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Expectativa do mercado é que Copom reduza Selic para 13,75% e deixe futuro em aberto

Apesar do cenário internacional e incertezas sobre o El Niño, analistas reforçam necessidade de uma postura cautelosa da autoridade monetária

15 de setembro de 2026

Marianna Gualter

É praticamente consenso no mercado que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduza a 14% ao ano para 13,75%. A perspectiva para os próximos passos do comitê, porém, ainda divide os analistas.

Para uma parte do mercado, apesar de o cenário internacional e a incerteza sobre o El Niño reforçarem a necessidade de uma postura cautelosa da autoridade monetária, a desaceleração registrada na atividade econômica doméstica tem corroborado a hipótese de que este não será o ajuste final da Selic neste ano e, assim, a taxa encerrará 2026 abaixo de 13,75%.

Diante dessa possibilidade, mais uma vez os olhos dos analistas estarão voltados aos detalhes da comunicação do Banco Central, tanto no comunicado que será publicado amanhã quanto na ata da reunião, que sairá na terça-feira, 22.

A expectativa é de que o colegiado reafirme uma postura dependente de dados e, embora não se comprometa com novas reduções, deixe a porta aberta para que elas ocorram, avaliam economistas consultados pela Broadcast. O Copom ainda terá duas reuniões em 2026: em novembro – a primeira após as eleições – e em dezembro.

A divisão sobre os próximos passos do colegiado foi captada por pesquisa Projeções Broadcast publicada na última sexta-feira, cuja mediana indica Selic em 13,75% no fim de 2026. O porcentual também é a aposta da maioria das casas que responderam à pergunta sobre o intervalo: 41 de 77 instituições (53%). Outros 34 consultados (44%), contudo, indicaram ver um juro menor no fim do ano, com estimativas que variam de 13,0% a 13,50%.

O cenário oficial da Porto Asset era de que a Selic terminaria 2026 em 13,75%. Após revisão na semana passada, no entanto, a casa passou a projetar mais cortes, com o juro indo a 13,25%.

“Vemos uma autoridade monetária que está fazendo ajustes da Selic de forma muito gradual e está calcando esses ajustes na perspectiva de que temos uma taxa de política monetária muito restritiva e que já está impondo restrição a um período relevante de tempo sobre a atividade econômica”, avalia o economista-chefe Felipe Sichel. Segundo ele, a revisão partiu da premissa de que essa desaceleração não tende a ser frustrada até a reunião de dezembro.

“Quando a gente observa os dados que saíram ao longo dos últimos 45 dias, o que a gente vê é uma confirmação desse diagnóstico da autoridade monetária”, diz Sichel, que menciona o arrefecimento do Produto Interno Bruto (PIB) no 2º trimestre – a atividade cresceu 0,5% no período, ante 1,1% no 1º trimestre. Ele também destaca surpresas para baixo na produção industrial e no desempenho do setor de serviços em julho.

“Algumas evidências corroboram esse cenário de desaceleração da atividade econômica, que está sendo incorporado gradualmente também nas projeções dos agentes de mercado”, acrescenta. Na última edição do Boletim Focus, divulgada nesta segunda-feira, 14, a mediana para o PIB de 2026 caiu para 1,89%, ante 1,93% na semana passada. Há um mês, era de 1,98%.

Em relatório publicado também nesta segunda-feira sobre a reunião de setembro do Copom, economistas da XP avaliam que o fluxo de notícias e dados econômicos tem sido misto para o cenário de inflação. “O ambiente global deteriorou-se, enquanto os indicadores domésticos seguem apontando para desaceleração econômica e desinflação. Essa combinação deve reforçar a postura cautelosa do Copom, mas não impedir corte adicional na taxa de juros”, dizem.

A casa também reduziu recentemente sua projeção para Selic no fim de 2026, de 14,00% para 13,25%. No relatório, os economistas da XP avaliam que sinais adicionais de desaceleração econômica e desinflação estão se materializando antes do previsto, mas ponderam que os riscos altistas para o cenário de inflação persistem.

“Os preços do petróleo voltaram a superar 100 dólares por barril. Os preços dos alimentos irão acelerar em decorrência de um episódio forte de El Niño. Os preços domésticos dos combustíveis – especialmente do diesel – continuam abaixo da paridade internacional e podem ser reajustados até o final do ano. O Congresso vem debatendo mudanças na escala semanal de trabalho 6×1, o que poderá elevar os custos do trabalho”, enumeram.

Outro risco para a nova projeção, dizem, é o de uma depreciação significativa da taxa de câmbio após as eleições, particularmente em um contexto de juros mais elevados nos Estados Unidos. Segundo eles, essa dinâmica poderia impedir a continuação do ciclo de cortes na taxa Selic. “Esse cenário é possível, mas não é o mais provável”, concluem.

A economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, também prevê mais três cortes de 0,25 ponto porcentual da Selic até o fim do ano, encerrando 2026 com o juro em 13,25%.

“Hoje a gente vê um risco até mais para acelerar o corte, eventualmente, do que para uma pausa, mas não apostamos na aceleração por causa do cenário lá fora”, diz Rafaela. “Por causa desse cenário mais incerto internacional, mantemos os cortes de 0,25 ponto. No doméstico, vemos um cenário benigno para o Copom seguir essa sequência de cortes”, afirma.

Segundo a economista, no ambiente externo, a inflação e a trajetória de juros nos Estados Unidos são os principais pontos de atenção, assim como o preço do petróleo.

O PicPay, por sua vez, projeta mais dois cortes da Selic neste ano, em setembro e novembro, levando a taxa a 13,50%. A economista-chefe Ariane Benedito avalia que a desaceleração gradual que vem sendo registrada na atividade e na inflação dá ao Copom conforto para reduzir a Selic abaixo de 14%. “É uma taxa extremamente relevante e contracionista que por mais tempo poderia levar a um choque de recessão e não é isso que o Banco Central pretende”, diz.

Ela pondera, por outro lado, que não cabe, por ora, uma flexibilização maior do juro. “A gente brinca que precisa ser a conta-gotas porque não temos ainda muita certeza do que acontece pela frente”, observa. Entre os fatores limitadores do atual ciclo de calibração, chama a atenção, principalmente, para o balanço de risco assimétrico para cima.

Ainda sobre a incerteza à frente, Ariane observa que seria interessante ver a percepção da autoridade monetária sobre o El Niño na comunicação da reunião de setembro. O tema tem sido alvo de questionamento do BC nos questionários pré-Copom. Enviado aos participantes do Focus, o QPC contribui para subsidiar colegiado.

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