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No novo acordo de acionistas, estatal tem presidência do conselho da petroquímica
5 de setembro de 2026
A atual gestão da Braskem aposta em sinergias com a Petrobras para alcançar ganhos de produtividade e competitividade. A lógica é que, com o aumento de prazo pedido aos credores no âmbito da recuperação extrajudicial – que estaria em cerca de cinco anos – , a companhia ganhe tempo para que essa contribuição entre sua principal fornecedora e a parte operacional da petroquímica se transforme em ganhos de geração de caixa e rentabilidade. Para isso, porém, seria necessário vencer desafios históricos e conseguir financiamento para transformações propostas por gestões anteriores.
A combinação de acontecimentos que levou a Braskem a pedir proteção contra seus credores na Justiça e, no limite do prazo, conseguir apoio para seguir na negociação de um plano de como pagar suas dívidas, não se resume ao já conhecido ciclo de baixa petroquímico. Esses momentos de preços mais altos da matéria prima com sobreoferta de produtos, que geram margens mais baixas para as empresas do setor, sempre aconteceram e a Braskem atravessou todos eles.
A crise de agora se acentuou pelo fato da indústria petroquímica ter encontrado, na América do Norte, uma fonte importante de matéria-prima mais barata: o shale gas, ou gás de xisto. O que se somou aos produtores da China, que também aumentaram sua oferta de produtos petroquímicos no mundo a preços mais baixos. Nesse contexto, a Braskem, que usa como matéria prima principal a nafta, insumo mais caro, viu sua competitividade cair vertiginosamente.
Para resolver isso, a gestão que antecedeu a tomada de controle da companhia pela gestora IG4 desenhou um plano de aumento do uso de etano como matéria prima de suas resinas e crescimento de produção de plástico feito a partir de etanol, conhecido como plástico verde, uma inovação da Braskem. No entanto, só para a primeira parte do plano, que ganhou corpo com o projeto “Transforma Rio”, a Braskem aprovou investimentos de R$ 4,2 bilhões, que estão sujeitos à obtenção de financiamentos adicionais aos recursos já aprovados no REIQ Investimentos – Regime Especial da Indústria Química – para os anos de 2025 e 2026. O plano da nova gestão segue praticamente o mesmo, mas com o argumento das sinergias com a Petrobras para fazê-lo “vingar” e ainda sem atualizações de financiamento.
O diretor da Fitch Ratings, Marcelo Pappiani, que acompanha a companhia, avalia que a evolução desse projeto é estrutural para a geração de caixa da companhia voltar a ser saudável e sustentar um eventual plano de pagamento dos credores apenas com recursos da própria companhia. “Mas fazer essa mudança de matéria prima para o gás exige investimentos e anos de transformação”, afirma. Ele explica que, se os preços dos spreads petroquímicos se mantivessem no patamar recente, mais alto, e que impulsionou os resultados do segundo trimestre da companhia, esse reequilíbrio seria possível.
No entanto, essa mudança conjuntural foi gerada pelos efeitos da guerra no Oriente Médio e em sua visão, que coincide com a de analistas de mercado ouvidos pela reportagem, esse cenário não deve se manter por muito tempo. Em agosto, a Fitch rebaixou a Braskem para RD (Inadimplência Restrita), frente à classificação C, após a confirmação de inadimplência no pagamento de juros de obrigações financeiras e o fim do período de carência sem regularização
No que cabe à boa vontade da Petrobras, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse, na última divulgação de resultados que, antes, a companhia tinha “pouca ação na Braskem” e que, com o novo acordo de acionistas, agora tem mais poder político na empresa petroquímica. “Nós estamos atuando e chegando na empresa para olhar melhor o que está acontecendo na Braskem e qual pode ser o futuro da empresa”, disse. No novo acordo de acionistas a estatal tem a presidência do Conselho de administração, ocupada pela própria Magda e mais voz na operação da empresa.
Na prática, o Transforma Rio propõe aumentar a capacidade da central petroquímica do Rio de Janeiro em 220 mil toneladas de eteno por ano e de volumes equivalentes de polietileno. Para isso, a Petrobras é essencial. Ao aprovar o projeto no Conselho, que contava com representantes da Petrobras nas cadeiras à época, a Braskem aprovou também a contratação de volume adicional de etano da estatal, mediante acordo de fornecimento de longo prazo com a Petrobras, que, ao menos em outubro do ano passado, quando o plano veio a público, ainda estava em fase final de negociação.
Uma fonte próxima à operação da Petrobras afirma que a companhia tem aumentado a produção de etano em cerca de 20%. No entanto, aumentos mais relevantes dependem da ampliação da planta do Rio, da Braskem, que, segundo essa fonte, está prevista para quatro anos e ainda não tem todo o financiamento necessário. A fonte ainda rebate o discurso de que a estatal não fornecia mais dessa matéria prima antes por simples escolha: “disponibilizávamos o gás que tínhamos, agora estamos aumentando a oferta”, afirma.
Quanto às fontes de financiamento da Braskem para o Transforma Rio, a companhia afirmou em nota que o projeto é “um dos principais projetos estratégicos da Braskem. As fontes de financiamento estão em avaliação pela companhia, e eventuais atualizações serão comunicadas ao mercado por meio dos canais oficiais”.
Um exemplo prático de como esse novo momento da parceria pode ajudar a Braskem a se organizar é o recente aumento do limite para pagamento de nafta em 30 dias concedido pela petroleira à companhia. A extensão de limite dura, a princípio, até dezembro, mas há a expectativa nos bastidores de que essa condição seja renovada. Conforme o anúncio, a estatal aumentou de R$ 350 milhões para R$ 2,35 bilhões o limite de quanto a Braskem pode comprar de matéria-prima da petroleira com prazo de 30 dias. Na prática, se esse crédito é renovado a cada 30 dias, a empresa ganha fôlego de cerca de R$ 2 bilhões em seu caixa. A lista de expectativas de capturas de sinergia futuras ainda tem na mesa o interesse da Braskem em adquirir outro insumo da Petrobras, o propeno. A petroleira, por sua vez, tem buscado ampliar a produção desse produto.
Procurada, a Petrobras não respondeu até a publicação desta reportagem.
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