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No rouba-monte do varejo, Magalu tem a melhor mão para capturar clientes da Casas Bahia

A oportunidade de ocupar o espaço da Casas Bahia está sobretudo nas categorias como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis

8 de setembro de 2026

Júlia Pestana e Altamiro Silva Junior

O varejo virou um jogo de rouba-monte, e o Magazine Luiza está de olho nas cartas da Casas Bahia. Com a concorrente em recuperação judicial e enxugando sua rede, o Magalu aparece como um dos principais candidatos a abocanhar parte da participação do mercado. Ao mesmo tempo, amplia suas chances no online ao anunciar o inicio da venda do estoque dentro do Mercado Livre.

A oportunidade de ocupar o espaço da Casas Bahia aparece sobretudo nas categorias em que as duas redes historicamente se enfrentam, como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis. A Casas Bahia respondeu por 26% das vendas dos varejistas da categoria no País em 2025, ante 20% do Magazine Luiza, segundo a Euromonitor.

A sobreposição física também é grande: levantamento do BTG Pactual mostrou que mais de 90% das 298 lojas que a Casas Bahia anunciou que pretende fechar têm uma unidade do Magalu nas proximidades.

O mercado começou a colocar o possível ganho de participação na conta. Hoje, a ação do Magalu sobe 1,08% e caminha para o terceiro pregão seguido de alta. Na quarta-feira, o papel saltou 16,88% após o anúncio da parceria com o Mercado Livre e, ontem, avançou mais 2,96%, a R$ 5,56, entre as maiores altas do Ibovespa.

O gatilho da véspera foi a elevação da recomendação do Bank of America, de venda para compra, com os problemas da Casas Bahia apontados pelo banco como um dos motores para a melhora de sua tese.

Jogo antecipado

A diferença entre as duas concorrentes não começou agora. Magazine Luiza e Casas Bahia atravessaram o mesmo ambiente de juros altos, crédito caro e avanço das plataformas digitais, mas chegaram a este momento com situações financeiras bastante diferentes.

Para Frederico Trajano, presidente do Magalu, parte dessa história começou há cerca de 15 anos, quando passou a acompanhar de perto o varejo chinês. Ali, viu grupos como o Alibaba deixarem de depender apenas da venda de produtos e avançarem para pagamentos, logística e outros serviços.

O Magalu passou a perseguir uma lógica semelhante no Brasil, ampliando o ecossistema por meio de aquisições, como a Netshoes, e investimentos em negócios como o Magalupay, de serviços financeiros, e a Magalog, de logística.

Esse “SuperApp” não blindou a companhia das dificuldades do setor, mas ajudou a diversificar suas fontes de receita e foi acompanhado, nos últimos anos, por maior disciplina financeira. O Magalu encerrou o segundo trimestre com R$ 5,8 bilhões em caixa total e caixa líquido ajustado de R$ 806 milhões. A dívida bruta caiu de R$ 6,2 bilhões em junho de 2025 para R$ 4,9 bilhões em junho deste ano.

“O Magalu se preparou mais cedo. Está protegido? Não, mas está em melhor situação, inclusive financeira, que alguns de seus concorrentes e agora pode surfar essa onda de herdar clientes da Casas Bahia”, afirmou um consultor especialista em varejo ouvido pelo Broadcast.

Nova ofensiva

Enquanto a rival encolhe e foca em sobreviver financeiramente, o Magalu já voltou a colocar a expansão física entre os pilares de seu novo ciclo estratégico. A companhia opera 1.246 lojas e informou que planeja abrir novas lojas no segundo semestre desse ano.

A retomada ocorre em um momento em que o canal físico já vinha se destacando. As lojas físicas cresceram 10,3% no segundo trimestre, enquanto as vendas online recuaram 11,9%. O e-commerce movimentou R$ 9,3 bilhões no período, dos quais R$ 5,8 bilhões vieram do estoque próprio – ou seja, das vendas diretas ao consumidor – e R$ 3,6 bilhões do marketplace.

É justamente nessa frente digital que o Magalu tenta mudar de estratégia: em vez de depender apenas de seus canais próprios, a empresa passou a colocar seu estoque dentro de plataformas de terceiros.

A parceria com a Amazon foi o primeiro passo, seguida agora pelo Mercado Livre. A nova parceria prevê cerca de 27 mil produtos do Magazine Luiza, KaBuM! e Época Cosméticos dentro do Mercado Livre. Segundo estimativas do BTG Pactual, cerca de 75% dos compradores devem ser novos clientes para o Magalu, ampliando a audiência com menor custo de aquisição de clientes.

“Estamos somando a audiência dos nossos canais às de outras plataformas relevantes para acelerar o crescimento das vendas online de forma rentável”, afirmou Trajano, no anúncio da parceria.

A configuração é quase uma inversão do que o mercado enxergava há menos de um ano. Quando a Casas Bahia fechou sua própria parceria com o Mercado Livre, em outubro de 2025, o Santander avaliou que a combinação poderia adicionar pressão às vendas de estoque próprio (1P) do Magazine Luiza. Menos de um ano depois, o Magalu também está dentro do Mercado Livre e a Casas Bahia está em recuperação judicial.

Isso não significa que toda a participação deixada pela rival irá parar nas mãos do Magazine Luiza. Redes como Lojas Cem, Fast Shop e plataformas digitais também estão na disputa por esse consumidor. Ainda assim, o Magalu chega a essa briga com uma combinação que poucos concorrentes têm ao mesmo tempo: presença física próxima às lojas que serão fechadas, balanço mais confortável e acesso às maiores vitrines do e-commerce.


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