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Super El Niño pode pressionar conta de luz em 2027

Condições hidrológicas piores podem exigir o acionamento de mais termelétricas, que geram energia mais cara

18 de junho de 2026

O super El Niño, que tende a se formar ao longo dos próximos meses, pode trazer consequências para o bolso do brasileiro no ano que vem, com um aumento mais elevado da conta de luz. Para preservar os reservatórios das hidrelétricas, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) poderá ter que acionar mais as termelétricas em 2027, que geram energia mais cara, pois, com o evento climático extremo, o colchão feito durante o último período chuvoso pode diminuir mais intensamente e entrar no próximo ano com o nível dos reservatórios mais baixo.

“A evolução das condições hidrológicas ao longo dos próximos meses e, principalmente, o comportamento das chuvas durante o próximo período úmido serão determinantes para a formação de preços em 2027”, disse o gerente de Preços e Estudos de Mercado da consultoria Thymos, Pedro Moro.

A projeção da Thymos aponta para um Preço da Liquidação das Diferenças (PLD) – valor de referência para o mercado de energia – médio entre R$ 150 por megawatt-hora (MWh) e R$ 200/MWh no segundo semestre de 2026. “Esse intervalo representa uma média para o período. Mesmo em um cenário de reservatórios relativamente confortáveis, podem ocorrer oscilações relevantes entre os meses e ao longo das horas do dia, em função das condições hidrológicas, meteorológicas e operativas do sistema”, disse Moro.

Ele pondera, no entanto, que os efeitos do El Niño podem variar de forma relevante entre as regiões do País e ao longo do tempo. No Sul, o fenômeno tende a provocar chuvas mais intensas durante a primavera, com efeito potencialmente positivo sobre o cenário hidrológico. Por outro lado, o fenômeno costuma reduzir as chuvas no Norte e no Nordeste durante o próximo período úmido, a partir de novembro. Esse efeito pode se tornar mais relevante para o balanço energético e para a formação de preços ao longo de 2027.

“Adicionalmente, temperaturas mais elevadas durante a primavera podem aumentar a demanda por energia e contribuir para a ocorrência de picos pontuais de carga (consumo) e de PLD, ampliando a volatilidade diária dos preços”, disse o especialista. “A influência mais direta do fenômeno é o acionamento das bandeiras tarifárias, que adicionam taxas extras à conta de luz.”

Segundo a projeção da Thymos, a bandeira tarifária deve permanecer amarela até novembro. E em dezembro há possibilidade de bandeira verde, ou seja, sem taxa.

Mateus Cavaliere, responsável por Planejamento e Inteligência de Mercado da consultoria PSR, ressalta que um dos efeitos do El Niño pode ser um período chuvoso mais intenso também no Sudeste, o que favoreceria o armazenamento na região.

“Temos que ver se ele [El Niño] vai ficar restrito à região Sul ou se vai para o Sudeste e, com isso, encher mais os reservatórios. Mas, aumentos dos custos podem ser visto ainda este ano, pois, apesar de os reservatórios estarem cheios agora, a depender do período seco, o sistema elétrico pode ficar mais pressionado com um consumo maior.”

Para 2027, a depender da severidade do El Niño, ele acredita que pode haver elevação dos custos e a manutenção dessas despesas no ano seguinte. “Se depreciar muito o reservatório, isso pode se estender para 2028, é um cenário que não deve ser dispensado.”

Medidas preventivas

Cavaliere disse ainda que o papel da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é fundamental na coordenação com os diferentes atores para situações mais extremas do clima, como o El Niño. “As distribuidoras do Sul, por exemplo, devem estar preparadas para eventos como enchentes. Já as transmissoras podem ver aumento das perdas nas linhas de transmissão. Com o aquecimento dos cabos em épocas de calor intenso, isso coloca mais pressão sobre a rede.”

Segundo ele, as empresas já trabalham em medidas para mitigar os efeitos de eventos extremos como o monitoramento via satélite e planos de contingência com as equipes técnicas para dar um atendimento mais rápido aos clientes. “Existe muita gente falando da potencialidade do El Niño, mas o mais importante é a coesão do setor para tentar minimizar ao máximo o impacto, e isso é um trabalho da Aneel.”

Na próxima segunda-feira, 22, a agência reguladora vai realizar uma reunião com agentes do setor e órgãos governamentais sobre as medidas preventivas de enfrentamento ao El Niño. O encontro será na sede da Âmbar Energia Amazonas, em Manaus (AM).

Para o coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro, o risco maior do El Niño será calibrado a partir de outubro e o problema pode passar para 2027, caso o efeito do evento climático seja mais severo.

“Mas, tem risco de apagão? Não, porque há outras fontes que podem entrar no sistema. O que acontece é que vai acionar principalmente as termelétricas para economizar os reservatórios, e isso vai fazer com que a bandeira tarifaria aumente”, disse Castro. “Custa mais caro do que outras fontes. O efeito do El Niño impacta diretamente no custo da energia elétrica e, consequentemente, na inflação.”

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