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De Copacabana aos negócios

Como a cantora Shakira virou peça primordial na nova estratégia comercial da Colômbia para ampliar presença no Brasil

16 de maio de 2026

Por Daniela Amorim

RIO – O megashow da cantora Shakira em Copacabana foi muito mais do que um espetáculo pop diante do mar carioca. Por trás das luzes, dos hits e da multidão espremida na areia, havia uma operação cuidadosamente coreografada de diplomacia econômica.

Com o mundo redesenhando alianças comerciais em meio a guerras, tensões geopolíticas e incertezas econômicas nas grandes potências do Norte, a Colômbia decidiu usar um dos ativos mais poderosos da América Latina – sua cultura – para enviar um recado claro ao Brasil: quer fazer mais negócios, ampliar investimentos e ocupar um novo espaço regional.

A presença do governo colombiano como apoiador oficial do evento, por meio da ProColombia, responsável pela promoção de exportações, turismo e investimentos, esteve longe de ser apenas institucional. O show foi, na prática, uma sofisticada ação de “nation branding” – conceito cada vez mais usado por países que entenderam que reputação também gera negócios.

Enquanto Shakira transformava Copacabana em uma arena latina a céu aberto, Bogotá aproveitava os holofotes para reforçar uma nova mensagem diplomática: a Colômbia quer reduzir sua dependência histórica dos mercados do Norte e aprofundar sua integração com a América do Sul.

A mudança não é pequena. Durante décadas, a economia colombiana orbitou prioritariamente os Estados Unidos e parceiros tradicionais do Hemisfério Norte. Agora, a lógica começa a mudar. “A Colômbia sempre olhou para o Norte, não para o Sul. É hora de olhar para o Sul”, resumiu Carmen Caballero, presidente da ProColombia, em conversa com a Broadcast Weekend.

O movimento acontece em sintonia com uma reconfiguração geopolítica mais ampla, reforçada pela estratégia americana de impor tarifas elevadas a muitos países, inclusive sobre a Colômbia, e pelo tom pouco amistoso do governo de Donald Trump em relação aos latinos. 

A partir desse contexto, a aproximação com os Brics, as discussões sobre uma futura adesão ao Mercosul e o fortalecimento das relações bilaterais com o Brasil fazem parte de uma estratégia maior de reposicionamento regional.

Nesse tabuleiro, Brasília ganhou status de parceiro prioritário.

A relação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro ajudou a criar um ambiente político favorável, especialmente em pautas como meio ambiente, democracia e integração latino-americana. Mas o interesse colombiano vai muito além da diplomacia institucional. Existe uma agenda econômica bastante objetiva em construção.

Os números ajudam a contar essa história. Hoje, o Brasil já figura entre os principais investidores sul-americanos na Colômbia. Os dois países possuem 68 frequências aéreas semanais e mais de 12 mil assentos em voos diretos conectando cidades como São Paulo, Rio, Brasília, Manaus e Belém a Bogotá.

O fluxo turístico também acelera. Mais de 199 mil brasileiros visitaram a Colômbia no último ano. Apenas no primeiro bimestre de 2026, mais de 41 mil turistas brasileiros desembarcaram no país, atraídos por destinos como Medellín, Cartagena, Bogotá, Cali e San Andrés.

Mas turismo é apenas uma parte da engrenagem.

O foco principal está em ampliar comércio, atrair investimentos e aproximar empresas dos dois lados da fronteira. O capítulo seguinte desta estratégia está prevista para acontecer em julho, em São Paulo, coração financeiro do Brasil. 

A cidade vai receber a edição de 2026 da Macrorrueda, plataforma de negócios organizada pelo governo colombiano para conectar exportadores locais a compradores internacionais. A expectativa é reunir cerca de 500 empresários brasileiros e colombianos.

Depois de passar por locais estratégicos como Estados Unidos, México e Japão, a chegada do evento ao Brasil dá a dimensão do peso que o país ganhou nesse tabuleiro. 

“O Brasil é um parceiro estratégico para a Colômbia e um mercado-chave na construção de uma agenda de crescimento compartilhado em comércio, investimento e turismo”, afirmou Carmen Caballero.

Os dados ajudam a explicar o apetite. Durante o atual governo colombiano, a Macrorrueda já realizou nove edições, reunindo mais de 7.200 empresários e gerando expectativas de negócios superiores a US$ 1,28 bilhão.

Hoje, o Brasil já representa cerca de 2,5% do investimento estrangeiro direto recebido pela Colômbia. Além disso, tornou-se o quarto maior destino global das exportações colombianas não ligadas aos setores de mineração e energia. Mais de 347 empresas colombianas já operam no mercado brasileiro.

No fim, o show de Shakira talvez tenha sido menos sobre entretenimento e mais sobre influência. Porque, no novo jogo geopolítico global, países disputam espaço não apenas com acordos comerciais ou discursos diplomáticos, mas também com atenção, imagem e relevância cultural. Em um mundo cada vez mais fragmentado politicamente, a Colômbia parece ter entendido que, às vezes, a diplomacia mais eficiente não acontece em salas de reunião. Acontece no palco.

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