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Para o diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, taxa de câmbio deve ficar praticamente estável no restante do ano
28 de junho de 2026
Por Antonio Perez
A perspectiva de um dólar mais forte globalmente com potencial aumento de juros pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) sugere que o melhor momento do real em 2026 já ficou para trás, avalia o diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, em entrevista à Broadcast.
O economista projeta taxa de câmbio praticamente estável no restante do ano, ressaltando que o real já experimentou uma recuperação bem expressiva nos últimos meses e se alinhou ao comportamento da cesta das divisas emergentes mais líquidas, após o dólar ter superado R$ 6,20 no fim de 2024. Mas diz que o Brasil ainda está muito bem posicionado e projeta que o superávit comercial pode atingir US$ 100 bilhões nos próximos anos.
Para Oliveira, se o próximo governo -seja de direita, seja de esquerda – endereçar minimamente a questão fiscal, com algum grau de desvinculação do salário mínimo em relação a alguns gastos, sobretudo previdenciários, é possível que o rating soberano do Brasil seja elevado pelas agências de classificação de risco em 2027. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: O real perdeu fôlego nas últimas semanas. Do piso do ano, de R$ 4,8914, em 11 de maio, para cá, o dólar já avança mais de 5% frente à moeda brasileira. Qual é a expectativa para a taxa de câmbio?
Cristiano Oliveira: Digo há algum tempo que o melhor momento para o real já passou. Em parte, porque os ventos externos mudaram e há um potencial de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos. Em parte, porque a moeda brasileira já se apreciou bastante. Quando se compara o real com uma cesta composta pelas moedas dos mercados emergentes mais líquidos, vê-se que, em 2023 e em parte de 2024, o real chegou a ficar um desvio-padrão apreciado em relação a essa cesta. Depois, houve um forte movimento de depreciação, que atingiu o pico em dezembro de 2024, quando a taxa de câmbio superou R$ 6,20. O real se recuperou bastante e voltou a ficar apreciado em relação à cesta, com o câmbio em R$ 4,92. Agora, houve uma correção parcial. Mas o fato é que tivemos neste ano um movimento expressivo de apreciação do real não apenas em relação ao dólar, mas também frente a outras moedas. Nossa previsão é de taxa de câmbio de R$ 5,11 no fim deste ano e de R$ 5,15 no fim de 2027. Vemos o câmbio praticamente estável.
Broadcast: Qual é a sua previsão para a taxa de juros nos Estados Unidos?
Oliveira: Nossa expectativa é a de que o Federal Reserve eleve os juros quatro vezes entre o fim deste ano e o próximo, porque há uma pressão inflacionária nos preços no atacado que pode se transmitir à inflação ao consumidor. O componente de custos da produção industrial e dos serviços está muito elevado. O Fed precisa quebrar essa dinâmica, desacelerando a demanda. Mesmo com o fim da guerra no Oriente Médio, não veremos os preços do petróleo e dos derivados voltarem aos níveis pré-conflito nos próximos meses. O mesmo vale para outros itens, como os fertilizantes. Kevin Warsh, como presidente do Fed, é responsável, em última instância, pela preservação do poder de compra da moeda. Donald Trump já mudou o discurso, afirmando que o Fed fará o que for necessário. Antes da guerra, o mercado precificava dois cortes de juros. Agora, prevê altas. O banco central americano não ficará para trás. Nossa projeção para a taxa dos Fed Funds é de 4,00% no fim deste ano e de 4,75% em 2027.
Broadcast: O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, já sobe mais de 2,5% neste ano. Há espaço para uma alta ainda maior?
Oliveira: Além da perspectiva de alta dos juros pelo Federal Reserve, os Estados Unidos apresentam crescimento superior ao das demais economias desenvolvidas. Não há dúvida de que os EUA lideram, entre os países ocidentais, o processo de desenvolvimento da inteligência artificial. O dólar tende a se apreciar frente ao euro, ao iene, ao franco suíço e à coroa sueca, apesar da administração Trump. Em relação às moedas emergentes, há outros fatores em jogo. É preciso observar também o comportamento do dólar em relação às commodities metálicas. O DXY perdeu mais de 8% no ano passado, mas o dólar se desvalorizou muito mais em relação à prata, à platina e ao paládio. O que interrompeu esse movimento foi a guerra, que gerou uma busca por liquidez. O DXY pode subir neste ano, mas tenho dúvidas se o dólar ganhará valor em relação às commodities metálicas e às moedas emergentes. Como já disse, acredito que o melhor momento do real neste ano ficou para trás. Mas estou sendo conservador em relação à possibilidade de uma apreciação maior do real. O Brasil ainda está muito bem posicionado.
Broadcast: Quais fatores levaram a esse bom posicionamento do Brasil?
Oliveira: O real é cada vez mais negociado no exterior. Vivemos em um ambiente em que parte das decisões sobre o câmbio depende mais do investidor internacional, muitas vezes institucional, que costuma ter uma visão mais favorável dos fundamentos domésticos. Esse investidor compara os fundamentos das economias desenvolvidas e emergentes com os do Brasil, e o País aparece em posição relativa melhor. Não é à toa que o risco-Brasil medido pelo CDS (Credit Default Swap, seguro contra evento de crédito) está em cerca de 122 pontos. Era bem mais elevado há um, dois ou três anos. Estamos começando a reduzir a distância em relação aos CDS de México, Chile e Polônia. Isso indica que, aos olhos do investidor estrangeiro, há uma melhora gradual dos fundamentos brasileiros.
Broadcast: O real ganhou impulso adicional com a disparada do petróleo em razão da guerra no Oriente Médio. Podemos ver uma reversão dessa tendência com o encerramento do conflito?
Oliveira: De fato, no primeiro semestre deste ano houve um impulso adicional para a apreciação do real em razão da guerra. Como exportador líquido de petróleo, o Brasil possui uma vantagem em relação a outras economias emergentes. Isso não vai mudar. O fechamento do Estreito de Ormuz mostrou como o petróleo continua sendo importante para a economia global, apesar da transição energética. Nossa previsão é de superávit comercial de US$ 84 bilhões neste ano e de US$ 93,2 bilhões em 2027. O saldo anual da balança comercial deve atingir US$ 100 bilhões nos próximos anos. Além do petróleo, exportamos outras commodities muito demandadas, como proteínas e soja, que vêm se valorizando. O Brasil também está muito bem posicionado em termos de segurança alimentar e localização geográfica. Temos ainda uma posição privilegiada na nova riqueza representada pelos minerais críticos, com reservas comprovadas. A percepção dos alocadores em mercados emergentes é a de um país muito menos vulnerável. Se o mercado financeiro começar a enxergar isso de forma mais clara, a economia real também perceberá em breve. Além de uma balança comercial mais robusta, o investimento direto no País (FDI, na sigla em inglês) pode aumentar nos próximos anos.
Broadcast: As eleições não podem trazer incertezas e provocar uma depreciação do real? A questão fiscal ainda preocupa os investidores?
Oliveira: Como disse, estou sendo mais conservador ao projetar um real praticamente estável, sobretudo em razão de um ambiente de dólar mais forte. A questão fiscal é um problema global, especialmente nas democracias. Independentemente de quem vencer a eleição presidencial, será necessário enfrentar minimamente essa questão. Se isso ocorrer, poderemos até ter um upgrade no nosso rating pelas agências de classificação de risco no segundo semestre do ano que vem. O mínimo necessário para encaminhar a questão fiscal seria promover a desindexação e a desvinculação do salário mínimo em relação a alguns gastos, sobretudo previdenciários. Não precisa ser uma desvinculação total. Um ajuste parcial já seria suficiente. Isso permitiria ao mercado visualizar uma trajetória mais saudável da dívida pública em relação ao PIB. Todos sabem que o novo governo, seja de direita ou de esquerda, não conseguirá resolver a questão fiscal em três ou seis meses. Mas, se houver um encaminhamento mínimo, o mercado antecipará essa melhora nos preços dos ativos.
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