Custos em alta e sinais de cansaço na entrada de novos clientes acendem alerta de uma nova fase para as operadoras de saúde
26 de junho de 2026
Por Willian Miron
Os planos de saúde viveram, nos últimos anos, uma rara combinação de expansão da base de clientes, reajustes elevados e recuperação da rentabilidade. O setor atravessou a turbulência da pandemia e saiu dela mais forte do que muitos imaginavam. Agora, os números contam uma história um pouco diferente.
A recuperação continua, mas perdeu velocidade. A expansão da base de beneficiários praticamente estagnou nos primeiros meses deste ano, os custos assistenciais voltaram a pressionar os balanços e os lucros já não avançam com a mesma intensidade que marcaram a retomada iniciada em 2022. Começam a surgir indícios de que o ciclo mais favorável para as operadoras está entrando em uma nova fase.
Os dados mais recentes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ajudam a explicar essa mudança de percepção. Até abril, os planos médico-hospitalares somavam 52,957 milhões de beneficiários. Desde janeiro, porém, o crescimento da carteira tem sido praticamente vegetativo, alternando pequenos avanços e leves recuos, em ritmo inferior ao observado ao longo de 2025.
Os dados econômico-financeiros do primeiro trimestre apontam que as operadoras registraram lucro líquido de R$ 6,3 bilhões no período, queda de 11,3% em relação ao mesmo intervalo de 2025. O resultado reforçou a percepção de que a forte recuperação observada pelo setor desde 2022 pode estar perdendo força.
A receita total do setor somou R$ 101 bilhões, aumento de 8,7% na comparação anual. A margem líquida ficou em 6,2% da receita. Embora o crescimento da arrecadação permaneça sólido, ele já não tem sido suficiente para impulsionar os lucros no mesmo ritmo dos últimos anos.
Parte dessa desaceleração é explicada pela volta da pressão dos custos. A sinistralidade, que mede a parcela da receita consumida por despesas médicas e hospitalares, atingiu 81% entre janeiro e março, alta de 1,8 ponto porcentual em relação ao primeiro trimestre de 2025.
Na avaliação dos analistas Samuel Alves e Maria Resende, do BTG Pactual, os números sugerem uma pausa no ciclo de recuperação iniciado após a pandemia. Segundo eles, a sinistralidade caixa do setor permaneceu em níveis historicamente favoráveis, mas os indicadores apontam que a melhora operacional observada desde 2022 pode estar se aproximando do fim.
Os analistas destacam que os prêmios avançaram cerca de 9% na comparação anual, impulsionados pelo aumento dos tíquetes médios e pela expansão da base de beneficiários, enquanto as despesas assistenciais cresceram em ritmo semelhante. Esse movimento ajuda a explicar a estabilidade operacional do setor, mas também a menor expansão dos resultados, uma vez que os ganhos de eficiência passaram a ser mais limitados.
Nesse contexto, o mercado tem reforçado a preferência por operadoras de maior escala e capacidade de execução. Para o BTG, grupos como SulAmérica, Bradesco Saúde e Amil seguem bem posicionados para ganhar participação de mercado, enquanto a Rede D’Or permanece como a principal escolha do banco no setor, sustentada pela combinação entre operações hospitalares, seguros de saúde e novas frentes de crescimento.
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