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Nota do Itamaraty mostra escala incomum nas relações entre Brasil e EUA
6 de agosto de 2026
Apesar da situação sensível e inédita da diplomacia entre Estados Unidos e Brasil, está claro que a principal preocupação do governo doméstico é com a delimitação de barreiras que possam proteger a eleição de outubro de interferências externas. A nota divulgada, na noite desta quarta-feira, pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) sobre o assunto revelou bem o tom que o Brasil quer imprimir.
O comunicado foi escrito pelo Palácio do Planalto em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), mas mostrou uma escalada a mais do que seria o comum de uma nota do Itamaraty para uma situação como esta. O posicionamento, portanto, revelou que o governo brasileiro quer proteger a soberania do País, como mostra o trecho que diz: “Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
Na seara diplomática, o Brasil vem seguindo pari passu a Convenção de Viena. Vale lembrar que foram os Estados Unidos que “queimaram a largada” ao primeiro anunciar que seu indicado para a embaixada em Brasília seria Daniel Perez antes mesmo de enviar o agrément para o consentimento ou não do País – algo inusual até para os EUA até aqui. O agrément é uma consulta formal que uma nação faz a outra e que depende do consentimento ou não para que os trâmites internos de seu país se iniciem.
Já havia o entendimento de que o governo não barraria a entrada de um diplomata para o cargo por questão ideológica, mas, como lembram fontes da área, não há prazos estipulados na Convenção de Viena para uma resposta. Se vão “cozinhar o galo” ou responder imediatamente, não está definido ainda. Porta-vozes da diplomacia têm ressaltado desde o começo do atual imbróglio que esta é uma discussão delicada para qualquer relação bilateral e que não costuma passar pela imprensa, como tem ocorrido do lado americano. O diálogo interno vem sendo apontado pelo Brasil como a única saída possível.
Contágio na economia
Para além do temor em relação a tentativas de interferências na política doméstica, outro ponto que o governo pretende blindar é o da contaminação econômica. Até aqui, fora as sobretaxas unilaterais aos produtos brasileiros determinadas pelo governo de Donald Trump, não se contabilizam ainda respingos para as transações comerciais geradas pelo entrevero diplomático.
A balança comercial entre os dois países registra um déficit forte para o lado brasileiro e que foi acentuado pelas novas tarifas. No primeiro semestre deste ano, as exportações somaram U$ 17,4 bilhões, com queda de 13% em um ano, enquanto os EUA acumularam um superávit de US$ 9,4 bilhões no período. Com isso, a fatia americana nas exportações domésticas chegou a 9,4%, o menor patamar em quase 20 anos – desde 1997. Os produtos mais afetados foram os manufaturados e commodities, como etanol, ferro-gusa, açúcar e aço – todos na lista divulgada pela Casa Branca.
Em outra área da diplomacia conturbada no momento está a Argentina. As vendas brasileiras para o país vizinho somaram US$ 7,4 bilhões, ante US$ 9,1 bilhões no mesmo período de 2025, uma retração de cerca de 19%. Apesar da queda, a Argentina segue como o terceiro principal destino das exportações brasileiras – atrás de China e EUA – e mantém forte concentração em veículos, autopeças e outros produtos manufaturados. Desta vez, a explicação para a retração seria a série de reformas de ajuste fiscal e corte de gastos do governo de Javier Milei, que reduziram a demanda interna, somada à forte concorrência da China no setor automotivo e a aproximação comercial da Argentina com os Estados Unidos.
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