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Estrangeiros cobram ajuste fiscal e saúde financeira para voltarem ao mercado

Investidor estrangeiro exigia do Brasil queda de juros, lucro em alta, mas a demanda mudou

7 de setembro de 2026

Juliana Machado e Gustavo Nicoletta

A forte saída de recursos estrangeiros do mercado de ações brasileiro ao longo de agosto é explicada por alguns fatores, mas o ponto de destaque está no futuro das empresas brasileiras. Os alocadores globais passaram a dar mais importância para o regime fiscal que será adotado pelo Brasil a partir do ano que vem pelo consequente reflexo disso para a política monetária e o impacto dos juros para a situação financeira das companhias, que passaram por um segundo trimestre difícil em resultados.

Os estrangeiros operam o mercado brasileiro dentro de uma cesta de outros emergentes, mas especialistas ouvidos pela Broadcast explicam como as incertezas para essas variáveis locais levaram o fluxo embora – e o quão errática pode ser a volta desses recursos de agora em diante.

Segundo Daniel Gewehr, estrategista-chefe do Itaú BBA, o estrangeiro historicamente exigia do Brasil três coisas: queda de juros, lucro crescendo em dois dígitos e revisão positiva das projeções. Hoje, esse tripé perdeu espaço.

“Se você pensar quem captou muito dinheiro na última década foram os fundos de [empresas] qualidade e de crescimento locais e emergentes. Eles olham tendência de lucro, que está sendo afetada por um juro acima da média”, diz ele. “Se caírem os juros, isso retroalimenta a economia, potencialmente melhorando a última linha das empresas.”

O dinheiro trocou de mãos, indo dos estrangeiros para os institucionais. No fim de junho e início de julho, o caixa – ou seja, aplicações em ativos líquidos e de baixo risco para acesso imediato – dos fundos locais estava alto, entre 8% e 9%. Diante disso, os fundos e instituições locais aportaram dinheiro nas ações, mas porque esse caixa estava acima da média, e não porque receberam dinheiro.

“Não acreditamos em um fluxo estrangeiro relevante no curto prazo sem que tenhamos uma visão de política monetária com juros em queda e de regime de gastos que o mercado entenda como fiscalmente responsável”, completa Gewehr. “O que o estrangeiro procura é momentum operacional de lucros e a gente piorou esse momentum.”

Guto Leite, gestor de renda variável da Franklin Templeton, confirma a piora na temporada de resultados. “O discurso para economia, atividade, margem, lucro piorou”, diz, lembrando que petróleo e derivados seguraram o resultado agregado, mas que as perspectivas para as demais empresas ficaram mais pessimistas, na interação dos executivos em teleconferências com o mercado.

Para ele, o Brasil já está barato, na comparação histórica e frente a outros mercados, mas falta um evento que reverta a percepção e aponte para um ambiente de melhora na saúde financeira das empresas. Com o gatilho certo, ele projeta volta gradual aos múltiplos de 12 vezes a 14 vezes o P/L (preço sobre lucro) negociados no passado. “Só o valuation [avaliação de preços] barato não reverte tendência”, resume Leite.

O P/L é o múltiplo que compara o preço da ação com o lucro por ação. Ele indica quantos “anos de lucro” o investidor paga pelo papel. Em linhas gerais, sem bons fundamentos, quanto maior, mais caro em relação ao lucro.

Sinais externos

Os especialistas consultados acreditam que o Brasil teria grandes chances de voltar ao foco dos estrangeiros mesmo em um ambiente negativo para ativos de risco no exterior. Os conflitos entre EUA e Irã, longe de terem um fim, vêm inibindo a tomada de risco, com investidores preocupados pelos efeitos da alta de preços do petróleo sobre a inflação global.

Além disso, o dinheiro que deixou a Bolsa migrou para as empresas de inteligência artificial, depois que elas mostraram mais um período de fortes ganhos, na contramão da temporada de balanços local. De 31 investidores globais ouvidos por Gewehr em roadshow pela Ásia recentemente, 28 classificaram a IA como tendência estrutural, fazendo com que emergentes, incluindo o Brasil, percam espaço.

Para Rodrigo Alvarenga, sócio da One, a Nvidia é um exemplo de que ajudou a capitanear essa migração de fluxo. “Ainda vamos ver muito recurso direcionado para IA”, diz.

Mesmo diante desses fatores, a partir da interação com clientes e alocadores, Alvarenga reforça a visão de outros profissionais: o pós-eleição e as pautas econômicas do novo governo são essenciais para dar o tom da procura por ações brasileiras.

“A eleição é um evento binário. Se tivermos uma vitória de um governo, qualquer que seja, sem resolução crível para a situação fiscal no que tange a corte de gastos, é um cenário pessimista para o mercado brasileiro. Se for algo crível, poderíamos ver uma entrada mais massiva de estrangeiros”, afirma.

Frederico Nobre, gestor de portfólio da Warren, acredita que o movimento dos estrangeiros tem uma volatilidade associada às eleições, além de uma piora do sentimento doméstico olhando para indicadores fiscais e desaceleração da economia.

Ele ressalta que os estrangeiros têm olhado com mais atenção para a América Latina e para o Brasil, mas o fluxo deverá ser gradual, se ocorrer. “A gente acha que o Brasil está interessante em termos de valuation e comparado a outros emergentes, mas não achamos que esse fluxo virá como manada”, diz.

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