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Levantamento indica que ao menos 17 companhias já gastaram US$ 8,5 milhões com esscritórios americanos, desde 2023
23 de julho de 2026
Gabriel Baldocchi
A imprevisibilidade de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos elevou os gastos com lobby para um patamar recorde no país. Sob o temor do tarifaço, empresas brasileiras precisaram entrar na onda e reforçaram o esforço de defesa de interesses no exterior depois de quase uma década com uma atuação mais tímida no Executivo e Legislativo americanos.
Nomes como Amcham Brasil (Câmara de Comércio Brasil-EUA) e Unica (representante do setor sucroalcooleiro) voltaram a contratar lobistas profissionais nos Estados Unidos pela primeira vez em mais de 10 anos. Já grupos como Portobello, Bauducco, Tupy, Taurus e Weg estrearem na lista dos interessados.
Levantamento feito pela Broadcast a partir da prestação de contas das firmas de lobby ao Senado americano identificou ao menos 17 grupos brasileiros contratantes desde o ano passado, com um desembolso total de US$ 8,5 milhões (R$ 42,2 milhões). Antes disso, ma última década, eram basicamente três principais brasileiras: Embraer, JBS e Braskem
A investigação (301) que culminou na última rodada de tarifas, anunciada no dia 15, foi citada como objeto específico de contratação de lobby por cinco grupos brasileiros (Unica, Embraer, CNI, WEG e a Associação de Exportadores de Mel). A apuração envolveu práticas de comércio tidas como desleais, na avaliação dos americanos, desde o sistema Pix até direitos autorais, e resultou na tarifa adicional de 25% nas importações do Brasil.
Ao longo das negociações, a indústria brasileira buscou um reforço extra na tentativa de frear o governo Trump. Além da ajuda de Roberto Azevedo, ex-diretor geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) desembolsou US$ 700 mil (R$ 3,5 milhões) na contratação do escritório de lobby Ballard para atuar no tema. O registro da prestação de contas indica que o esforço foi feito desde o ano passado, junto aos Departamentos de Comércio e Estado.
O Ballard é visto como um dos escritórios mais próximos da gestão Trump, fundado por um dos principais financiadores da campanha do presidente e líder do setor de lobby, com quase US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões) em receitas em 2025. Na lista de clientes brasileiros, o Ballard tem o banco BTG, a Tupy e a Taurus.
Ao contrário do Brasil, onde a regulação do lobby ainda não saiu do papel, nos Estados Unidos a atividade é legalizada e há uma prestação de contas ao Congresso. No ano passado, o total de gastos com lobby no país somou US$ 5,13 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões), a maior cifra desde 1998, segundo dados da ONG Open Secrets.
“O setor privado brasileiro descobriu que precisa ter presença lá nos EUA, para não tomar susto”, afirma Welber Barral, ex-secretário de comércio exterior do Brasil e consultor sobre o tema. Ele lembra que depois do encerramento da coalização industrial (Brazil Industries Coalition), em 2018, o setor privado brasileiro acabou se afastando do lobby feito nos Estados Unidos.
Barral diz que houve uma corrida recente de interesse com a ameaça de tarifas. A consultoria do secretário aparece nos registros como lobista do setor sucroalcooleiro brasileiro. Contratou ainda três novos especialistas para lidar com a demanda de clientes no tema das tarifas nos Estados Unidos.
Representação
A Amcham Brasil sentiu necessidade de apoio extra. Desembolsou US$ 190 mil na contratação do Brownstein Hyatt Farber Schreck, no ano passado, para reforçar os interesses do comércio bilateral na questão tarifária. O lobby cobriu a atuação no Congresso e nas áreas de comércio de governo (USTR e departamento de Comércio). No começo deste ano, a entidade decidiu criar uma posição fixa em Washington como representante da Câmara.
Em nota à Broadcast, a Amcham diz que a contratação do ano passado ocorreu diante do elevado potencial de impacto das tarifas e a investigação 301. “Naquele momento, os canais de diálogo entre os dois governos encontravam-se praticamente interrompidos”, diz a entidade, na nota. A última contratação da Amcham nos registros do lobby havia sido em 2010.
Até mesmo multinacionais acionaram canais. A Sylvamo, dona da Chamex, tratou da investigação de tarifas de importações do Brasil no lobby feito pela equipe própria em interações com o Congresso e representantes de comércio do Executivo. Ainda contratou a Akin, uma das maiores firmas do setor, para aprofundar os esforços no tema.
Na audiência da investigação 301, em julho, um representante da Sylvamo defendeu que as importações do Brasil hoje se justificam porque não há capacidade de produzir tudo localmente, e destacou que a tarifa de 25% sobre o papel beneficiaria concorrentes asiáticos. Afirmou ainda que reverter as importações do Brasil colocaria em risco cerca de US$ 20 milhões em recursos transferidos anualmente para as operações americanas.
Em outra audiência da mesma investigação, neste mês, um representante da Bauducco tentou mostrar que as tarifas impactariam trabalhadores nos Estados Unidos, uma vez que a fabricante brasileira já emprega 200 pessoas na Flórida e está finalizando um investimento de US$ 200 milhões na produção local que criará mais 600 vagas.
A representante da Bauducco afirmou que a adoção de tarifas sobre panetones e biscoitos não influenciaria a política de comércio brasileira. “Na verdade, vai impor um custo aos trabalhadores americanos e nos investimentos no país.” Para reforçar a mensagem a membros do Executivo e Legislativo americanos, a empresa contratou dois grupos de lobby (Adams and Reese e Brownstein Hyatt Farber Schreck) entre 2025 e 2026, com um gasto total de US$ 250 mil (US$ 1,272 milhão).
A taxa resultante da investigação 301 alcançou cerca de 18% da pauta de exportações aos Estados Unidos. Com o esforço das negociações, 2.126 produtos ficaram de fora da sobretaxa. Uma nova rodada, de 12,5%, sob alegação de trabalho forçado pelos Estados Unidos deve ser anunciada em breve e o setor privado acredita que o Brasil será impactado.
Tem mais
Embora o comércio – e as tarifas – seja um dos temas dominantes na contratação de lobbies, há outros tópicos listados, tais como regulação bancária (caso de BTG e Itaú, por exemplo), fabricação local (Taurus e Vale) e cadeia de suprimentos do setor de proteínas (JBS, Marfrig e Minerva).
Procuradas, Embraer, CNI, Tupy e Bauducco não comentaram. O Itaú afirmou que os temas registrados nos Estados Unidos dizem respeito à subsidiária local do banco, sem relação com o negócio no Brasil, e refletem o escopo técnico e regulatório da atuação do banco nos EUA. “As atividades não possuem relação com a seção 301 ou agenda tarifária entre os dois países.” As demais empresas citadas não responderam.
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