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Reforma Casa Brasil avança pouco e frustra vendas de materiais de construção
27 de julho de 2026
Por Circe Bonatelli
Uma das cartadas do governo Lula para estimular a economia, o Programa Reforma Casa Brasil avançou pouco até aqui, frustrando as expectativas de reaquecimento da comercialização de materiais de construção. As vendas do setor caíram no começo do ano, afetadas também pelos juros altos da economia e pelo endividamento das famílias.
O programa consiste na oferta de empréstimos com juros reduzidos para ajudar a população a realizar reformas e melhorias em moradias. Os recursos podem ser utilizados para custear materiais, mão de obra (pedreiros, eletricistas etc.) e projetos acompanhamento por arquitetos, engenheiros e afins.
Desde o lançamento, em outubro do ano passado, a concessão de crédito ficou em apenas R$ 2,7 bilhões, uma fração de 6,7% do orçamento total de R$ 40 bilhões, de acordo com dados atualizados até 16 de julho pelo Ministério das Cidades. Foram 117,3 mil contratos firmados, com um valor médio de R$ 23,4 mil por operação. Desse total, 53,45% foram para famílias com renda até R$ 3,2 mil.
Apesar da evolução lenta, há sinais de reação. O montante atual é o dobro do registrado até maio, quando estava em R$ 1,3 bilhão. Após constatar que o programa não havia engrenado, o governo federal decidiu, em maio, facilitar as condições de contratação. O limite de renda familiar para acesso ao programa passou de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil, e a taxa mínima de juros caiu de 1,17% para 0,99% ao mês. O prazo máximo de financiamento pulou de 60 para 72 meses.
“O programa tem alcançado efeitos desejáveis até o momento”, afirmou o Ministério das Cidades. “Seguimos em fase de monitoramento contínuo das novas regras para assegurar a efetividade do programa, o cumprimento de seus objetivos sociais e o constante ajuste de suas metas”, acrescentou a pasta.
Decepção na indústria e no comércio
Já no setor empresarial, os resultados decepcionaram até aqui. As vendas da indústria de materiais caíram 3,4% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. Por conta disso, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) cortou sua projeção de crescimento em 2026, de alta de 1,9% para apenas 0,5%.
Segundo a Abramat, a revisão reflete o ambiente macroeconômico marcado pela manutenção da taxa de juros em patamar elevado, pelo alto nível de endividamento das famílias e pela performance abaixo do esperado do Programa Reforma Casa Brasil. “A revisão da projeção representa um ajuste às condições observadas no primeiro semestre”, afirmou o presidente da associação, Mauro Franco. “Seguimos convivendo com um ambiente macroeconômico desafiador e com incertezas geopolíticas, que influenciam o ritmo de recuperação do setor”.
A coordenadora de projetos da construção na Fundação Getulio Vargas (FGV), Ana Maria Castelo, também avalia que o programa não entregou o prometido até aqui. “O programa Reforma Casa Brasil não deslanchou como esperado”, comentou. “As taxas de juro no começo ainda estavam elevadas. E há uma curva de aprendizado após a implantação do programa, o que leva a ajustes. É preciso ver agora como o programa vai se comportar após essas mudanças”.
Ana Maria acrescentou que as famílias permanecem com orçamento apertado, o que dificulta as vendas de materiais. “Não dá para desprezar o endividamento elevado e os aumentos dos preços de materiais. Por conta da crise geopolítica, houve aumentos fortes nos preços em março e abril. Isso minou o orçamento das famílias”.
Entre os lojistas de materiais, essa situação é sentida no dia a dia. “As famílias estão fazendo a reforma em parcelas. Num dia, colocam o revestimento na casa. Passa um bom tempo, elas recuperam o fôlego financeiro, aí fazem a pintura. E assim vai”, relata o presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Cássio Tucunduva.
Dados da Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE, mostram que os primeiros cinco meses deste ano foram ruins para os varejistas de materiais. O volume de itens comercializados caiu 1% na comparação anual, enquanto o faturamento nominal aumentou 2,6%. “O lojista teve que colocar um preço um pouquinho maior para se sustentar. Mas o aumento da receita não alcança nem a inflação. Na melhor das hipóteses, houve um empate técnico”, ponderou Tucunduva.
O resultado é um encolhimento do setor. “Vemos mais fechamento do que abertura de lojas de construção. E tem muitas redes que reduziram seus espaços comerciais”, lamenta o presidente da Anamaco. Entre as grandes empresas, a C&C fechou mais de uma dezena de unidades nos últimos anos.
O presidente da Anamaco criticou também o fato de o programa Reforma Casa Brasil não exigir nota fiscal da compra de materiais, bastando apenas o tomador do crédito mostrar fotos do ‘antes e depois’ da reforma. Segundo ele, isso abre brechas para o dinheiro estar sendo usado para outras coisas, como bets ou pagamento de dívidas, citou. “O dinheiro não está indo para materiais de construção. Já alertamos isso ao governo”, afirmou.
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