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O grande teste para Trump

Para Jonathan Katz, economia será decisiva nessas eleições e presidente tentará buscar o terceiro mandato, mesmo que inconstitucional

12 de junho de 2026

Por Isabella Pugliese Vellani e Pedro Lima

As eleições legislativas de 2026 serão o primeiro grande julgamento eleitoral do segundo mandato de Donald Trump e podem definir não apenas o equilíbrio de forças no Congresso, mas também os rumos da política americana nos próximos anos. Em entrevista à Broadcast Weekend, Jonathan Katz, pesquisador do Brookings Institution e ex-integrante da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) durante o governo Obama, afirma que o resultado das urnas poderá influenciar diretamente a corrida presidencial de 2028.

Na avaliação dele, o eleitor americano de hoje é mais polarizado e desconfiado das instituições do que na era Obama, enquanto Trump segue como a figura dominante do Partido Republicano. Katz também diz acreditar que o presidente tentará buscar um terceiro mandato, mesmo diante dos obstáculos constitucionais, cenário que poderia, segundo ele, abrir uma nova crise política nos Estados Unidos.

Broadcast: Qual é a questão mais crítica para decidir o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato de 2026?

Jonathan Katz: A questão mais crítica neste momento é a preocupação com a economia para muitos americanos. Quando você olha as pesquisas, vê que o presidente está em um dos níveis mais baixos de popularidade e está perdendo especialmente os eleitores independentes. Para muitos, ele foi eleito para lidar com a inflação elevada e fortalecer a economia dos EUA. Agora, isso parece um fracasso para muitos americanos, que sentem o peso da inflação mais alta, dos preços maiores da gasolina e dos custos de saúde. Também não parece que o presidente esteja focado na questão da acessibilidade econômica (affordability).

Broadcast: Como os democratas podem usar essa baixa aprovação para reconquistar os eleitores moderados?

Katz: Já é possível ver, nas eleições realizadas desde a posse do presidente Trump, que os democratas estão conquistando muitos eleitores independentes, talvez aqueles que se arrependeram de votar em Trump. Mas os democratas precisam oferecer uma plataforma própria. Como lidar com os custos crescentes da saúde? Como ajudar os afetados pela desigualdade de renda? Os americanos sentem muita incerteza econômica. Os democratas não podem apenas ser anti-Trump. Precisam ser a favor dos eleitores e apresentar uma agenda econômica que enfrente esses desafios.

Broadcast: Os candidatos republicanos conseguem se proteger dessas baixas taxas de aprovação do presidente?

Katz: Neste momento, como o presidente é uma figura tão dominante nacionalmente e está afastando candidatos vistos como mais moderados nas primárias, muitos candidatos estão totalmente vinculados a ele. Acho muito difícil para os republicanos escapar dessa sombra e reivindicar independência. Isso também aparece na forma como os congressistas republicanos votam. Eles não votam para responsabilizar o presidente. A guerra no Irã é particularmente impopular entre os americanos, mas os republicanos continuam votando contra medidas para limitar os poderes de guerra. Também apoiaram o projeto de lei do presidente, que reduziu subsídios de saúde para milhões de americanos.

Broadcast: Como o eleitor de 2026 é diferente do eleitor da era Obama?

Katz: A política nos Estados Unidos é muito diferente hoje. Temos inteligência artificial (IA), temos um candidato como Trump que desconsidera normas e valores tradicionais da política. Pela primeira vez, tivemos um presidente dizendo que a eleição de 2020 foi roubada e repetindo essa alegação. Hoje vemos níveis maiores de desconfiança nas eleições, nas instituições, na mídia, nas instituições democráticas e até na comunidade tecnológica. Há mais polarização, mas também mais desconfiança.

Broadcast: Quão preocupado você está com essa polarização?

Katz: A polarização é um desafio há bastante tempo. Mas a verdadeira questão é se os americanos confiam no governo e na democracia, se estão dispostos a encontrar pontos em comum em vez de recorrer à violência. Vimos violência política demais nos Estados Unidos, afetando tanto republicanos quanto democratas. As redes sociais podem alimentar essas tensões. A questão é como líderes políticos, formadores de opinião e a mídia interagem para reduzir os níveis mais graves de tensão, mesmo quando há discordâncias políticas.

Broadcast: Se os democratas retomarem o controle da Câmara e do Senado, que mecanismos institucionais poderão usar para limitar o governo Trump nos dois últimos anos de mandato?

Katz: Primeiro, a supervisão. O Congresso tem poder para investigar e os democratas poderiam usar esse poder para fiscalizar ações da administração, incluindo ações consideradas corruptas. Segundo, o poder do orçamento. O Congresso define os níveis de gastos e poderia tentar cortar recursos para políticas que considere irresponsáveis. Terceiro, poderia bloquear indicações para o Judiciário, embaixadas e outros cargos federais. E também poderia atuar para restringir iniciativas internacionais de Trump, incluindo a guerra no Irã e potencialmente outro conflito em Cuba. O Congresso pode funcionar como um freio ao presidente, embora ele continue tendo poderes executivos.

Broadcast: E se os republicanos mantiverem suas maiorias?

Katz: Se permanecerem no poder e não estiverem dispostos a exercer supervisão, provavelmente apenas aprovarão as políticas do presidente sem oferecer mecanismos reais de controle e equilíbrio. Também será muito improvável que responsabilizem o presidente ou integrantes do governo por corrupção ou abuso de poder. Muitos veem um Congresso republicano após as eleições de meio de mandato como uma continuação das políticas dos últimos dois anos.

Broadcast: E um eventual conflito com Cuba? Como isso poderia afetar o comportamento do eleitor?

Katz: Os americanos já estão preocupados com o envolvimento dos Estados Unidos em conflitos no exterior. Trump prometeu durante a campanha que o país não estaria envolvido nesse tipo de conflito. Haveria preocupação real se um terceiro conflito ou uma terceira frente fosse aberta. A guerra no Irã é extremamente impopular. Se houver uma confrontação militar com Cuba, ela também será vista como problemática e impopular, especialmente num momento em que os americanos pedem que o governo se concentre nos problemas econômicos. Isso parece uma distração. Acho que teria um impacto devastador para o presidente e também para os republicanos.

Broadcast: Olhando para 2028, como o resultado das eleições de meio de mandato pode moldar a próxima corrida presidencial?

Katz: Uma vitória democrata daria impulso aos candidatos do partido e ajudaria a definir quais temas são mais importantes para o público americano. Mas existe também a questão de Trump. Há dois caminhos possíveis. Um deles é Trump decidir concorrer de qualquer maneira. Acredito que ele tentará buscar um terceiro mandato, mesmo que isso não seja constitucionalmente possível. Podemos acabar lidando não apenas com novos candidatos republicanos, mas com um presidente relutante em deixar o controle do partido. Isso poderia gerar uma verdadeira crise constitucional nos Estados Unidos.

Broadcast: O que o resultado das eleições de 2026 poderá sinalizar para a política externa americana e suas alianças internacionais?
Katz: Ainda existe forte apoio no Congresso, em ambos os partidos, para que os Estados Unidos mantenham relações com parceiros e aliados globais. Um novo Congresso provavelmente tentaria lidar com a questão das tarifas e poderia ser mais relutante em apoiar poderes de guerra para o presidente. Se for liderado pelos democratas, veremos uma abordagem muito diferente em temas como democracia e direitos humanos. Mas, para um Congresso democrata, a prioridade número um, número dois e número três continuará sendo a economia e os empregos. A questão central será como garantir que os americanos consigam pagar saúde, energia, eletricidade e educação para seus filhos.

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