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‘Divórcio’ de donos da Azzas rompe o maior grupo de moda da América Latina

Marca Farm terá 'guarda compartilhada' entre Alexandre Birman e Roberto Jathay

2 de setembro de 2026

Por Júlia Pestana

Nem todo casamento sobrevive à convivência. A união empresarial de Alexandre Birman e Roberto Jatahy terminou em divórcio societário pouco mais de dois anos depois da criação da Azzas 2154. Cada um voltará a comandar seu próprio conjunto de negócios, mas a separação não será total: a Farm Rio seguirá entre os dois, como o filho preferido de uma união agora sob guarda compartilhada.

A aposta era grande. Azzas nasceu para reunir escala, sinergias e 28 marcas sob uma mesma “house of brands”, com a ambição de se consolidar como o maior grupo de moda da América Latina. No caminho, porém, a companhia perdeu R$ 6,94 bilhões em valor de mercado. Estreou na B3 em agosto de 2024, avaliada em R$ 10,4 bilhões, e hoje vale R$ 3,46 bilhões.

Agora, Birman ficará à frente da nova Arezzo&Co, com os negócios de calçados e bolsas, Hering, Carol Bassi e ZZ Mall. Jatahy terá como principal plataforma a Soma, que reunirá marcas como Animale, NV, Maria Filó, Cris Barros, Reserva, Oficina e Foxton. As duas serão companhias abertas independentes, cada uma com administração, conselho, estratégia e estrutura de capital próprios.

 Na Bolsa, nada muda até a consumação da cisão. O ticker AZZA3 seguirá sendo negociado normalmente na B3. Depois, Arezzo&Co e Soma terão ações e tickers próprios. A Farm não será aberta: ficará em uma sociedade controlada pelas duas empresas, com 57,4% nas mãos da Arezzo&Co e 42,6% da Soma.

Segundo fontes ouvidas pela Broadcast, Jatahy será o CEO da Farm e Birman presidirá o conselho de administração. A estrutura mantém os dois diretamente envolvidos justamente no ativo mais cobiçado da antiga Azzas.

Por trás da ruptura está o reconhecimento de que o problema não se limitou às sinergias que ficaram aquém do esperado. A dificuldade maior foi fazer duas lideranças fortes dividirem o comando.

“As teses de sinergia não se mostraram tão fáceis e óbvias como eles imaginaram num primeiro momento. Os executivos também tinham visões diferentes de como gerir”, disse uma fonte próxima à negociação da cisão.

 Para Eugênio Foganholo, consultor de varejo e sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, a convivência entre os executivos pesou diretamente sobre o desempenho da fusão. “Quando duas figuras muito fortes e soberanas se encontram e não há uma governança clara, evidente e transparente, a coisa degringola”, afirmou.

O mercado recebeu a bandeira branca com alívio. As ações da Azzas chegaram a saltar 14,2% nesta quarta-feira, 2, a R$ 17,21 na máxima intradiária. “A guerra chegou ao fim. A cisão é uma solução absolutamente viável, inteligente e inevitável”, disse Foganholo.

Próprio umbigo

O novo desenho tenta eliminar justamente os pontos de atrito. Birman poderá voltar a concentrar esforços em calçados, acessórios, indústria e distribuição, enquanto Jatahy ficará à frente de uma plataforma mais voltada à moda premium e ao consumidor final.

A XP estima que, nessa nova configuração, a Arezzo responderia por 45% a 50% da receita combinada, enquanto Farm e Soma representariam aproximadamente 25% a 30% cada. Na prática, as carteiras voltariam a se aproximar do desenho anterior à fusão, com Reserva sob a Soma e Hering dentro da Arezzo.

Depois da cisão e da permuta de ações entre os blocos, Birman terá 32,13% da Arezzo&Co e manterá 6,18% da Soma. Jatahy ficará com 25,95% da Soma e deixará de ter participação na Arezzo&Co. Os demais acionistas continuarão expostos às duas empresas, com free float de 67,87% em cada uma.

Uma fonte envolvida no processo da separação diz que chegar ao acordo exigiu reconhecer que insistir na estrutura original não era mais a melhor forma de gerar valor.

Para Lucas Dias, analista da Ativa Investimentos, o acordo chega “após anos de destruição de valor” e representa uma tentativa de restaurar a cultura de cada grupo, recuperar a confiança do mercado e voltar a gerar valor.

O Citi também vê espaço para destravar valor com a separação e passou a ter visão positiva para a ação no curto prazo. Para o banco, estruturas de controle mais claras e equipes mais focadas podem ampliar as oportunidades de crescimento de cada companhia.

Joia da coroa

A Farm é o ponto em que Birman e Jatahy continuam obrigados a se entender. A marca ficará em uma sociedade própria, com 57,4% nas mãos da Arezzo&Co e 42,6% da Soma, e terá gestão e governança independentes. Jatahy será o CEO e Birman presidirá o conselho. Ao mesmo tempo, os dois grupos seguirão avaliando alternativas estratégicas para o negócio, com assessoria do Morgan Stanley.

A escolha de manter a Farm no meio não é trivial. Quando Arezzo&Co e Grupo Soma se uniram, em 2024, a promessa era criar uma gigante da moda com faturamento próximo de R$ 12 bilhões e até R$ 4,5 bilhões em sinergias. Menos de dois anos depois, investidores já faziam o caminho inverso: desmontavam a Azzas na planilha para entender quanto valia cada pedaço.

E a Farm aparecia desproporcionalmente grande nessa conta. Bancos chegaram a estimar a marca entre R$ 4,4 bilhões e R$ 5,5 bilhões, com cenário de até R$ 6,6 bilhões, quando a própria Azzas valia cerca de R$ 3,6 bilhões.

A reorganização agora resolve uma etapa que vinha sendo preparada havia meses. Em junho, a Coluna da Broadcast revelou que a companhia estudava um IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações) da Farm nos Estados Unidos ou uma venda separada. Qualquer uma dessas alternativas exigia separar juridicamente a Farm do restante da Azzas.

Separá-la juridicamente, porém, não obriga uma venda. Segundo uma fonte próxima à negociação, o novo desenho dá opções aos acionistas: deixa a Farm pronta para uma transação, mas também facilita a manutenção da sociedade.

De acordo com a mesma fonte, a Farm está preparada para ser vendida, se for o caso, mas a estrutura montada permite que os sócios se sintam mais confortáveis para continuar com a empresa.

O Citi também entende que a Farm vale mais do que hoje aparece no preço da Azzas. Ao atribuir à marca uma avaliação superior à dos demais negócios, o banco chega a um potencial de valorização de mais de 40% para a companhia. Num cenário mais conservador, o ganho seria de cerca de 18%.

A discussão ocorre justamente quando a marca entra em outro ciclo de expansão. Birman afirmou em agosto que a Farm deve faturar R$ 3,5 bilhões globalmente em 2026, depois de praticamente dobrar de tamanho entre 2024 e 2026.

A reorganização deve ser concluída no primeiro trimestre de 2027. Até lá, Birman e Jatahy ainda dividem a mesma companhia. Depois, cada um seguirá seu caminho. Só a Farm continuará exigindo dos dois aquilo que faltou na Azzas: convivência.

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