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Com prospecto censurado, Shein faz IPO em Hong Kong

Gigante asiática de moda abre capital sob efeito de tarifas e pressão de EUA e Europa

29 de julho de 2026

Altamiro Silva Junior

A Shein, gigante asiática de fast fashion com 281 milhões de clientes, deve fazer sua esperada abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) na Bolsa de Hong Kong em agosto. A operação chega ao mercado em meio a relatos da própria empresa de que vem sendo alvo de maior pressão de reguladores, principalmente nos Estados Unidos e Europa, e já sente os efeitos das tarifas de Donald Trump. O prospecto da oferta de ações teve várias partes com o conteúdo encoberto, que só deve ser revelado após a operação.

Nos fatores de risco do prospecto, documento com mais de 450 páginas publicado esta semana, a Shein revela que está sob investigação da Comissão Federal de Comércio (FTC, em inglês) dos Estados Unidos sobre seus negócios na economia americana. Na Europa, a Shein informa que foi aberta uma investigação formal em fevereiro de 2026 pela Comissão Europeia relacionada às práticas que adota para “limitar a venda de produtos ilegais” na região. A companhia informa que fez uma provisão de US$ 80 milhões para lidar com a investigação da FTC.

No prospecto, o Brasil é mencionado uma única vez, ao falar de marcas em que o grupo asiático opera em cada mercado. Os dados mais recentes mostram que tem havido uma mudança do peso relativo dos principais mercados da Shein, com o americano perdendo espaço. Os Estados Unidos chegaram a responder, em 2023, por 30% das receitas da Shein, porcentual que foi caindo e chegou a 22,5%, em 2025. Afetada pelas tarifas de Donald Trump, as vendas da Shein nos EUA caíram 14,3% no primeiro trimestre de 2026.

Visto Negado

Ao mesmo tempo, as vendas na Europa permaneceram relativamente estáveis, ao redor de 32%, enquanto as do resto do mundo subiram de 38,8%, em 2023, para 45,4%, em 2025. No ano passado, a empresa teve receitas totais de US$ 41,8 bilhões e lucro de US$ 2 bilhões.

A Shein tentou primeiro fazer uma listagem em Nova York, mas o Congresso em Washington abriu uma investigação sobre práticas de trabalho nos fornecedores da empresa na China que fez a empresa tentar o mercado em Londres. E a história se repetiu, com legisladores no Parlamento inglês aumentando o escrutínio sobre a empresa e chamando executivos para explicarem sobre, por exemplo, as práticas de produção do algodão usado pela companhia. No final, acabou se decidindo pela listagem em Hong Kong.

A imprensa internacional ressalta que a Shein vai buscar uma avaliação na casa dos US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões no IPO, menos da metade do que conseguiu em seu auge, em 2022, quando chegou a valer quase US$ 100 bilhões em uma rodada privada. O IPO pode movimentar US$ 3 bilhões.

Para os analistas do BTG Pactual, um dos pontos que explica essa queda do valuation é o quão sensível o modelo de negócios da Shein ficou à política de comércio mundial. “Custos de importação mais altos, fiscalização aduaneira mais rigorosa e maior escrutínio regulatório podem reduzir permanentemente parte da vantagem de custo estrutural que apoiou a rápida expansão global da Shein”, comentam em relatório.

O BTG ressalta que a trajetória de ganhos da varejista se tornará progressivamente mais dependente de sua capacidade de adaptar sua cadeia de suprimentos e rede logística a um ambiente regulatório menos favorável. “À medida que vendemos produtos para clientes em aproximadamente 160 mercados ao redor do mundo, nossa capacidade de movimentar mercadorias e conduzir operações globalmente é essencial para o nosso negócio”, argumenta a Shein no prospecto.

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