Uma marca esportiva importante tem potencial de virar trophy asset em um portfólio de investimentos
23 de maio de 2026
Por Karla Spotorno
Ser sócio de Cristiano Ronaldo. Ter um almoço de negócios com Rafael Nadal. Convidar os amigos para assistir à final do timão na sala da diretoria do próprio clube. Investir em esporte tem um pouco disso tudo. Abre mais do que portas. É uma forma de ganhar dinheiro e, sobretudo, prestígio e simpatia (mesmo com pessoas difíceis).
Em inglês, uma marca esportiva importante vira um trophy asset em um portfólio de investimentos. Ou seja, é aquele ativo especial -raro e desejado por fãs e curiosos – que deslumbra e faz até mesmo os adversários se aproximarem, seja por curiosidade ou mesmo dúvidas do tipo será que é tudo isso?
“Um bilionário que compra um time de futebol acaba sendo mais reconhecido por esse negócio do que pela empresa que construiu”, disse Guilherme Ávila, Head of Sports, Media & Entertainment do Itaú BBA.
Outro exemplo é o do jogador mundialmente famoso como Cristiano Ronaldo virando sócio da área internacional da CazéTV. O atleta entrou na sociedade, segundo o co-fundador e sócio da LiveMode, o empresário brasileiro Edgar Diniz, para atuar nos negócios fora do Brasil. “O Cristiano Ronaldo é uma lenda do esporte e um homem de negócios. Ele terá sociedade no que fazemos fora do Brasil”, afirmou Diniz no Sports Summit, promovido pelo Itaú em Nova York durante a Brazil Week.
Apesar de toda essa aura célebre, poucas pessoas do mundo dos negócios enxergam o potencial do esporte que vai além do ativo-troféu. Não só no Brasil, o esporte ainda não é visto como uma classe de ativo para ser investido. Há alguns motivos para isso: falta de profissionalismo em ligas e empresas, governança frágil, processos corporativos amadores e centrados no fundador da equipe ou campeonato. Alguns números, porém, mostram que há, sim, boas teses de investimento. Nos Estados Unidos, essa indústria gira em torno dos US$ 6 trilhões, segundo especialistas.
“O principal produto do esporte brasileiro é o futebol, onde vemos um volume de, aproximadamente, R$ 5 bilhões em direitos comprados”, afirmou o executivo do Itaú BBA. “Com os movimentos certos, esse volume pode até quadruplicar em até dez anos”, projeta o executivo, que está há pouco mais de um ano no Itaú, onde entrou para estruturar negócios no esporte, entretenimento e mídia.
Ávila conta que o Itaú investe há anos em esporte e entretenimento, mas do ponto de vista do marketing e branding. “Itaú é patrocinador da seleção [brasileira de futebol masculino]. Compra muita mídia voltada para o esporte na TV Globo, na Live Mode, na KZTV”, diz.
Há pouco tempo, porém, o banco entendeu que poderia investir encarando o esporte como um negócio, segundo Ávila. Ele conta que a direção do Itaú observou que o esporte e o entretenimento entraram num momento de inflexão tanto do ponto de vista de governança quanto de capital novo fluindo para esse setor.
“Nesse processo de amadurecimento, o banco foi tentando entender como poderia jogar esse jogo e percebeu que, dentro do universo de M&A, existe escala para trabalhar. Esse é o ponto principal”, afirmou.
Além de o banco de investimentos buscar clientes para M&A (fusões e aquisições) ou que precisam levantar capital via emissão de títulos de dívida, outras áreas procuram ativamente oportunidades. No segmento corporativo, um núcleo busca entender quais são “as dores”, por exemplo, de uma liga de skate. Talvez seja obter crédito para capital de giro ou apenas alguém para fazer a gestão de recursos recorrentes. No private banking, a ideia é entender como atrair e atender os atletas profissionais com milhões de reais para administrar. “Os valores que os atletas recebiam antigamente não são nada quando comparamos aos dias de hoje. Hoje, há muito mais atletas com centenas de milhões de reais e sem atendimento”, disse.
Ávila não abre quais são os deals capitaneados pelo Itaú. Adianta que o banco está assessorando clubes de futebol, ligas esportivas, empresas de mídia, empresas de entretenimento. “Os negócios estão começando a acontecer. Temos um pipeline grande de operações em andamento. Mas é preciso dar o tempo certo ao ciclo natural de um M&A”, afirmou. “Devemos anunciar bastante coisa mais à frente”, acrescentou.
A bola está em jogo. E o jogo, segundo o Itaú BBA, é de campeonato grande. Agora, é esperar para ver quem vai levar o melhor troféu para casa.
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