Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

A nova rota global da inteligência artificial

Segundo Marcio Aguiar, diretor da Nvidia, grandes bancos brasileiros e principais digitais desenvolvem seu próprio modelo de linguagem

30 de maio de 2026

Por Aramis Merki II

A corrida pela inteligência artificial deixou de ser exclusividade das Big Techs. Governos, bancos, indústrias e investidores passaram a disputar a infraestrutura que sustentará a próxima onda de crescimento da economia digital, transformando data centers e capacidade computacional em ativos estratégicos.

Os resultados da Nvidia mostram a dimensão desse movimento. Com receita trimestral de US$ 81,6 bilhões, a companhia tornou-se símbolo da nova economia da IA. Ao mesmo tempo, países latino-americanos aceleram iniciativas para atrair investimentos em infraestrutura digital, aproveitando vantagens como energia limpa e incentivos fiscais.

Em entrevista exclusiva à Broadcast Weekend, o diretor da divisão Enterprise da Nvidia para a América Latina, Marcio Aguiar, analisa como essa corrida está reposicionando a região, os setores que mais avançam na adoção da tecnologia e o que falta para o Brasil assumir protagonismo na infraestrutura global de inteligência artificial. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: O resultado divulgado este mês mostra a Nvidia com crescimento de 85% na receita, puxado por data centers. Qual é a leitura desse resultado para a América Latina? O crescimento da região acompanha o ritmo global?

Marcio Aguiar: Não temos o costume de destacar o resultado em nível regional até porque fazemos parte de um time global de vendas. O que posso dizer é que temos visto, na América Latina, um crescimento muito similar ao que vemos no mundo. Até porque as empresas que hoje realmente estão usando IA são multinacionais, globalizadas, presentes em todas as regiões. Temos a responsabilidade de levar a elas o mesmo conhecimento que nossos colegas levam em outras partes do mundo. Obviamente, não estamos no nível que gostaríamos de estar, porque tudo está muito no começo. Regiões como América do Norte, Europa e Ásia estão alguns passos à frente, mas eu diria que não por muito tempo. A tecnologia está ao alcance de todos. É mais uma questão de percepção e iniciativa dos gestores e líderes.

Broadcast: A Nvidia passou a reportar metade de sua receita global vindo de clientes além das cinco ou seis Big Techs. Isso se reflete na América Latina? Quem são os clientes mais relevantes da região hoje?

Aguiar: Começamos a ver, por exemplo, na indústria financeira os grandes bancos brasileiros e os principais bancos digitais desenvolvendo seu próprio modelo de linguagem. Empresas do setor automotivo, empresas grandes, já têm essa iniciativa. Não posso mencionar nomes, mas é uma realidade. Tudo isso seguindo, de certa forma, o que a Petrobras fez e despontou no mercado. O foco é manter o conhecimento dentro da própria empresa, porque as organizações se renovam, os ciclos se encerram, novos profissionais entram, e a questão de preservar a cultura corporativa é central. São técnicas que as empresas já usam há algum tempo,  a maioria das pessoas não percebe que já utiliza IA no dia a dia, mas quando você para para analisar as pesquisas, fica evidente.

Broadcast:  Quais foram os maiores projetos fornecidos pela Nvidia no Brasil nos últimos dois anos,  seja em energia, setor financeiro ou governo?

Aguiar: A Petrobras foi um marco importante e despontou como referência no mercado. Mas hoje o movimento é mais amplo: grandes bancos, bancos digitais, empresas do setor automotivo e outros segmentos industriais estão criando seus próprios modelos de linguagem. A abordagem da Nvidia é muito consultiva: quando sabemos que uma empresa adquiriu infraestrutura com GPUs nossas para desenvolver um projeto de LLM, começamos o trabalho de orientá-la sobre quais ferramentas usar, entender o nível de conhecimento da equipe de desenvolvedores, ajudá-la a acelerar o retorno sobre o investimento. Não estamos no negócio de apenas vender GPU,  estamos no negócio de levar ao cliente toda a infraestrutura necessária para montar sua jornada de inteligência artificial. Isso inclui chips, networking e, principalmente, software, que é o principal diferencial da Nvidia em relação a qualquer outra empresa que fabrica GPUs hoje.

Broadcast: A Nvidia passou a segmentar seus resultados em duas frentes: de um lado, as grandes empresas como Amazon, Google e Meta, chamadas de hyperscalers. Do outro, o que chama de ACIE, sigla que engloba nuvens de IA, clientes industriais, corporativos e soberanos. Analistas veem nessa segunda frente uma base de crescimento mais diversificada e sustentável. A América Latina tem mais espaço nesse segundo grupo?

Aguiar: Com certeza. E é exatamente nesse segmento que a região tem mais potencial de crescimento. O nível de demanda computacional das empresas aqui ainda é compatível com esse perfil. Isso não é negativo, pelo contrário: ajuda a desmistificar a tomada de decisão do cliente, que muitas vezes acha que precisa começar investindo em algo muito grande. Não precisa. Existe uma plataforma chamada DGX Station, que é o primeiro mini supercomputador da Nvidia com o qual você pode rodar um modelo de mais de 70 bilhões de parâmetros e conectá-lo diretamente ao seu notebook. O preço sugerido nos Estados Unidos é de 4 mil dólares. Com isso, qualquer corporação pode comprar o equipamento, instalar o Nemotron e começar sua jornada de inovação. A percepção anterior, de que era preciso ter servidor, storage, duzentos mil dólares para começar, mudou. O nosso foco é plantar bem essa semente, orientar as pessoas em como regá-la, e fazer com que esse ecossistema se retroalimente.

Broadcast: Governos da América Latina estão pensando em soberania de IA. Vocês têm projetos nessa frente? O Brasil está acompanhando esse movimento?

Aguiar: Hoje temos em média 15 projetos de soberania de IA com vários países da região: México, El Salvador, Equador, Uruguai, Chile, entre outros. O Brasil também tem um Plano Nacional de IA, mas ainda não saiu do papel completamente. Existem conversas no mercado de que dentro de 60 dias deve haver um anúncio de uma requisição de preços, ou seja, o governo brasileiro deve ir ao mercado para fazer a primeira fase do investimento. O que temos visto é que países de porte menor estão tomando decisões mais ágeis, exatamente porque é mais fácil para eles. O Paraguai, por exemplo, pela abundância de energia hídrica, que também beneficia o Brasil via Itaipu, apresenta um custo energético bastante atrativo. Os países estão olhando para a soberania de IA não só para melhorar serviços aos cidadãos, mas, também, para atrair investimentos. Quando você cria zonas de data centers, essas áreas funcionam quase como uma embaixada de uma empresa ou de um país. E nossa região tem toda a infraestrutura necessária: muita energia limpa, posição geográfica privilegiada, sem conflitos armados próximos, e cabeamento tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos.

Broadcast: O Redata, que é programa de isenções tributárias para data centers no Brasil, ainda não foi aprovado. O Brasil está perdendo uma janela de oportunidade?

Aguiar: Diria que temos uma grande oportunidade em nossas mãos. O Brasil é protagonista em várias frentes: tem posição geográfica privilegiada, infraestrutura para receber data centers. São Paulo é o estado que mais recebe centros de dados de empresas estrangeiras fora de seus países de origem. O mercado de investidores está pronto para colocar capital no país. E não é só o capital: é a nova geração de empregos que será criada. Nos Estados Unidos, já há escassez enorme de eletricistas, encanadores e técnicos especializados em construção de data centers, e o país está trazendo profissionais de outras nações. Com a energia hídrica que temos no norte do Brasil, a abundância de energia eólica e as zonas industriais com isenções fiscais, o Redata é um excelente plano. É uma pena que não tenha sido votado em tempo hábil. Se tivéssemos definido isso antes, muito provavelmente estaríamos discutindo agora o volume de investimentos que já estaria entrando no país.

Broadcast: O gap de capital humano especializado em IA na região está sendo encurtado ou ainda é um dos maiores gargalos?

Aguiar: Não é que seja um gargalo. É que, como a tecnologia está sendo desenvolvida de maneira muito acelerada, essa formação tem que ser contínua. Novos conceitos são gerados o tempo todo e é preciso estar sempre atualizado. Do nosso lado, fazemos um trabalho muito bem feito há anos para capacitar pesquisadores em nível universitário. No Brasil, o mercado de educação e pesquisa é o nosso segundo maior mercado. Fazemos muitos workshops e atividades de capacitação em universidades e laboratórios nacionais. Esses profissionais chegam à indústria com melhor conhecimento das nossas plataformas. Hoje, 80% do potencial que temos a oferecer ainda não está sendo usado. Mas já começamos a ver cursos de graduação em inteligência artificial nas universidades. Anteriormente, os profissionais vinham de ciência da computação, matemática, estatística, com pós-graduações em IA. É só uma questão de tempo. Estamos vivendo nessa era moderna da IA há pouco mais de três anos. Está tudo muito novo.

Veja também