Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

‘Guerra no Oriente Médio trouxe efeitos semelhantes aos da pandemia’

Presidente da Vulcabras, Pedro Bartelle, afirma que conflito forçou profunda revisão da estratégia para este ano

6 de maio de 2026

Por Gabriel Baldocchi e Aramis Merki II

A guerra do Oriente Médio forçou a Vulcabras, dona da Olympikus, a fazer uma profunda revisão da estratégia desenhada para este ano. Com uma alta explosiva de custos em matérias-primas, a empresa precisou reagir com agilidade: se viu obrigada a reajustar preços em até 15% e decidiu revisar o cronograma de lançamentos de alguns dos principais produtos, para dar mais ênfase a linhas com valores intermediários.

“Fizemos um orçamento para um cenário e tudo mudou. Aquela receita de dezembro já não funciona mais. Está muito incerto. Já nos adaptamos e agora estamos no meio da guerra”, afirma o presidente da Vulcabras, Pedro Bartelle, em entrevista à Broadcast.

Segundo o executivo, os efeitos econômicos provocados pelo conflito se assemelharam ao impacto causado pela pandemia da Covid-19, sobretudo no início. “Começamos a ver que ia faltar matéria-prima, o preço do contêiner saltou e os custos subiram: tudo isso começou com um efeito muito parecido com o da pandemia. Hoje não é mais, mas há semelhanças”, afirma o executivo.

Um dos paralelos é que as reuniões semanais de diretoria na companhia se tornaram mais frequentes agora, de maneira parecida com a época da crise sanitária, quando passaram a ser diárias.

O principal desafio desta fez foi a alta de até 50% observada em matérias-primas derivadas do petróleo e usadas na produção dos calçados. A resposta da fabricante brasileira na ponta se traduziu numa tabela reajustada ao mercado, com aumentos que chegam a 10% a 15% em certos modelos.

Outra decisão foi a de dar mais ênfase aos produtos de faixas intermediárias, o que inclusive antecipou a programação de lançamentos. A nova versão do tênis de corrida com maior vendas da companhia, o Corre, agora será oferecido em mais cores do que o previsto inicialmente neste ano, num cronograma antecipado por causa do cenário adverso.

A empresa acredita que a alta dos preços deve forçar uma migração do consumo para os modelos de menor preço. “Como estamos vendo um cenário mais difícil, antecipamos um pouco. É uma flexibilidade que temos. Estamos colocando um pouco mais de soldados na guerra”, afirma Bartelle. “A vida não vai ser fácil neste ano e nós já nos adaptamos.”

Ritmo melhor

A capacidade de se adaptar rápido às demandas de mercado virou parte do modelo do negócio da Vulcabras desde que a empresa se reestruturou para sobreviver à crise profunda vivida no início da década de 2010. Hoje, a companhia é capaz de lançar produtos no mercado com até dois meses a menos do que a média do mercado, o que permite otimizar a produção e reagir com velocidade na reposição de itens com maior sucesso nas prateleiras.

Essa receita é o que atraiu gigantes globais a ter a Vulcabras como parceira no Brasil. Hoje, além da marca própria Olympikus, a fabricante brasileira representa a americana Under Armour e a japonesa Mizuno.

A fórmula também o formato que permitiu à empresa alcançar, no período de janeiro a março, o 23º trimestre de crescimento seguido com avanço nas vendas e nos volumes. No período, a receita líquida subiu 10,7% em relação ao primeiro trimestre de 2025, para R$ 776,4 milhões. O lucro líquido, porém, recuou 19%, para R$ 86 milhões.

Apesar do cenário adverso, a previsão é encerrar o ano com novo nível recorde de vendas. A companhia vê ainda a Copa do Mundo como uma oportunidade para aproveitar o vácuo deixado por outras marcas na promoção de esportes que vão além do futebol, como a corrida. Isso, apesar do grupo ter voltado aos gramados do País, como fornecedora de materiais do Botafogo, com a marca Mizuno, neste ano. “Na Copa, as marcas vão falar de futebol e vamos aproveitar para falar de outros esportes”, afirma Bartelle.

A empresa também segue aberta a encontrar novos nomes globais para representar no Brasil. Nesse quesito, a percepção é de que o cenário mais incerto dificulta as negociações. Por outro lado, pode abrir o interesse de marcas que enfrentam dificuldade de entender o modo de operação no País.

Outra alavanca será a venda direta ao consumidor, tanto pelo e-commerce, como pelas rede de lojas próprias, hoje com 20 unidades. No primeiro trimestre, somente as vendas por e-commerce representaram cerca de 16% do total, um montante de R$ 124,4 milhões.

Veja também