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O lado esquecido da IA

Para Avanish Sahai, veterano do Vale do Silício, verdadeiro desafio não é tecnologia, mas seu impacto social e o risco de colonização digital

5 de junho de 2026

Por Eduardo Laguna

A inteligência artificial já movimenta trilhões de dólares, redefine estratégias corporativas e inaugura uma nova corrida tecnológica global. Mas, para Avanish Sahai, veterano do Vale do Silício e ex-executivo de gigantes como Google Cloud, Salesforce e Oracle, a discussão mais urgente ainda está fora dos holofotes: o impacto social da IA.  Segundo ele, o debate sobre como proteger as pessoas que perderão seus empregos na revolução tecnológica não avança com o senso de urgência merecido.

“O impacto social pode ser gigantesco, maior do que qualquer coisa que já vimos historicamente. Acho que não estamos preparados ainda para enfrentar isso”, afirmou a Sahai em entrevista à Broadcast Weekend.

Nascido na Índia, criado no Brasil e hoje vivendo nos Estados Unidos, Sahai esteve em São Paulo nesta semana para participar do Prêmio Broadcast.  

Além do alerta sobre empregos, ele chama atenção para outro tema que começa a ganhar espaço nos conselhos de administração: a soberania digital. Para ele, países que não desenvolverem capacidade própria em tecnologia e proteção de dados correm o risco de entrar em uma nova era de dependência das grandes empresas globais de tecnologia, uma espécie de colonização digital movida por inteligência artificial. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Estudos preveem que 20% a 25% das atividades de uma empresa vão ser afetadas pela inteligência artificial. Quais áreas e funções específicas correm maior risco de se tornarem obsoletas e serem substituídas?  
Avanish Sahai:
Esse dado vem de estudos feitos há pouco mais de dois anos, no começo dessa fase de IA generativa. De lá para cá, houve um maior entendimento sobre como a IA realmente está começando a impactar. A Anthropic [principal concorrente da OpenAI] também lançou um estudo que traz a avaliação de que certas carreiras estão sendo mais rapidamente influenciadas pela IA. Por exemplo, 90% das atividades de um desenvolvedor ou de um engenheiro de software poderão ser ou já estão sendo assumidas pela IA. Então, varia de função para função.

Broadcast: A IA vai destruir ou substituir os empregos? Qual será o saldo final no mercado de trabalho?  
Sahai:
Muitas coisas vão ser reinventadas. É preciso repensar como certas funções são exercidas e treinar as pessoas a usar a IA como uma ferramenta. Também vão existir funções e carreiras novas, que a gente nem conhece. A parte negativa é que certas carreiras deixarão de existir, como aconteceu no passado. Quando surgiu o carro, as carruagens foram embora, e com elas a carreira de condutor de carruagem. Eu, pessoalmente, acho que a IA vai afetar muitas funções, e que o impacto vai ser relativamente maior. Sem coordenação entre empresas, instituições acadêmicas, sociedade civil e governo, será muito mais difícil ajudar quem precisa.

Broadcast: Como treinar os funcionários se a IA evolui em velocidade muito maior do que o nosso tempo de aprendizagem? Quando aprendemos, já surge uma novidade, né?  
Sahai:
Estou nesse mundo de tecnologia há 30 e poucos anos. Acompanhei todas as inovações que aconteceram desde a primeira geração da internet. Nunca vi nada crescer tão rápido quanto a IA. As empresas precisam ter, primeiro, a conscientização de que serão afetadas pela mudança de forma drástica. Existe muita oportunidade de melhorar a performance operacional, mas também existe a responsabilidade social da empresa em ajudar seus funcionários nessa nova jornada. Vejo empresas que estão começando a pensar assim. Há bancos onde todo mundo tem que estar habilitado a usar IA.

Broadcast: Quais são as soluções para proteger as pessoas que não conseguirão atender às novas demandas e perderão seus empregos?  
Sahai:
É uma das grandes perguntas. Algumas saídas são discutidas, como a criação de uma renda mínima para sustentar essas pessoas. Não sei ainda como isso vai ser resolvido porque há questões políticas, questões de cultura, questões sociais, diversas variáveis. Alguns, como Bill Gates, recomendam o pagamento de um imposto sobre o trabalho que está sendo substituído.

Broadcast: Seria taxar o robô?  
Sahai:
Como se fosse taxar o robô ou a tecnologia.

Broadcast: Isso colocaria um obstáculo à inovação?  
Sahai:
Depende. Se o imposto for menor do que o benefício, talvez seja uma solução. Essas discussões estão apenas começando. Pessoalmente, acho que não estão acontecendo com o senso de urgência que deveria. Certos investidores na área de venture capital nos Estados Unidos preveem que, daqui cinco anos, a maioria, se não todas, das funções do conhecimento, seja um professor, seja um médico, será feita por agentes de IA. Não acho que será tão radical assim, mas se for esse o caminho, precisamos pensar em como vamos lidar. O impacto social pode ser gigantesco, maior do que qualquer coisa que já vimos historicamente. Acho que não estamos preparados ainda para enfrentar isso.

Broadcast: A IA pode ampliar o abismo econômico entre os países que estão liderando essa corrida e os que não conseguem acompanhar a velocidade da transformação, e assim não terão os mesmos ganhos de produtividade?  
Sahai:
Infelizmente, sim. Há muito tempo, os Estados Unidos são o centro da inovação. Agora tem uma concorrente à altura, que é a China. A China tem feito investimentos significativos em todas as camadas de tecnologia. Os modelos chineses são, às vezes, até 80% mais baratos do que os modelos americanos do ChatGPT. Por outro lado, muitos outros países estão bem atrás, e eu acho que infelizmente isso talvez crie uma barreira. Não creio que todo mundo precise criar os seus modelos, sua infraestrutura, já que é um investimento caro. As grandes empresas de TI estão investindo conjuntamente quase US$ 1 trilhão por ano em infraestrutura e data centers para apoiar IA nos Estados Unidos. É um investimento gigantesco, maior do que o PIB de alguns países. Brasil, Índia ou países da África podem ter esse nível de investimento? Difícil. Mas também eu acho que não podem ficar totalmente atrás, não podem ignorar.

Broadcast: Como esses países podem fazer a transição?  
Sahai:
Criando aplicativos, modelos de negócios diferentes, usando os seus conhecimentos. O Brasil, por exemplo, tem avanços significativos no agro e no setor financeiro. Vamos criar uma economia em torno dessas áreas onde o Brasil tem conhecimento e usar a IA para impulsionar ainda mais.

Broadcast: Como fica a autonomia dos países que dependem desses grandes centros tecnológicos? A IA representa um novo tipo de colonização?  
Sahai:
Eu já usei esse termo colonização. É um termo forte, mas no caso do mundo de dados que nós estamos vivendo… Temos que pensar bastante em como proteger a soberania de dados. As regulamentações estão sendo criadas para proteger em nível nacional, às vezes regional. Mas existe o risco, criado pela dependência de empresas privadas americanas, como OpenAI, Anthropic e Google. Se, por motivos diversos, elas decidem fechar o acesso, como é que fica? Se o modelo de desenvolvimento está ficando dependente disso, é uma grande questão. Cada país está lidando de uma forma diferente. Não vejo, e é uma pena, uma coalizão ou uma organização ajudando a pensar sobre isso de uma forma mais sistêmica, como, as Nações Unidas para o modelo de governança de dados de IA. Então, essa guerra vai criar alguns atritos, e eu temo que tenha esse aspecto um pouco radical de colonização.

Broadcast: Como o senhor acompanha o debate sobre a regulação da inteligência artificial no Brasil? É possível equilibrar a inovação com a ética no uso e desenvolvimento dessas novas ferramentas?  
Sahai:
Estou acompanhando. Faço parte do conselho de IA da Fiesp, liderado pelo senador Marcos Pontes. Estamos tentando contribuir com o debate sobre regulamentação da infraestrutura de servidores e do marco de IA. É fundamental que o governo tenha uma interação com a sociedade, empresas, centros acadêmicos, partidos políticos, sindicatos… Essa colaboração tem que existir. Cada um traz uma perspectiva diferente. Estamos num momento de muita discussão, com vários participantes engajados. Vai sair algo perfeito? Não sei. Mas tem que haver uma certa regulamentação, com processos para atualizá-la.

Broadcast: As big techs ganharam um poder de influência global superior ao de grandes nações?  
Sahai:
É difícil medir a influência. Mas a nossa dependência em relação à tecnologia de empresas privadas, e em geral americanas, já existe. O poder delas no nosso dia a dia é razoável. Já estamos vivendo essa dependência, que é global, não é regional, não é um circuito. Não sei responder se essa influência é tão grande quanto a influência militar ou política. Mas que no dia a dia o consumidor já está vivendo isso, sem dúvida.

Broadcast: As empresas de tecnologia puxaram um rali nos mercados sem gerar lucro e com dívidas massivas. Quanto tempo mais o mercado vai esperar até essas empresas começarem a dar retorno?  
Sahai:
É difícil prever. Mas falando em crescimento, vou usar a Anthropic como exemplo. A receita, que em 2024 era de US$ 1 bilhão, já está em US$ 47 bilhões. O investidor olha para o potencial de crescimento do negócio, e se uma empresa vai conseguir dominar o seu mercado. A Anthropic está com cara de que vai fazer um IPO de mais de US$ 1 trilhão. São números estratosféricos. A Nvidia é avaliada em US$ 5 trilhões; o Google em pouco mais de US$ 4 trilhões; a Microsoft, em US$ 3 trilhões e pouco. E esses trilhões começaram a virar parte da conversa só uns dois ou três anos atrás.

Broadcast: Mas os investimentos também são trilionários…  
Sahai:
Exatamente. Essas empresas precisam levantar capital para investir em infraestrutura, criar aplicativos e modelos de linguagem, contratar pessoas. São investimentos grandes, porém com retornos também grandes. A estimativa é que o mercado de IA será de US$ 3 trilhões a US$ 4 trilhões em 2030.

Broadcast: Essa demanda gigantesca por recursos vai enxugar a liquidez do capital internacional? Pode causar uma escassez de recursos a outras indústrias fora desse universo das empresas de tecnologia?  
Sahai:
É possível. Mas também estamos num dos momentos mais ricos na história da humanidade, em que existe recurso, existe capital. A questão é se só investimos nisso [tecnologia]. É uma preocupação que muitos de nós temos. Mas a tecnologia, de qualquer forma, também vai puxar a criação de empregos em construção e na mineração.

Broadcast: Dá para traçar paralelos entre a situação de hoje e a do estouro da bolha da internet (ponto com) do início dos anos 2000?  
Sahai: Os fundamentos hoje são mais sólidos. Existem empresas com valuations altos que não vão sobreviver. Faz parte da dinâmica e do modelo de capital de risco. Nem todo investimento vai dar certo, mas os que derem certo vão compensar os que não deram. Essa é a ideia.

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