Saneamento entra em uma fase mais seletiva, com investidores menos competitivos, adiamento de ofertas e projetos mais complexos
24 de julho de 2026
Por Elisa Calmon
O saneamento foi um dos queridinhos do mercado nos últimos anos, impulsionado pela abertura à iniciativa privada e por uma agenda robusta de concessões e privatizações. Em 2026, porém, o entusiasmo começou a dar sinais de acomodação. Empresas adiaram ofertas de ações, os leilões tiveram baixa concorrência e alguns projetos sequer atraíram propostas.
O movimento não significa que os investidores perderam o interesse pelo setor. A leitura de especialistas é que o mercado já disputou os ativos mais cobiçados e, agora, enfrenta projetos mais complexos, que exigem investimentos maiores, estruturas sofisticadas e uma divisão de riscos mais equilibrada entre empresas e poder público. Com juros ainda elevados, os investidores ficaram mais seletivos.
O mercado estimava que o setor poderia levantar cerca de R$ 24 bilhões ao longo do ano por meio de três ofertas de ações: Copasa, Aegea e BRK. Na prática, porém, apenas a operação que privatizou a companhia mineira saiu do papel.
Adiamentos
As ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) das outras duas empresas ficaram para 2027, segundo fontes ouvidas pela <b>Broadcast</b>. O elevado endividamento das companhias, em um ambiente de juros altos, contribuíram para os adiamentos.
Prevista inicialmente para o primeiro trimestre, a desestatização da Copasa só terminou em meados de junho e movimentou R$ 8,4 bilhões. O valor, no entanto, ficou abaixo da estimativa inicial, que apontava para até R$ 10 bilhões. Apesar do interesse demonstrado inicialmente pela Sabesp e por acionistas da Aegea, apenas a Equatorial disputou a posição de investidor estratégico, papel que também exerce na companhia paulista de saneamento.
A baixa concorrência também marcou os leilões. No mais recente, realizado no fim de junho, quatro dos cinco blocos da parceria público-privada (PPP) de esgotamento sanitário de municípios do interior do Ceará não atraíram propostas. Apenas o Bloco 1 recebeu uma oferta e, ainda assim, de um único interessado.
O leilão da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) também passou por adiamento: saiu de março para maio. Ao final, a espanhola Acciona disputou o certame sem enfrentar concorrência. Já a PPP de esgotamento sanitário da Saneamento de Goiás (Saneago), prevista para março, acabou cancelada. A decisão foi tomada após a companhia desclassificar o único interessado no Bloco 2. Os outros dois lotes não receberam propostas.
“O saneamento continua sendo um dos setores mais relevantes em termos de oportunidades de infraestrutura. Porém, em parte das parcerias público-privadas (PPPs), a distribuição de riscos e obrigações entre o poder público e a iniciativa privada não tem sido equilibrada”, afirma o sócio do VLR Advogados e professor da FGV Direito SP, Luis Felipe Valerim.
Segundo Valerim, se os governos não aprimorarem a modelagem desses projetos, as estatais podem enfrentar dificuldades para avançar no processo de universalização dos serviços por meio de PPPs.
Já o sócio do Bocater Advogados, Thiago Araújo, avalia que a menor concorrência observada neste ano reflete uma mudança no perfil dos ativos que chegam ao mercado.
“O novo marco legal do saneamento ampliou a participação da iniciativa privada e permitiu que os projetos mais atrativos fossem licitados primeiro. Agora, os ativos remanescentes exigem investimentos mais elevados, apresentam maior complexidade operacional e demandam modelagens mais sofisticadas para preservar sua atratividade”, diz.
Novo Teste
O próximo teste dessa dinâmica será o leilão da concessão regionalizada dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário de Rondônia, marcado para 29 de setembro, na B3. Ao todo, o projeto prevê R$ 8,4 bilhões em investimentos.
Para Araújo, o certame poderá mostrar, na prática, se modelos diferentes conseguem ampliar a disputa entre investidores. “Trata-se de uma concessão integral, na qual a concessionária operará os serviços de água e esgoto. Se conseguir atrair maior competição, poderá servir de referência para futuras concessões do setor.”
Além disso, o saneamento lidera a carteira de PPPs e concessões mais próximas de sair do papel no Brasil. Das 177 iniciativas que já concluíram a etapa de consulta pública — última fase antes do início das licitações —, 50 estão ligadas aos segmentos de resíduos sólidos, água e esgoto, aponta levantamento da consultoria Radar PPP.
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