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Mercado já coloca em xeque continuidade de cortes da Selic

BTG Pactual e Barclays estão vendo taxa terminal em 14% ou mais em 2026, um cenário sem nenhuma queda após junho

8 de junho de 2026

Por Arícia Martins, Luís Eduardo Leal e Daniel Tozzi

Após uma onda de revisões ultra hawk nas projeções de diversas casas para a trajetória política monetária no Brasil, que ainda não parece ter se encerrado, a expectativa de cortes na Selic este ano foi colocada em xeque. Instituições locais e estrangeiras de peso, como BTG Pactual e Barclays, já estão vendo a taxa terminal em 14% ou mais em 2026, cenário que contempla nenhuma redução após junho, ou apenas um ajuste derradeiro de 0,25 ponto porcentual na atual taxa de 14,50%.

Mesmo economistas que mantêm estimativa abaixo de 14% para o juro básico reconhecem que a assimetria é para cima, ou seja, há mais riscos de que esse patamar seja maior. Enquanto isso, no mercado de juros futuros há divisão de apostas para queda de 0,25 ponto ou manutenção da Selic nos atuais 14,50% na reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom). Este cenário estava fora de cogitação dias atrás, diante da comunicação recente do Banco Central que sinalizou continuidade da calibragem do juro este mês.

Segundo economistas e profissionais de renda fixa ouvidos pela Broadcast, a rápida reprecificação do rumo esperado para os juros responde à conjuntura adversa para o BC, tanto local quanto externamente, embora alguns participantes do mercado avaliem que declarações recentes de ex-integrantes do BC também possam ter influenciado o movimento conservador.

A curva de juros a termo mostrava no meio desta tarde 50% de chance de um corte de 25 pontos-base e 50% de chance de Selic estável no Copom de junho, segundo cálculos do banco Bmg. Ontem, a curva apontava 70% de probabilidade de corte e 30% de manutenção do juro. Para o fim de 2026, a Selic apontada pela curva subiu de 14,25% na terça-feira para 14,30% hoje.

Economista-chefe do Bmg, Flávio Serrano pondera que a precificação da curva de contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs) e o cenário-base previsto por economistas não são exatamente comparáveis, uma vez que as apostas do mercado financeiro embutem prêmios de risco. Para o vencimento de um ano, por exemplo, o mercado coloca cerca de 30 pontos-base a 40 pontos-base de prêmio, observou.

Ainda assim, Serrano aponta que a probabilidade de que o Copom precise interromper o ciclo de flexibilização antes do previsto está aumentando. “O conflito entre Estados Unidos e Irã não acaba, as expectativas inflacionárias seguem piorando, a atividade está forte e houve piora nos dados recentes de inflação. Tudo indo na mesma direção”, resumiu. O Bmg conta com cortes de 0,25 ponto em 0,25 ponto, até que a Selic atinja 13,50% em dezembro. “Por enquanto não pensei em mudar a projeção, mas precisamos ver se a comunicação do BC muda em junho”.

Em revisão divulgada nesta quarta-feira, o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, afirma que “o BC pode ser forçado a interromper seu ciclo de calibragem mais cedo do que tarde caso a piora recente nas métricas subjacentes [de inflação] continue, enquanto os efeitos diretos do conflito no Oriente Médio ainda se desdobram”.

Levando em conta a inflação corrente pressionada diante do choque do petróleo e também os efeitos das medidas de impulso à demanda já anunciadas pelo governo federal, que tem lançado mão de políticas de crédito direcionado ou subsidiado nos últimos meses, Secemski aumentou sua projeção para a Selic ao final deste ano a 14%, de 13,50% anteriormente.

Além do recrudescimento contínuo das expectativas de inflação e do pano de fundo externo da guerra, o gestor de portfólio Eduardo Cohn, da Heritage Capital, acrescenta que o ciclo eleitoral mais disputado do que se esperava é outro fator que pesa contra mais ajustes par baixo na Selic.

Ele espera que o Copom reduza a taxa em 0,25 ponto em junho, faça uma pausa e corte mais 0,25 ponto somente após as eleições presidenciais, a serem realizadas em outubro. “É prudente, no papel de um banqueiro central, dar uma pausa, e esperar o desenrolar da guerra e eleição”, disse Cohn, para quem a Selic chegará ao fim do ano em 14,00%.

Tanto Bruno Serra Fernandes, da Itaú Asset, quanto Mário Mesquita, que chefia a equipe econômica do Itaú Unibanco, defendem a interrupção do ciclo de flexibilização monetária. Serra foi diretor de Política Monetária da autarquia durante a gestão de Roberto Campos Neto e Mesquita foi diretor de Política Econômica na gestão Henrique Meirelles. Esse último mudou a projeção da Selic terminal em 2026 de 13,25% para 13,75%. “Os dois já sentaram do outro lado. É preciso prestar atenção no que eles falam, mexe com o mercado”, apontou o gestor da Heritage.

Por fim, o BTG Pactual fez coro com as novas projeções e, na noite de ontem, passou a projetar o juro básico em 14,25% no final deste ano. A previsão anterior era de 13%. No cenário-base do banco, o último corte na taxa, de 0,25 ponto porcentual, ocorrerá em junho.

Segundo o BTG, os novos números refletem piora dos fundamentos inflacionários e aumento da assimetria de riscos, bem como uma maior dificuldade de distinguir efeitos primários de secundários. A instituição aponta também ambiente marcado por “múltiplos choques de oferta e expectativas já desancoradas”.

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