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Viagens mostram consumo forte no 1º tri, mas há sinais de perda de fôlego

Apesar do crescimento, há indícios de que as famílias já enfrentam dificuldade para manter o padrão de gastos.

1 de maio de 2026

Por Letícia Correia

A demanda dos brasileiros por viagens aumentou no primeiro trimestre, indicando que o consumo segue resiliente mesmo com o encarecimento de combustíveis e o reajuste de tarifas no transporte aéreo e rodoviário. Ao mesmo tempo, o ritmo de expansão ficou aquém do esperado por parte do mercado, em linha com um ambiente de renda pressionada pelo endividamento, sobretudo entre famílias de menor renda.

De janeiro a março, o total de passageiros transportados por empresas aéreas aumentou 7,7% em relação a igual período de 2025, considerando tanto voos domésticos quanto internacionais. No mercado interno, houve aumento de 6%, para 25,2 milhões. Em voos internacionais, a alta foi mais intensa, de 13%, para 8,3 milhões de passageiros, segundo dados do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostram que o número de passageiros em ônibus interestaduais cresceu 4,8% nos primeiros três meses de 2026, para 9,383 milhões.

O volume de viajantes aumentou mesmo em um período marcado por pressão de custos e repasses ao consumidor. No caso do transporte aéreo, o preço médio das passagens saltou de R$ 612,29 de janeiro a março de 2025 para R$ 669,85 no mesmo intervalo de 2026, em valores corrigidos pela inflação – uma alta real de 9,4%.

A inflação das passagens aéreas foi mais intensa que a inflação cheia recentemente. Segundo cálculo de André Braz, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), partindo de dezembro de 2019 com um índice de base 100, o custo do transporte aéreo chegou ao fim do primeiro trimestre em 160, enquanto a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou perto de 140.

Além disso, as tarifas rodoviárias interestaduais acumularam alta de cerca de 15% no primeiro trimestre, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), reflexo do encarecimento dos combustíveis, que representam aproximadamente 30% da estrutura de custos das empresas do setor.

Mesmo no transporte por carros e outros veículos leves, o combustível mais caro e a esperada desaceleração da economia não trouxeram resultados negativos. O fluxo destes veículos em rodovias concedidas cresceu 1,36% no primeiro trimestre, segundo a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR). “Em um cenário de desaquecimento mais intenso da economia, esse indicador tenderia a cair, o que não aconteceu”, diz Braz.

André Galhardo, economista-chefe do Análise Econômica, avalia que o conjunto de indicadores de transporte aponta para demanda ainda firme, mas com sinais de moderação. Para ele, o movimento reflete um mercado de trabalho ainda apertado e a sustentação da renda, embora com limites impostos pelo crédito e pelo nível de endividamento.

Expectativa frustrada

Ainda que o quadro seja de crescimento no transporte de passageiros, há indícios de que as famílias de baixa renda já enfrentam mais dificuldade para manter o padrão de gastos. A diretora-geral da Abrati, Letícia Pineschi, aponta que era esperado um crescimento de 15%, três vezes maior do que o observado, no transporte de passageiros por ônibus entre janeiro e março.

Segundo ela, a expectativa de crescimento maior no primeiro trimestre era alimentada principalmente pela quantidade de feriados, que costuma contribuir fortemente para compra de bilhetes para viagens interestaduais. Além disso, a diretora-geral explica que o mês de janeiro foi muito bom, o que elevou as percepção para os meses seguintes. “O que vimos, no entanto, foi um crescimento de um terço do previsto originalmente”, observa Pineschi.

A frustração, diz a diretora-geral, pode ser atribuída tanto ao aumento nos preços de combustíveis quanto à situação financeira das famílias de baixa renda. “Há uma questão de endividamento e um repasse no preço do diesel nos bilhetes, que não deixou o rodoviário ainda mais atrativo”, explica.

Segundo a edição mais recente da nota de crédito divulgada pelo Banco Central, o endividamento das famílias atingiu 49,9% em fevereiro, igualando-se à máxima da série histórica, atingida em julho de 2022. A taxa de inadimplência das pessoas físicas no crédito livre caiu, para 7,0% em março, mas a de fevereiro foi revisada para cima – de 6,9% para 7,2%.

Dados da PNAD Turismo 2024 do IBGE ajudam a dimensionar diferenças estruturais por renda no acesso a viagens. Domicílios com rendimento per capita inferior a 0,5 salário mínimo, que representam pouco mais de um quinto do total pesquisado, aparecem em apenas 11,3% dos lares que registraram alguma viagem.

É também esse grupo o que mais depende do ônibus de linha como modal: 25,2% das viagens são feitas dessa forma, 13,3 pontos porcentuais acima da média nacional. Para essa parcela da população, o encarecimento do bilhete rodoviário pode ser um obstáculo direto à mobilidade e ao consumo de viagens.

Viagens internacionais

Nas famílias de maior renda, o padrão de consumo mostra menos sinais de desaceleração, refletido no aumento do número de brasileiros viajando ao exterior no trimestre e no avanço do gasto lá fora.

Dados do Banco Central indicam que, de janeiro a março, os brasileiros gastaram 22% a mais em viagens internacionais em relação ao mesmo período de 2025. A conta de viagens internacionais, que reflete a diferença entre o que os brasileiros gastaram no exterior e o que os estrangeiros desembolsaram no Brasil, acumula déficit de US$ 2,833 bilhões em 2026 até março.

Galhardo acrescenta que a valorização do real no início do ano, com o dólar recuando de R$ 5,70 para R$ 5,00, pode ter colaborado para esse movimento, deixando destinos internacionais comparativamente mais acessíveis para uma parcela dos viajantes.

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