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A recomendação de analistas é cautela e foco em ações com perfil mais defensivo
17 de outubro de 2026, às 07:00
A última semana antes do segundo turno promete ser uma das mais sensíveis para a Bolsa brasileira em 2026, com expectativa de volatilidade elevada e mudanças rápidas de direção, conforme novas informações relacionadas à eleição presidencial forem incorporadas aos preços. Cada declaração, entrevista, debate e pesquisa da disputa entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deve conduzir o movimento. Em geral, a recomendação de analistas ouvidos pela Broadcast é de cautela e foco em ações com perfil mais defensivo.
Para o professor de finanças da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ahmed El Khatib, as próximas sessões devem ser marcadas por forte volatilidade. “Minha expectativa não é necessariamente de uma queda ou de uma alta contínua da Bolsa, mas de volatilidade elevada.” Ele pontua, porém, que a valorização observada na B3 após o primeiro turno já incorporou parte das apostas dos investidores em relação aos possíveis caminhos da política econômica. “Isso cria uma situação delicada: mesmo uma notícia aparentemente favorável pode provocar queda nas ações quando o otimismo anterior tiver sido excessivo.”
O forte apetite ao risco visto na segunda-feira, 5, na esteira do resultado do primeiro turno, desencadeou um rali nos ativos domésticos, com diversas ações renovando máximas históricas de preço ou valor de mercado. Na data, apenas sete papéis dos 76 que compõem o Ibovespa fecharam em baixa, e o índice encerrou em alta de 7,70%, aos 206.911,89 pontos, renovando o recorde histórico. Parte da valorização foi devolvida nesta semana, em cerca de 2 pontos porcentuais.
El Khatib explica ainda que o principal fator doméstico continua sendo a percepção sobre a sustentabilidade fiscal a partir de 2027. “Independentemente de quem vença, os investidores estarão atentos à capacidade de controlar o crescimento das despesas, estabilizar a trajetória da dívida pública, preservar a credibilidade institucional e criar condições para uma redução sustentável dos juros. O mercado poderá reagir a pesquisas, declarações e anúncios econômicos, mas o efeito duradouro dependerá das políticas efetivamente implementadas.”
Com a eleição entrando na reta final e a temporada de balanços prestes a começar, a seletividade deve continuar no centro das decisões de investimento.
“O rali recente refletiu expectativas e não uma mudança já concretizada. Por isso, a palavra-chave continua sendo gradualismo: aumentar a exposição aos poucos, evitar decisões no calor do momento e priorizar empresas de qualidade, com balanços sólidos e boa geração de caixa”, afirma a analista de Renda Variável da Rico, Bruna Sene.
Na avaliação do estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, quem negocia diariamente deve continuar reagindo ao desempenho dos dois candidatos. “Pelo que estamos vendo, as medidas do Lula estão fazendo efeito, algo que deixa investidores receosos. Por isso, pode ser que muitos saiam de suas posições compradas antes do segundo turno.”
No exterior, o ambiente também deve influenciar a B3. O Brasil chega à reta final da disputa eleitoral em meio à inflação persistente nos Estados Unidos, incertezas sobre a trajetória dos juros americanos e maior seletividade na alocação global de capital. A alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, por exemplo, pode reduzir o apetite por ativos de países emergentes, o que limita a leitura de que os movimentos da Bolsa brasileira seriam explicados apenas pelo processo eleitoral.
Para o analista de investimentos da Daycoval Corretora, Gabriel Mollo, o mercado deve andar de lado na próxima semana. “Acredito que a melhor abordagem é de cautela. Como as pesquisas estão muito empatadas, o ideal é adotar uma postura conservadora, com uma carteira focada em empresas de utilidade pública, que são reconhecidas como um setor defensivo.”
Alguns papéis entram no radar pela combinação de liquidez e perfil defensivo. Entre os destaques citados por participantes do mercado estão Itaú, Sabesp e Embraer.
No caso de uma apreciação do dólar, exportadoras também podem trazer algum retorno positivo na próxima semana, como Vale, Embraer, Minerva, Marfrig, Suzano e Klabin, indica Cruz.
A recomendação de maior cautela aparece, sobretudo, para empresas com alavancagem elevada, margens pressionadas e forte dependência de juros menores, aponta El Khatib. “Magazine Luiza e MRV são citadas como ações que podem reagir com força em um cenário de alívio de juros, mas também apresentam maior sensibilidade caso esse alívio não se concretize ou demore mais do que o esperado.”
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