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Mercado monitora impacto das chuvas no RS sobre oferta e preço de alimentos

Efeitos do El Niño podem prejudicar culturas de café, cana-de-açúcar e soja

31 de julho de 2026

Letícia Correia

As chuvas intensas registradas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas acenderam o alerta sobre os efeitos do El Niño na safra e na inflação de alimentos. Especialistas ouvidos pela Broadcast explicam que, embora o fenômeno já provoque distorções climáticas visíveis, os impactos por ora são restritos e concentrados em culturas específicas, sem ainda gerar preocupação sobre eventual choque de oferta.

Para Carlos Thadeu Freitas Gomes Filho, economista de inflação e commodities da BGC Liquidez, o El Niño segue um padrão que ele descreve como uma curva em formato de “J” nos preços de alimentos. Segundo ele, a fase inicial do fenômeno tende a ser benigna para a inflação, dado que o aumento da luminosidade e a escassez pontual de chuva no Sudeste aceleram a maturação de hortifrutícolas como uvas e tomate.

“Os primeiro efeitos do El Niño aceleraram a maturação de muitas culturas, e o ponto de colheita que era de quatro meses caiu para três”, resumiu, ao descrever esse movimento de queda observado nos preços de itens in natura ao longo de maio e junho.

Segundo o economista, o calor excessivo e a extensão do período seco no Centro-Oeste e em Minas Gerais devem prejudicar lavouras de café, cana-de-açúcar e pastagens, levando o mercado futuro a embutir prêmios de risco nas commodities agrícolas. O economista destaca que o risco para a soja não é integral, mas expressivo.

Em seu levantamento histórico, o economista explica que os eventos de El Niño coincidiram com quebras na safra do Mato Grosso em 75% dos casos, ante 100% de correspondência para o café arábica. Já sobre as chuvas no Rio Grande do Sul, Thadeu pondera que a produtividade do trigo pode ser afetada dependendo da intensidade das precipitações. A BGC vê pressão em 2026 e 2027, mas sem descontrole se o fenômeno não se repetir.

Mariana Silva, economista do Bradesco, diz que por enquanto dados recentes da inflação, IPCA de junho e o IPCA-15 de julho, não mostram efeito do El Niño, porém, à frente o banco vê alguma probabilidade de impacto.

A economista explica que o banco incorpora um indicador climático a modelos estatísticos de projeção de alimentos, nos quais o sinal é positivo e significativo entre temperaturas mais elevadas e pressão inflacionária. Ainda assim, diante da incerteza sobre quais culturas serão de fato atingidas e do fato de que boa parte das safras relevantes ainda nem foi plantada, o Bradesco optou por incorporar apenas uma fração do potencial estimado pelo próprio modelo, entre 10 e 15 pontos-base em 2026 e de 25 a 30 pontos-base no próximo ano.

No campo climatológico, o meteorologista e consultor climático Francisco de Assis confirma que os primeiros sinais do El Niño já são visíveis no País. Segundo ele, o fenômeno bloqueia frentes frias na região Sul, concentrando volumes de chuva que já superam o dobro da média histórica para julho em poucos dias, além de temporais, granizo fora de época e até formação de tornados associados ao forte contraste térmico do período.

“São já os sinais exatamente do efeito do El Niño”, disse, acrescentando que o Centro do Brasil e a Bahia registram temperaturas de até 38 graus, muito acima do padrão para o inverno. “O trigo deve cair tanto na produtividade quanto na qualidade”, afirmou, apontando o trigo como a cultura mais imediatamente afetada.

O consultor estende o risco também à produção de arroz no Rio Grande do Sul. Os efeitos sobre a soja, segundo ele, só devem se manifestar entre outubro e dezembro, período de plantio da oleaginosa no Centro-Oeste.

Em entrevista ao Broadcast Agro, o diretor da Cotrijal Cooperativa Agropecuária e Industrial, Jairo Marcos Kohlrausch, de Não-me-Toque (RS), disse que as lavouras de trigo da região e do noroeste do Estado registraram “danos pontuais pela queda de granizo” no entorno da área da cooperativa.

Em 2014, ano também marcado por um El Niño classificado como muito forte, a inflação de alimentos fechou o período com alta de 8,03%. Assis observa que o padrão climático daquele ano guarda semelhanças com o atual, com forte concentração de chuvas na Região Sul e aumento na ocorrência de tornados, condições já verificadas neste início de safra.

A diferença para agora reflete, segundo os economistas ouvidos pela Broadcast, a cautela na incorporação do risco climático às projeções neste momento, diante da incerteza sobre a extensão dos efeitos sobre as safras de verão, e da avaliação de que um único evento de El Niño, sem repetição em anos seguidos, tende a gerar impacto pontual, e não uma escalada de preços como a registrada há uma década.

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