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O jeitinho brasileiro e IA

Veja por que o País não precisa fabricar modelos, chips e infraestrutura bilionários para ditar o futuro das fintechs verde-amarelas

21 de agosto de 2026

Por Aramis Merki II

A inteligência artificial começa a mudar a tese de investimento em fintechs no Brasil. Em vez de disputar apenas a criação de bancos digitais, meios de pagamento ou infraestrutura financeira, uma nova geração de startups tenta usar modelos de IA para automatizar ou ampliar serviços que dependem de conhecimento especializado, como gestão de patrimônio, pagamentos e assessoria de investimentos. Só em duas rodadas anunciadas neste mês, as fintechs Decade e Kesh levantaram juntas cerca de R$ 1 bilhão.

Os aportes chegam enquanto o capital de risco global para inteligência artificial continua concentrado em empresas que desenvolvem modelos, chips e infraestrutura, com rodadas de dezenas de bilhões de dólares. No Brasil, onde é difícil competir nessa camada mais intensiva em capital, a oportunidade pode estar na aplicação da tecnologia a mercados nos quais o país já construiu escala e conhecimento. O setor financeiro aparece entre os primeiros a testar essa hipótese.

Levantamento da gestora de venture capital SaaSholic identificou pelo menos US$ 792,9 milhões investidos em 126 rodadas de venture capital no Brasil em 2026 até 19 de agosto. Desse total, US$ 507,8 milhões, ou 64%, foram destinados a startups de IA, distribuídos em 62 rodadas. As empresas que combinam IA e fintech receberam US$ 194 milhões em 12 rodadas. Considerando todas as fintechs, com ou sem inteligência artificial, foram US$ 356,8 milhões em 33 rodadas.

Os dados da SaaSholic consideram apenas rodadas de equity com valores divulgados e, portanto, representam um piso para o mercado.

Casos de destaque

Na gestão de patrimônio, a Decade aposta justamente na combinação entre inteligência artificial e serviços financeiros para ampliar o acesso a um tipo de atendimento tradicionalmente voltado a clientes de maior renda. Fundada por ex-executivos ligados ao Nubank, a startup recebeu US$ 85 milhões em uma rodada liderada por fundos como Benchmark, Diffusion e Greenoaks, mesmo ainda em fase piloto. A plataforma combina IA com consultores de investimentos para consolidar informações financeiras de diferentes instituições, acompanhar gastos e investimentos e identificar oportunidades de otimização de carteira e tributação.

A mesma lógica aparece na StreamFin, que busca levar uma IA corporativa para assessorias e consultorias de investimentos. A plataforma integra dados de sistemas de corretoras, Open Finance, outras contas e políticas internas dos escritórios para auxiliar estrategistas de alocação, assessores e gestores. A proposta, segundo o fundador Marcelo Oliveira, é permitir que empresas menores tenham uma capacidade de inteligência artificial semelhante à que grandes bancos conseguem desenvolver internamente.

A tese de investimentos em startups de serviços com IA vai além das finanças. Prova disso é a Enter, que usa a tecnologia para a área jurídica, e recebeu US$ 100 milhões em uma rodada neste ano.

Movimento global

O cruzamento de investimentos que são tanto em IA quanto em fintechs tem especial apelo no Brasil e na América Latina. Segundo o Boston Consulting Group (BCG), a região foi a de maior crescimento acumulado do mundo no mercado de fintechs desde 2021, com expansão anual composta de 44%. Em 2025, mesmo após a desaceleração dos anos anteriores, o setor cresceu 15%.

No Brasil, a concentração é ainda maior. O Fintech Report 2025, do Distrito, identificou mais de 3,7 mil fintechs ativas na América Latina, das quais 56% estavam no País. A dimensão do ecossistema ajuda a explicar por que serviços financeiros aparecem como um dos primeiros mercados para a aplicação de IA: há uma base extensa de empresas, dados e processos que podem ser automatizados ou reorganizados pela tecnologia.

A diferença em relação ao mercado global de venture capital é a escala dos investimentos. No segundo trimestre, o capital de risco global atingiu US$ 227,4 bilhões, segundo a KPMG, mas grande parte do dinheiro ficou concentrada em poucos negócios de inteligência artificial. A Anthropic, por exemplo, levantou US$ 65 bilhões, enquanto a Prometheus recebeu US$ 12 bilhões e a chinesa DeepSeek, US$ 7,4 bilhões.

A diferença sugere uma divisão dentro da própria economia da IA. Enquanto os maiores fundos globais financiam a construção de modelos, chips e infraestrutura, o mercado brasileiro começa a receber capital para empresas que aplicam esses modelos a problemas específicos.

A própria KPMG aponta que a próxima fase do ecossistema brasileiro tende a favorecer soluções de IA verticais voltadas a desafios locais, especialmente em setores complexos como serviços financeiros, jurídico, saúde e back office corporativo. Nesse cenário, o diferencial brasileiro pode não estar na disputa pela criação do próximo grande modelo de inteligência artificial, mas na capacidade de transformar modelos desenvolvidos lá fora em produtos.

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