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Você já ouviu falar em computação quântica? Seu banco já e o Banco Central também

Itaú estuda o tema desde 2019 e o Bradesco, desde 2023. Banco Central já discute riscos regulatórios

3 de setembro de 2026

Aramis Merki II

O avanço da computação quântica começa a colocar uma nova frente de preocupação para o sistema financeiro: a segurança da criptografia usada para proteger transações, dados de clientes e identidades digitais. Embora computadores capazes de quebrar os mecanismos atuais ainda não estejam disponíveis em escala comercial, bancos brasileiros já trabalham em inventários, testes e projetos de criptografia pós-quântica para se anteciparem a esse risco.

No Bradesco, a preparação começou em 2023, com o programa QSAFE, e já inclui testes com algoritmos pós-quânticos e adoção controlada em sistemas extremamente expostos. No Itaú, os estudos sobre computação quântica aplicada ao setor financeiro começaram em 2019 e ganharam força nos últimos dois anos, com a criação do Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi). Entre as linhas de pesquisa estão justamente questões de segurança e de agilidade criptográfica – a capacidade de adaptar os mecanismos de proteção à medida que novas ameaças e tecnologias surgem.

O tema já entrou, inclusive, no radar do regulador.o Banco Central começa a discutir com o mercado como tratar os riscos em um futuro arcabouço regulatório. Em painel realizado no Febraban Tech, principal evento sobre tecnologia bancária no País, Antonio Marcos Guimarães, chefe adjunto no departamento de regulação do sistema financeiro do BC, afirmou que a autoridade está preocupada em construir um arcabouço regulatório para riscos que ainda não se materializaram no setor. A chamada criptografia pós-quântica é uma das frentes que devem entrar nessa discussão. É um movimento que antecipa uma ameaça que ainda não existe em escala comercial, mas que pode exigir anos de preparação para ser enfrentada, apontou Guimarães na ocasião.

Por que a computação quântica preocupa os bancos?

A computação quântica não é simplesmente uma versão mais rápida dos computadores atuais. Ela utiliza uma arquitetura diferente para processar informações e, em determinados tipos de problemas, pode alcançar ganhos de processamento muito superiores aos das máquinas convencionais. Para a indústria financeira, isso importa porque a criptografia está presente em praticamente toda a infraestrutura digital. E sistemas capazes de quebrar esta criptografia com velocidade abrem espaço para altos riscos. A preocupação se estende a pagamentos, prevenção a fraudes, cartões, identidades digitais, blockchain e ativos digitais.

A IBM destaca que as instituições financeiras operam com uma complexa rede de dependências criptográficas, que pode envolver milhares de aplicações, bibliotecas de dados, certificados e protocolos antigos. O problema de curto prazo, portanto, não é apenas encontrar um novo algoritmo à prova da computação quântica. A questão também é descobrir onde as criptografias atuais estão em operação e quais deles poderão se tornar vulneráveis primeiro.

O que é computação quântica?

Nos computadores tradicionais, a menor unidade de informação é o bit, que pode assumir o valor 0 ou 1. É a combinação de bilhões ou trilhões desses bits que permite às máquinas atuais armazenar e processar informações.

Na computação quântica, a unidade básica é o qubit, ou bit quântico. Ele explora propriedades da mecânica quântica que permitem representar estados de informação de uma maneira diferente da computação convencional. Em vez de trabalhar apenas com 0 ou 1 de forma isolada, um qubit pode estar em uma combinação desses estados, fenômeno conhecido como superposição. Esta e outras propriedades da tecnologia permite construir algoritmos capazes de resolver determinados problemas de maneira potencialmente muito mais eficiente do que os computadores tradicionais.

É justamente aí que surge o problema para a segurança digital. A criptografia atual depende da dificuldade matemática de determinados problemas. Para um computador convencional, quebrar certos mecanismos pode exigir um período de tempo tão longo que o ataque se torna, na prática, inviável. A chegada de computadores quânticos suficientemente poderosos pode mudar essa equação.

Marco Zanini, CEO da Dinamo Cyber Security, explica que um ataque que levaria centenas de anos para ser realizado por um computador convencional poderia, diante de uma máquina quântica suficientemente avançada, cair para uma escala de minutos ou segundos. Isso não significa que qualquer computador quântico existente hoje consiga quebrar a segurança de um banco. O ponto é que a infraestrutura financeira precisa ser preparada antes que exista uma máquina com essa capacidade, aponta Zanini.

Segurança na era quântica

A chamada criptografia pós-quântica (PQC, na sigla em inglês) reúne algoritmos desenvolvidos para resistir a ataques realizados por computadores quânticos, sem depender de uma máquina quântica para funcionar. A ideia, portanto, é substituir ou complementar os mecanismos criptográficos atuais por outros que continuem seguros mesmo diante da evolução dessa tecnologia.

O desafio é que essa troca não funciona como uma simples atualização de software. Novos algoritmos podem exigir chaves maiores e mais processamento, afetando a velocidade e a infraestrutura das empresas. Zanini afirma que, em testes e condições citadas por ele, uma criptografia pós-quântica pode ser até 60 vezes mais lenta que a convencional.

Para explicar o tamanho do desafio, Zanini usa o Pix como exemplo. Hoje, a criptografia de uma transação é segura porque seria inviável para um computador convencional quebrá-la em poucos segundos. Com um computador quântico suficientemente potente, porém, esse mesmo cálculo poderia ser feito muito mais rapidamente, abrindo uma nova possibilidade de ataque.

Por isso, a recomendação é identificar primeiro o que precisa realmente ser protegido contra uma ameaça quântica e em que ordem. Um contrato de financiamento imobiliário, por exemplo, pode precisar permanecer protegido por décadas, enquanto uma transação instantânea tem uma janela de exposição muito diferente. “Quanto mais tempo aquela informação precisa durar, mais prioritária é a migração do algoritmo”, resume Zanini.

No Bradesco, essa lógica já aparece na estratégia do programa QSAFE. O banco afirma que a migração começou de forma gradual e orientada ao risco, levando em consideração a criticidade dos ativos. O banco também diz ter iniciado a implantação controlada de algoritmos híbridos, combinando mecanismos clássicos e pós-quânticos.

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