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Remédio e caneta emagrecedora entram na cesta do Mercado Livre

O Mercado Livre começou a vender remédios em pequena escala em SP; agora quer incluir farmácias de terceiros e chegar a 20 unidades até o fim do ano.

30 de setembro de 2026, às 07:08

Júlia Pestana

De analgésicos a canetas emagrecedoras, o Mercado Livre vê nos medicamentos uma oportunidade de fazer o consumidor voltar mais vezes à plataforma. A categoria deve representar 5,3% do valor bruto de mercadorias vendido pela companhia no Brasil até 2030, segundo estimativas do Itaú BBA.

Para chegar lá, a empresa quer deixar de vender apenas os produtos de sua operação própria e abrir espaço para farmácias parceiras. É nessa passagem para o modelo de marketplace que a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) levanta objeções.

O Mercado Livre começou a vender medicamentos em pequena escala na cidade de São Paulo em março deste ano, após adquirir a Farmácia Cuidamos em 2025. Agora, pretende incluir três farmácias de terceiros na plataforma em outubro e chegar a 20 até o fim do ano.

“Não queremos competir com as farmácias. Queremos que elas estejam dentro do Mercado Livre”, disse o líder da companhia no Brasil, Fernando Yunes, ao apresentar o plano na quinta-feira, 24. A empresa pretende acelerar a entrada de parceiras no começo de 2027.

Segundo Yunes, os consumidores já procuram remédios em grande volume no Mercado Livre. Parte dessa demanda envolve produtos que algumas pessoas tem vergonha de pedir no balcão, como medicamentos ligados à saúde sexual ou ao combate ao tabagismo.

Para o analista do Itaú BBA, Rodrigo Gastim, o atrativo vai além de vender uma caixa de remédio. “Os medicamentos são uma categoria que incentiva compras frequentes, fortalece a fidelização e ajuda a vender outros produtos e serviços, incluindo o Mercado Pago”, disse. Os medicamentos poderão ser entregues em até uma hora pelo Envios Agora, serviço ainda em teste em uma área limitada de São Paulo.

Regularização

A Abrafarma pediu à Anvisa esclarecimentos urgentes sobre o plano do Mercado Livre de incluir farmácias parceiras no marketplace. A entidade quer saber se medicamentos podem ser anunciados, encontrados nas buscas e vendidos pela plataforma antes da conclusão das regras específicas para essa operação. Também pergunta como a agência agirá caso entenda que o modelo ainda não é permitido.

Em agosto, a Anvisa já havia afirmado que a retirada de restrições impostas aos marketplaces não representava autorização automática para comercializar remédios.

A Abrafarma, porém, diz que não se opõe a novas formas de venda e entrega, mas quer preservar “segurança jurídica, proteção sanitária e isonomia concorrencial” enquanto as regras são definidas.

Procurado, o Mercado Livre informou que ainda não recebeu notificação nem informações sobre o ofício. A companhia afirma cumprir as normas aplicáveis e garantir a rastreabilidade dos produtos, com controle de origem e validade. “A confiança do consumidor brasileiro é a base do nosso negócio. Entrar na vertical de venda de medicamentos não será diferente”, disse.

Concorrência

Além da discussão regulatória, há uma disputa pela confiança do consumidor. Em pesquisa feita pelo Instituto QualiBest, 85% dos entrevistados concordaram que marketplaces devem ser responsabilizados caso sejam vendidos medicamentos irregulares em suas plataformas. Outros 82% defenderam que a venda online esteja vinculada a uma farmácia autorizada.

Na Bolsa, a reação ao anúncio do Mercado Livre foi imediata. A ação da Pague Menos caiu 8%, RD Saúde recuou 5,38% e Panvel perdeu 4,9% no pregão da última quinta-feira. Para a Ativa Investimentos, a entrada da plataforma aumenta a pressão competitiva sobre essas redes e sobre o Grupo DPSP, dono das bandeiras Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco.

Já o BTG Pactual vê uma disputa menos desigual do que a queda das ações pode sugerir. O Mercado Livre chega com tráfego e capacidade de entrega, mas as grandes drogarias já sabem oferecer o medicamento na dosagem procurada, manter estoques confiáveis e prestar atendimento farmacêutico. Na avaliação do banco, esses serviços também pesam na escolha do consumidor.

A XP Investimentos espera que a concorrência se intensifique aos poucos. O analista Pedro Caravina avalia que a operação de medicamentos e a entrega em uma hora ainda estão no início e devem ter “relevância limitada” para os resultados financeiros do Mercado Livre no curto prazo. O impacto dependerá do ritmo de entrada das farmácias parceiras e das regras definidas pela Anvisa.

Canetinhas

As canetas emagrecedoras são um dos destaques da nova oferta de medicamentos do Mercado Livre, com a venda mediante prescrição. As receitas emitidas digitalmente serão validadas por sistemas integrados, com códigos de verificação que impedem sua reutilização. Para receitas de papel enviadas como imagem, a empresa afirma que arquiva os dados e as cópias e registra a operação no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa.

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