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Lucro combinado dos quatro maiores bancos cresce 5%

Em ambiente ainda restritivo no crédito, as instituições indicam apetite seletivo adiante

13 de agosto de 2026, às 17:32

24/06/2024 - FACHADA ITAÚ - ECONOMIA - Fachada da agências do Itaú com a nova identidade visual, localizado na Av. Paulista, 688 - Bela Vista. FOTO:Werther Santana/Estadão
André Marinho

Os quatro principais bancos de varejo listados na B3 tiveram lucro combinado de R$ 26,4 bilhões no segundo trimestre, de acordo com levantamento da Broadcast. O número representa uma alta de 5,4% em relação a igual período do ano passado, em um ambiente ainda restritivo no crédito. Na comparação com os três meses imediatamente anteriores, o ganho foi apenas 0,3% maior.

A expectativa do mercado era de que o grupo tivesse lucro de R$ 26,5 bilhões no intervalo entre abril e junho, de acordo com a média das projeções de analistas reunidas pelo Prévias Broadcast.

Como era esperado, a temporada dividiu os quatro “bancões” em duas alas distintas. De um lado, Itaú Unibanco continuou no papel de âncora do setor bancário, o único com rentabilidade superior a 20% e inadimplência estabilizada em níveis baixos. O Bradesco enfrentou alguns ruídos em indicadores de qualidade, mas entregou o décimo trimestre consecutivo de crescimento no lucro e seguiu cumprindo a promessa de recuperação gradual dos retornos.

Na outra ponta, o Santander atravessa turbulências nas carteiras de pequenas empresas, agronegócio e segmentos da pessoa física, que derrubaram o retorno sobre o patrimônio para 12,5%. Já o Banco do Brasil permaneceu pressionado pela “tempestade perfeita” que se instalou sobre o crédito rural, agora também com o adicional do El Niño.

Em comum, todos indicaram que o apetite à frente será seletivo e enviesado para linhas que contam com garantia, como o consignado, imobiliário e pequenas e médias empresas asseguradas por programas do governo. Essa é uma fórmula que tende a sacrificar spreads e margens, mas garante um balanço mais resistente às oscilações no ciclo macroeconômico.

Margem resiliente

A postura, porém, não pressupõe uma paralisia total na originação. Tanto que a carteira de crédito combinada dos quatro bancos somou R$ 4,7 trilhões no trimestre, expansão de 2% antes os três meses anteriores e de 7% na comparação com o período equivalente do ano passado. Ao mesmo tempo, a margem financeira, no geral, se manteve firme, com alta combinada de 8% no ano, a R$ 97,2 bilhões. O que mudou foi o perfil dos empréstimos.

“Os bancos estão menos lenientes na concessão de crédito, ou seja, estão mais exigentes em relação ao retorno e cobrando mais das garantias”, afirma o analista Nícolas Merola, da EQI Research, em entrevista à Broadcast.

O mix de crédito mais seletivo se refletiu em uma fraqueza nas receitas com operações de crédito, em um trimestre de atividade mais anêmica em tarifas. As incertezas macroeconômica e a cautela pré-eleitoral, no geral, penalizaram as linhas de bancos de investimentos. Contas correntes também aceleraram as perdas, à medida que a concorrência com fintechs leva os bancos a adotarem isenções para mais públicos.

A dinâmica provocou a única surpresa negativa no resiliente Itaú, que cortou a projeção para o crescimento das receitas com serviços e seguros, da faixa entre 5% e 9% para a faixa entre 2% e 5%. No entanto, o maior banco privado do País tem conseguido compensar a piora em outras frentes. A margem financeira, que mede os ganhos com operações que rendem ganhos, descontada do custo de captação, sustentou crescimento 4% em base anual, para R$ 33,5 bilhões.

A instituição financeira, a primeira a iniciar a transição no mix, manteve-se praticamente incólume à deterioração do crédito no mercado. Na pessoa física, redirecionou operações de crédito pessoal para o consignado privado e priorizou consumidores de média e alta renda em cartões de crédito. Na pessoa jurídica, deu mais ênfase aos setores de infraestrutura e energia entre as grandes empresas.

“A gente tem uma carteira de crédito com qualidade superior à do sistema, sempre com esse olhar de longo prazo, além de um balanço robusto, com capital e resultados capazes de absorver qualquer tipo de cenário”, ressaltou o CEO Milton Maluhy Filho.

Recuperação

No Bradesco, a preferência foi por consignado, financiamento de veículos e imobiliário. Também houve avançou em segmentos mais resistentes do agronegócio e de cartões de crédito. A proporção da carteira com garantia seguiu em trajetória ascendente, agora em 61%.

O Banco da Cidade de Deus também deu mais um passo importante na prometida recuperação do retorno sobre o patrimônio, que alcançou 16,2%. Sob o comando de Marcelo Noronha, a instituição tem repetido a tese de que essa retomada ocorrerá “passo a passo”, ou seja, trimestre a trimestre. Para ajudar nesse processo, o Bradesco anunciou, dias antes do balanço, uma operação de aumento de capital via subscrição privada de ações de até R$ 10 bilhões, sendo que até R$ 8 bilhões serão aportados pelos acionistas controladoras.

No geral, analistas avaliaram positivamente os números do Bradesco, apesar de ruídos em indicadores de provisões e inadimplência. A visão é de que o banco superou quaisquer incertezas relativas a capital e tem sido bem-sucedido na missão de se tornar mais rentável, ainda que a velocidade da melhora, às vezes, teste a paciência do mercado.

“Daqui para frente, o principal debate é se o ritmo de crescimento das receitas e os ganhos de eficiência continuarão superando o aumento dos custos de crédito, à medida que o ciclo de crédito no Brasil se torna mais desafiador”, define Gustavo Schroden, do Citi.

Dificuldades em Santander e BB

A situação de Bradesco e Itaú contrasta com um quadro mais adverso no Santander. A subsidiária brasileira do grupo espanhol registrou um tombo no lucro, que somou R$ 3 bilhões – há poucos trimestres, havia ultrapassado a marca dos R$ 4 bilhões. A piora foi resultado do aumento nas provisões contra calotes, em meio à pressão nas carteiras de pequenas empresas, baixa renda e agronegócio.

O banco tem avançado em um processo de “de-risking” (redução do risco) do portfólio de crédito, mas as medidas só devem começar a surtir efeito mais para o ano que vem. Será um dos desafios que aguardam o novo CEO da instituição, Gilson Finkelsztain, que substituiu Mario Leão no cargo em julho. No lugar dele, o CFO Carlos Muñiz não mediu as palavras para caracterizar a conjunta. “A macro não nos ajuda a ser mais otimista”, disse o executivo.

No Banco do Brasil, o lucro apresentou uma evolução sequencial e surpreendeu as previsões de analistas, em R$ 3,9 bilhões, enquanto a margem financeira demonstrou resiliência. No entanto, as dificuldades nas carteiras do agronegócio e de cartões de crédito mantiveram as provisões em alta, o que segurou o RoE na casa de um único dígito, em 8,3%.

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