Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Marcha lenta em um mercado promissor

Até agora foi um ano desafiador que contrasta com os dois anteriores, durante os quais as empresas emitiram volumes recorde de papéis

7 de agosto de 2026

Por Cynthia Decloedt e Altamiro Silva Junior 

Depois de uma sequência de marcas históricas, o mercado de crédito privado pisou no freio em um 2026 marcado pela cautela. Eventos com grandes companhias e instabilidades externas travaram as operações por quase um trimestre, mas o setor agora inicia uma volta, impulsionada por captações de vencimento mais curto e de alto nível em um contexto de retorno gradual da demanda.

Até agora foi um ano desafiador que contrasta com os dois anteriores, durante os quais as empresas emitiram volumes recorde de papéis com os gestores vendo as maiores oportunidades de rentabilizar fundos e fortunas. Os eventos de crédito de grandes companhias como Raízen, GPA e Braskem, somado à volatilidade externa, praticamente paralisaram as emissões por cerca de três meses, que só agora começam a ser retomadas. Desde julho, captações bancárias de empresas de primeira linha e a prazos curtos têm marcado uma lenta volta de novas operações.

No primeiro semestre, as ofertas de renda fixa somaram R$ 289 bilhões, queda de 5,1% ante igual período do ano passado, segundo a Anbima. E os gestores acreditam que este não será um ano de volumes semelhantes ao de 2025, quando o total captado atingiu um recorde de R$ 737,7 bilhões, considerando o mercado de renda fixa. Isso após o ano de 2024 já te batido recorde.

“O mercado não está na velocidade que poderia estar nesta retomada, mas os prêmios de risco estão fechando novamente e há demanda”, afirma o responsável pelo mercado de renda fixa e dívida estruturada do UBS-BB, Samy Podlubny. Mesmo assim, os bancos de investimento, que dão garantia firme de distribuição das ofertas às empresas, têm aconselhando que elas emitam menores volumes, depois de várias operações terem encalhado, há pouco tempo atrás.

“Em um mercado normal, os bancos não tomariam susto com ofertas gigantes, mas, neste momento, a tendência são emissões de R$ 500 milhões a R$ 1,5 bilhão e dividida entre vários bancos”, diz. De acordo com Podlubny, essas são as transações que os assessores financeiros têm mais conforto para distribuir agora. No primeiro semestre, as captações com debêntures somaram R$ 170 bilhões, queda de 12% na comparação com igual período de 2025, que já havia sido menor que a primeira metade do ano anterior, segundo a Anbima.

Na ponta compradora, entre os gestores, o sentimento é de fato de cautela. “Ninguém está querendo tomar muito risco, nem de crédito”, diz o sócio e CEO da Sparta, Ulisses Nehmi. Para além disso, Nehmi afirma que os prêmios de risco praticados agora ainda são baixos, mesmo após uma correção de alta. “A renda fixa está atraente, mas o crédito corporativo não. Ainda é preciso tomar cuidado com o crédito”, diz.

Segundo ele, em todas as conversas, investidores ainda perguntam qual será a próxima empresa a quebrar. Nehmi conta que um deles chegou a dizer que, embora não soubesse quem, tinha certeza que a próxima é do agronegócio. “Acho que isso reflete um pouquinho do sentimento do mercado hoje, na esteira de Raízen e outros nomes do segmento”, afirma.

Mesmo assim, Nehmi espera que mais emissões cheguem ao mercado no segundo semestre, em função de uma necessidade de alocação dos gestores. “As carteiras de títulos não incentivados estão com papéis curtos”, conta. Entre os papéis incentivados, o cenário é mais desafiador, segundo o sócio da Sparta, especialmente para as emissões de certificados de crédito do agronegócio e imobiliário, já que seu maior público, o investidor pessoa física ainda está ressentido pela crise em grandes nomes do segmento.

O sócio e gestor da Valora, Daniel Pegorini, defende que existe um certo excesso na percepção negativa do crédito privado nos últimos meses, na esteira dos casos de reestruturação envolvendo empresas muito grandes e conhecidas. “Em 2025 houve problemas do mesmo tamanho, mas em empresas que não tinham tanta presença nas pessoas físicas, não geraram tantas notícias”, afirma. Mas acrescenta que, como gestor, não vê um problema sistêmico.

“Os casos têm muito mais a ver com problema do dono da empresa do que macroeconômico”, diz Pegorini. Segundo ele, na Raízen houve um problema de excesso de dono, em que seu maior sócio, Rubens Ometto, reuniu um conjunto enorme de recursos de todo o seu conglomerado para fazer um investimento na Vale, que deu errado. Em Braskem, segue ele, o problema foi de falta de dono, com a empresa a mercê da venda da fatia de controle por vários anos. “Braskem tem zero problema, é monopolista, de um setor do qual dependem vários setores produtivos, como o setor de construção, por exemplo”.

Para Pegorini, com o fim dos fundos exclusivos foram criadas as carteiras administradas, com muito volume de papéis isentos concentrados nesses nomes. “Havia fundos exclusivos com 20% de concentração em Raízen”, lembra. Portanto, “esses problemas levaram os investidores a ter maior resistência ao mercado de crédito”, acrescenta.

Pegorini diz ainda que o mercado está muito melhor hoje do que há três meses atrás em termos de retorno e que têm buscado papéis no mercado com bancos e aproveitado para montar posições com a venda de papéis por fundos de pensão que vendem debêntures para adquirir títulos soberanos.

“A volatilidade gerada por eventos de crédito acabou tendo impacto sim no número de emissões no primeiro semestre”, disse o presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, Guilherme Maranhão. Quem poderia esperar, acabou segurando captações. Quem precisou captar, conseguiu a prazos mais curtos. “Enxergamos uma redução do prazo, é natural na medida em que existem mais incertezas. Tanto nas debêntures institucionais como nas incentivadas o prazo tem se reduzido.” Os spreads -custo de captação em relação ao referencial – subiram, mas já voltaram a ceder, completa o executivo. O período mais agudo da crise foi o segundo trimestre, ressalta.

“Tivemos um hiato de três meses, em que não houve demanda para emissões nem das próprias companhias”, disse Renato Otranto, diretor da área de dívida (DCM, em inglês) do Banco Daycoval. Ele conta que algumas emissões tiveram que ser redesenhadas. Nas últimas semanas, as operações voltaram e, segundo ele, as gestoras já estão batendo na porta dos bancos querendo saber das próximas emissões. Para Otranto, provavelmente o segundo semestre deve ser melhor que o primeiro, até por conta do valor importante de vencimento de dívida para o resto de 2026.

Veja também