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Queda de juros estrutural pode acelerar volta de cliente private ao risco, aponta Anbima

22 de outubro de 2026, às 15:20

Por Vitórya Navegantes, especial para Broadcast

São Paulo, 21/10/2026 – Nos últimos cinco anos, a renda fixa ganhou relevância no portfólio dos investidores milionários pela melhor rentabilidade e oportunidades de alocação. Mas, com a continuidade do ciclo de cortes da taxa Selic, esse cenário pode mudar. “Não esperamos migração abrupta das carteiras. O movimento deve ser gradual com aumento seletivo de exposição às ações, multimercados e outras estratégias de maior risco”, afirma Leandro Karam, coordenador da Comissão de Private da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

No entanto, ressalta, caso um compromisso fiscal seja assumido de forma mais clara pelo novo governo, o ajuste das contas públicas abre espaço para sustentar juros estruturalmente menores e isso pode fazer com que o processo de realocação de carteiras do segmento private ganhe intensidade.

“Os produtos de renda variável naturalmente têm mais apelo com os clientes do private, um segmento com menos aversão a risco”, afirma Luiz Henrique Carvalho, gerente de Distribuição da Anbima. Ele lembra, inclusive, que parte significativa do patrimônio destes clientes é alocado no exterior.

No início dos anos 2020, a renda variável liderava, ocupando 40,4% da carteira dos milionários, seguida pelos produtos híbridos e renda fixa. A virada do private em direção à renda fixa foi gradual, atingindo o pico de participação nas carteiras agora. Mas isso não significa que as outras classes de investimentos tenham necessariamente perdido recursos. Em números absolutos, a carteira de renda variável, por exemplo, aumentou 8,3%.

Renda Fixa
Segundo dados da Anbima, até julho, a renda fixa representava 45,9% da carteira desses investidores. De um patrimônio total de R$ 2,8 trilhões, R$ 1,28 trilhão estava alocado nessa classe de ativos. “As taxas foram o grande chamariz”, diz Carvalho, lembrando que a Selic saiu de 4,25%, em julho de 2021, para 14,25% no sétimo mês deste ano.

“O cliente private passou a ter acesso a mais emissores e a novas estruturas de crédito privado, o que tornou a renda fixa não só mais rentável, como também mais diversificada dentro da própria classe”, afirma.

De acordo com Vinicius Romano, coordenador de investimentos da Suno Consultoria, a taxa precisa remunerar o risco assumido. Para ele, os riscos clássicos da renda fixa ficaram mais evidentes neste ano: crédito, liquidez em momentos de estresse, marcação a mercado, reinvestimento a taxas menores com a queda dos juros e concentração em poucos emissores. O especialista recomenda diversificar as aplicações entre títulos prefixados e atrelados à inflação, ações de empresas de qualidade e investimentos no exterior, conforme o perfil de cada cliente.

Segundo a Anbima, entre os investimentos em renda fixa, os ativos isentos de Imposto de Renda representam 22,6% da carteira private, cerca de metade da classe. As debêntures corporativas correspondem a 0,9%, enquanto outros títulos bancários, como letras financeiras, letras de câmbio e operações compromissadas, somam 0,6%. A poupança soma R$ 6,4 bilhões, apenas 0,2% do portfólio. O levantamento reúne dados de 89 instituições financeiras.

Os investimentos no exterior, que não entram nas estatísticas de distribuição da Anbima, representam cerca de 15% da carteira média dos clientes acompanhados pela Suno, segundo Romano. A diversificação internacional busca exposição a setores, empresas e moedas pouco disponíveis no Brasil.

Contato: vitorya.navegantes@estadao.com

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