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Alto renome: PIX

Meio de pagamento muda hábito de consumo, vira unanimidade e valor movimentado supera, na média recente, R$ 3 trilhões por mês

19 de junho de 2026

Por Aramis Merki II e André Marinho

É difícil encontrar um brasileiro que nunca tenha feito um PIX. Mais difícil ainda é encontrar outro produto criado no País que tenha sido adotado com tanta velocidade. Com mais de R$ 3 trilhões movimentados por mês e 175 milhões de usuários, mudou hábitos de consumo, acelerou a digitalização dos pagamentos e passou a ocupar um espaço raro: o de um ativo considerado estratégico para o País.

Esse novo status ficou evidente nas últimas semanas. O INPI concedeu ao PIX o registro de marca de alto renome, reconhecimento reservado a nomes que ultrapassam seu mercado de origem. Quase ao mesmo tempo, o sistema apareceu no centro da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, citado por autoridades americanas como um obstáculo à atuação de empresas estrangeiras no mercado de pagamentos. A reação do governo brasileiro foi imediata, tratando o PIX como um patrimônio nacional, enquanto o Congresso discute transformar suas principais características em garantias constitucionais.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que, se confirmada, tornará o PIX parte da Constituição,  blindando-o contra concessões, cessões ou transferências a entes públicos ou privados, e garantindo sua gratuidade para pessoas físicas.

O argumento de que o PIX sufocaria a competição não se sustenta diante dos próprios dados da indústria de pagamentos. Entre 2021 e 2025, enquanto o PIX crescia em ritmo exponencial, o volume transacionado pela indústria de cartões dobrou de tamanho, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). A explicação é que, ao incorporar ao sistema financeiro dezenas de milhões de brasileiros desbancarizados, o sistema do BC ampliou o mercado de consumo formal como um todo. Estima-se que mais de 70 milhões de pessoas sem conta em banco tiveram no PIX seu primeiro acesso a pagamentos digitais.

A resposta das grandes empresas ajuda a explicar esse movimento. Em vez de enfrentar o PIX, elas decidiram usá-lo como plataforma de inovação. A Visa, por exemplo, criou uma operação dedicada a desenvolver soluções baseadas na infraestrutura do sistema: o Visa Conecta.  O modelo funciona como uma camada nos pagamentos via PIX. Permite que consumidores autorizem transações em ambientes de e-commerce ou aplicativos por biometria, eliminando a necessidade de copiar e colar códigos ou de sair de um aplicativo para outro, uma demanda constante dos usuários, segundo Leonardo Enrique, diretor executivo da Visa Conecta.

O modelo da Visa Conecta também ilustra a lógica mais ampla de reposicionamento que grandes empresas de tecnologia financeira têm adotado globalmente. A Visa passou a se descrever não como uma empresa de cartões, mas como uma plataforma de movimentação financeira. Nessa narrativa, o Brasil do PIX é um laboratório de referência. Dentro da classificação interna da empresa, o país integra o grupo de mercados denominado “Challenger”, ao lado da Índia. São economias com alta penetração de pagamentos digitais e forte desenvolvimento de novos formatos, que outras geografias observam como antecipação de seu próprio futuro.

“O Brasil tem sido olhado como o futuro de muitos outros países”, disse Leonardo Enrique, da Visa Conecta. Executivos do setor relatam demanda recorrente de países da América Latina e de outras regiões para entender o modelo brasileiro.

O modelo da Visa Conecta também ilustra a lógica mais ampla de reposicionamento que grandes empresas de tecnologia financeira têm adotado globalmente. A Visa passou a se descrever não como uma empresa de cartões, mas como uma plataforma de movimentação financeira. Nessa narrativa, o Brasil do PIX é um laboratório de referência. Dentro da classificação interna da empresa, o país integra o grupo de mercados denominado “Challenger”, ao lado da Índia. São economias com alta penetração de pagamentos digitais e forte desenvolvimento de novos formatos, que outras geografias observam como antecipação de seu próprio futuro.

“O Brasil tem sido olhado como o futuro de muitos outros países”, disse Leonardo Enrique, da Visa Conecta. Executivos do setor relatam demanda recorrente de países da América Latina e de outras regiões para entender o modelo brasileiro.

O que não é nítido é o nível que o sistema atingiu. Já em 2024 o BC mostrou que o PIX superou o dinheiro em espécie como meio de pagamento mais usado pelos brasileiros. A velocidade da adoção trouxe consigo desafios: o sistema foi alvo de tentativas de fraude que expuseram vulnerabilidades em camadas intermediárias em prestadoras de serviços tecnológicos. Alex Hoffmann, fundador da PagBrasil, aponta que o risco no PIX é relacionado com a engenharia social, que são estratégias de criminosos para conseguir acesso a dados das vítimas.

O executivo aponta que este tipo de golpe acontece em maior volume com cartões – e que as empresas do segmento passaram a olhar mais para mecanismos antifraude a partir da popularização do PIX. Hoffmann enxerga que, para correr atrás do PIX, as bandeiras passaram a lançar mais mecanismos de segurança.

“Para mim, é muito nítida essa correlação entre o PIX chegar e as bandeiras de cartão toda hora lançando uma coisa diferente, mais segura”, disse Haffmann. “A sociedade com certeza está ganhando com essa competição.”

Para o sócio e presidente da Boanerges & Cia Consultoria, Boanerges Ramos Freire, o PIX fomentou uma disputa saudável no setor de pagamentos que, em última análise, favorece o consumidor. Mais do que um canal para transações, porém, a plataforma funciona como uma infraestrutura financeira dinâmica, com uma agenda ainda em evolução.

Entre as inovações na pauta do Banco Central, Freire cita a integração com o crédito e o PIX automática. A autoridade monetária também avalia maneiras de conectar o sistema com os fluxos internacionais de pagamentos. “O PIX é uma política de Estado que está dando muito certo”, conclui.

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