, o que viabilizará o lançamento dos planos comerciais de internet.

Na visão das autoridades locais, o D2D pode ajudar a cobrir regiões carentes de cobertura. “Esse é um setor muito importante. Olha o tamanho do Brasil. É impossível você levar cobertura para todo o País, considerando a sua extensão territorial”, afirmou ao Broadcast o presidente da Anatel, Carlos Baigorri. “Sem dúvida nenhuma, o D2D é uma solução fenomenal para resolver o problema da conectividade”.

A opinião é compartilhada pelo Diretor de Políticas Regulatórias do Ministério das Comunicações, Juliano Stanzani, que vê potencial para a internet por satélites chegar a comunidades remotas, além de ser usada em políticas de conectividade para órgãos públicos, aplicações militares, segurança civil e rodovias federais, por exemplo. “A preocupação central do governo é a inclusão digital. Estamos olhando oportunidades de uso do D2D para alcançarmos padrões mais altos de conectividade”, frisou, durante o Painel Telebrasil.

Para Stanzani, estimular a concorrência no D2D é uma forma também de dar mais segurança para o setor público adotar essa tecnologia sem depender de um único fornecedor. “Quando falamos em soberania digital, uma opção é a multilateralidade de ofertas. E estamos começando a ver esse cenário se firmar”, disse.

* O jornalista viajou a convite do Tebrasil

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