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O crédito pega carona na China

No mercado brasileiro, sucesso de vendas de carros não depende só de design, autonomia ou tecnologia. Depende também de parcelas

30 de maio de 2026

Por André Marinho

As montadoras asiáticas entenderam rapidamente que, no mercado brasileiro, o sucesso de um automóvel não depende apenas de design, autonomia ou tecnologia. Depende da facilidade de acesso ao crédito. Na prática, vender um carro significa vender também uma parcela. Foi essa percepção que aproximou as novas fabricantes dos bancos e criou uma onda de acordos comerciais que hoje impulsiona o crescimento do financiamento automotivo.

“Estamos vendo uma oferta de carros 0 km impulsionada pela chegada de novas marcas, que estão fechando arranjos financeiros bastante agressivos com os bancos”, afirma Heverton Peixoto, CEO do Omni. Segundo ele, o avanço das vendas de veículos novos acaba irrigando também o mercado de usados, abastecido pelos automóveis deixados nas trocas.

A movimentação já aparece nos números. Somente em abril, foram aprovados 634,6 mil financiamentos de veículos, o maior volume para o mês em quase duas décadas. No acumulado do ano, as operações avançaram mais de 12%.

Os dados ajudam a contar uma história pouco comum na economia brasileira atual: a de um setor que encontrou espaço para crescer mesmo em um ambiente de crédito caro e juros elevados.

A expansão do crédito acompanha esse movimento. Nos quatro primeiros meses do ano, a indústria automotiva produziu 872,6 mil unidades, alta de 4,9% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Nas concessionárias, o ritmo também segue forte. Entre janeiro e abril, foram vendidos 1,73 milhão de veículos, o melhor resultado para o período desde 2013, de acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

O efeito se espalha por toda a cadeia. Além de movimentar o mercado de usados, o avanço das vendas reforça a demanda por motocicletas, impulsionada pelo crescimento dos serviços de entrega.

Nesse cenário, a chegada das montadoras chinesas desencadeou uma nova disputa dentro do sistema financeiro. Mais do que vender veículos, essas fabricantes passaram a disputar espaço nas carteiras de crédito dos grandes bancos.

Líder do segmento, o Santander ampliou sua rede de parcerias com montadoras em expansão no País. Depois de consolidar a relação com a BYD, a instituição firmou, em março, um acordo semelhante com a chinesa GAC.

“Somos o banco de 90% das montadoras que lideram a invasão chinesa de híbridos e elétricos no Brasil”, afirma Cezar Janikian, vice-presidente executivo do Santander Consumer no Brasil e na América do Sul. A estratégia tem dado resultado. A carteira de financiamento de veículos para pessoas físicas cresceu quase 9% em um ano e alcançou R$ 82,3 bilhões.

De olho no mesmo movimento, o Bradesco também ampliou sua presença no segmento. A carteira de financiamento de veículos avançou 17% em 12 meses e fechou março em R$ 78,5 bilhões, considerando pessoas físicas e jurídicas.

No Banco da Cidade de Deus, o foco tem sido combinar crescimento e rentabilidade. A instituição criou uma nova plataforma para aproximar correntistas e não correntistas. Segundo o CEO Marcelo Noronha, as operações registraram Retorno Ajustado ao Risco entre 20% e 28%, sinalizando que o banco pretende crescer nesse mercado sem abrir mão da rentabilidade.

Nem todos os bancos, porém, estão acelerando junto com o mercado.  O Itaú Unibanco adotou uma postura mais conservadora na concessão de crédito para a compra de veículos. Considerando apenas pessoas físicas, o saldo da carteira recuou 3,2% em um ano, para R$ 35,7 bilhões no trimestre. Para o CEO Milton Maluhy, trata-se de um segmento historicamente volátil e que se tornou ainda mais arriscado em um ambiente de juros elevados. “Preferimos perder share do que dinheiro”, afirmou.

A cautela encontra respaldo nos indicadores de qualidade da carteira. Segundo dados do Banco Central, a inadimplência nos financiamentos de veículos para pessoas físicas subiu de 4,7% para 6,0% em um ano. Entre as empresas, o avanço foi de 2,9% para 4,7% no mesmo intervalo.

O cenário também inspira prudência em outras instituições do setor. “A roda não está girando em uma velocidade que converse com as condições de crédito no País”, afirma Heverton Peixoto, CEO do Omni. “Não estamos otimistas com o mercado no segundo semestre”, acrescenta.

Apesar da visão cautelosa, o Omni mantém planos ambiciosos de expansão. A meta é elevar a carteira dos atuais R$ 7 bilhões para R$ 10 bilhões até 2028 e alcançar R$ 20 bilhões até 2031. O crescimento, porém, deve vir acompanhado de uma seleção mais rigorosa dos tomadores.

“Fomos mais criteriosos, mas também as pessoas que estavam vindo tomar crédito estavam numa condição muito pior do que um ano atrás”, ressalta Peixoto.

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