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Chance de Copom acelerar ritmo de cortes diminui após inflação mais descolada da meta

Analistas consideram comunicado do Copom mais duro que o esperado e a interpretação é que redução da Selic, se houver, será em ritmo menor

30 de abril de 2026

Por Eduardo Laguna, Luís Eduardo Leal e Daniel Tozzi*

Com previsões de inflação descolando-se da meta (3%), o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira veio num tom considerado por muitos analistas como mais hawkish (duro) do que o esperado. A tendência, a julgar pelas primeiras interpretações, é de o texto esvaziar as apostas de aceleração do ritmo de cortes de juros, sem tirar da mesa a chance, não totalmente descartada, de uma pausa.

Como esperado, a Selic teve uma redução de 0,25 ponto porcentual, caindo para 14,5%. Como o ciclo partiu de um patamar bastante restritivo, que, na visão dos diretores do Banco Central (BC), tem surtido efeito, a avaliação, em geral, é de que os juros seguirão caindo. Porém, em cortes mínimos, pois o comunicado também dá ênfase à serenidade e cautela na condução da política monetária em um ambiente de maior incerteza, mencionando possíveis ajustes no ritmo e extensão.

Com o petróleo em torno de US$ 100 em razão da escalada dos conflitos no Oriente Médio, a decisão do Copom incorpora a piora da inflação. A mudança nas projeções no cenário de referência, com o IPCA passando de 3,3% para 3,5% no horizonte relevante – agora o quarto trimestre de 2027 – foi maior, no entanto, do que a maioria dos economistas aguardava.

Análises vindas de instituições como Kínitro Capital, Daycoval e SulAmérica Investimentos não descartaram uma pausa no ciclo à frente. Para o superintendente de pesquisa econômica do Itaú, Fernando Gonçalves, o BC quer continuar cortando os juros, mas deixou explícito que pode reduzir o tamanho total do ciclo se o cenário piorar.

A avaliação na Kínitro é de que o comunicado tem elementos que o torna mais hawkish do que se antecipava para a reunião. Para a casa, apesar da maior incerteza no cenário, o Copom julgou apropriado dar prosseguimento ao ciclo do processo descrito como “calibração” e reafirmou compatibilidade com a convergência. Mas o destaque hawkish veio da leitura de inflação corrente e suas projeções.

Ainda segundo a Kínitro, a mudança de redação sobre o ciclo reforça o viés duro por abrir espaço a uma interrupção antes do que se imaginava. Ao adicionar a ‘extensão’ do ciclo na sua análise, o Copom, avalia a instituição, deixa a porta aberta para uma eventual pausa antecipada nos cortes de juros. A barra para novos cortes da Selic, conclui a gestora, subiu.

Na mesma linha de surpresa hawkish, Felipe de Oliveira, economista da MAG Investimentos, disse que o comunicado enfatiza a piora nas expectativas inflacionárias do Copom, assim como o ambiente marcado por um balanço de riscos mais elevados do que o usual.

A reação da MAG ao tom mais duro foi revisar a expectativa de corte da Selic para a reunião de junho, a próxima do Copom: de 0,50 ponto porcentual para 0,25 ponto porcentual. Além disso, Oliveira indicou viés de alta para a taxa terminal. “Possivelmente vamos revisar para cima a taxa Selic terminal de 2026”.

O Itaú, em comentário de Gonçalves, enxergou que o BC “parece revelar que pretende seguir com o ciclo de redução da Selic à frente”, mas a leitura hawkish aparece na interpretação do mecanismo de ajuste. A visão é de que, caso o ambiente piore, o ajuste seria “diminuir a extensão desse ciclo de redução, e não parar de cortar no curto prazo”.

O economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, também apontou para um comunicado que eleva a probabilidade de interrupção nas próximas reuniões. O Copom, pontua, permitiu essa leitura ao piorar a avaliação sobre a inflação corrente, além das expectativas.

A Capital Economics foi direta ao classificar o comunicado como certamente mais hawkish em relação à inflação. O gatilho, para a consultoria, foi a frase do Copom de que “a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação”.

*Colaboraram: Denise Abarca, Renata Pedini, Caroline Aragaki, Arícia Martins e Gustavo Nicoletta

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