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Trump coloca a confiança global em xeque

O Nobel James Heckman acredita que o maior legado econômico de Trump não são as tarifas, mas a perda de previsibilidade.

31 de julho de 2026

Por Darlan de Azevedo

A economia global já começa a pagar a conta da imprevisibilidade de Donald Trump. Para o Nobel de Economia James Heckman, a escalada das tarifas e a condução da política externa dos Estados Unidos reduziram a confiança, tornaram investimentos mais difíceis e ampliaram os riscos para setores estratégicos, como petróleo, fertilizantes e agricultura.

“Não é nem apenas incerteza, mas ambiguidade. É quando nós, economistas, nem sequer conhecemos as probabilidades desses eventos”, afirma.

Em entrevista à Broadcast Weekend, o professor emérito da Universidade de Chicago também criticou a tentativa de Trump de reindustrializar os Estados Unidos com tarifas e alertou para os efeitos sobre os consumidores. Enquanto a inflação segue acima da meta, uma eventual alta de juros pode interromper a recuperação do mercado imobiliário. Para Heckman, a economia ainda enfrenta outro desafio: uma geração mais jovem pressionada pelo mercado de trabalho e pela inteligência artificial, enquanto o centro político americano perde espaço para os extremos. A seguir, os principais trechos:

Broadcast: Com a guerra entre Estados Unidos e Irã entrando no quinto mês, quais podem ser os impactos de um conflito prolongado no Oriente Médio para a economia global?

O problema com a guerra no Oriente Médio e, mais importante, com a forma como o governo Trump tem conduzido o conflito, é que isso introduziu um enorme grau de incerteza na economia mundial. Não houve um acordo profundo com o Irã, e ele (acordo) fracassou. É uma situação de incerteza tão profunda que, na prática, não sabemos o que esperar. Não é apenas incerteza, mas ambiguidade. Isso acontece quando nós, economistas, nem sequer conhecemos as probabilidades desses eventos. E o próprio Trump introduz um certo grau de imprevisibilidade em tudo isso.

Broadcast: Quais setores e regiões já sentem de forma mais aguda os efeitos desse cenário?

Heckman: Os setores mais atingidos, como petróleo e fertilizantes, que têm enormes implicações para a agricultura em todo o mundo, já mostram consequências muito negativas na África. Acho, portanto, que houve uma enorme queda na confiança global sobre a possibilidade de manter relações comerciais estáveis, bem como padrões previsíveis de comércio e intercâmbio. A continuidade disso reduzirá o crescimento econômico em praticamente todos os lugares.

Broadcast: Se por um lado temos um crescimento menor, pelo outro também temos uma inflação mais alta nos Estados Unidos…

Heckman: Ainda assim, é uma inflação longe do pico pós-covid, quando o governo Biden fez uma política muito equivocada de aumentar gastos justamente quando a oferta estava reduzida. O resultado foi um nível muito mais alto de inflação. Trump ainda não chegou a esse ponto, mas a inflação continua presente e está acima da meta. Como ela é baixa, em torno de 2%, acho que é possível argumentar que ainda há um longo caminho pela frente. 

Broadcast: Uma reportagem recente do Wall Street Journal mostrou que os Estados Unidos estão começando, em alguns setores, a adotar um índice de preços diferente. Essa mudança é essencialmente política?

Heckman: Na verdade, não é política. Mas eles estão retirando, em particular, o petróleo e outros bens do cálculo do índice de preços. Isso vai resultar em um índice mais baixo. Então, vai parecer que a inflação está sob controle, porque as pessoas levam muito a sério a comparação entre um índice e outro. É uma boa reportagem, baseada em fundamentos científicos. Eu só não esperava que esses índices entrassem em vigor já no próximo mês. Então, em agosto, estaremos falando de um novo indicador, o que pode fazer parecer que, de repente, a inflação está controlada.

Broadcast: Essa melhora será percebida pela população?

Heckman: Não. Existe uma forte percepção, especialmente entre os mais jovens, de que a economia como um todo se voltou contra eles. A geração mais velha, os baby boomers, que acumulou patrimônio e construiu riqueza ao longo dos anos, está relativamente bem, mas seus filhos estão em uma situação pior. O mercado de trabalho está muito mais pressionado. Existe também a percepção de que muitas profissões que antes eram consideradas seguras, como a contabilidade e outras, agora estão sendo afetadas pela inteligência artificial (IA). Há também uma questão mais geral: por causa da incerteza na economia como um todo, houve uma retração significativa nas contratações que normalmente aconteceriam.

Broadcast: Quando falamos de incertezas, as tarifas também estão incluídas nesse rol de vetores?

Heckman: Com certeza. Um estudo do Fed de Nova York mostrou quanto das tarifas foi repassadas aos consumidores, algo entre 70% e 80%. É preciso entender que, em termos de orientação político-econômica, este governo dos Estados Unidos é muito ruim. A lógica que o Peter Navarro [mentor do tarifaço] usou para justificar a imposição das tarifas é absurda. Veja o que Trump fez com o Brasil: não tem nada a ver com fundamentos econômicos. São argumentos mercantilistas, medievais. Toda a ideia por trás do Consenso de Washington e da liberalização econômica era justamente tentar explorar os benefícios do comércio. Mas isso se perde completamente para essas pessoas. Alguns amigos acham que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, é competente. Eu não vejo dessa forma. Os integrantes desse governo não parecem ter uma força independente.

Broadcast: Independência em relação a quem?

Heckman: Eles estão realmente esperando a aprovação de Trump. Querem agradá-lo. Mesmo no primeiro mandato, Trump tinha pessoas que discordavam dele e lhe davam bons conselhos. Ele demitiu algumas delas, mas elas ainda conseguiram contê-lo em certa medida. Mas agora, esse grupo é formado, em grande medida, por bajuladores. Eles concordam completamente com o presidente. Essa independência, que sempre foi uma tradição nos gabinetes presidenciais americanos, está ausente agora.

Broadcast: É possível projetar um cenário em que o Federal Reserve (Fed) aumente os juros neste ano, conforme está precificado no mercado?

Heckman: Há algumas coisas acontecendo nesse sentido. Uma delas é o setor imobiliário. A taxa de juros tem um impacto muito forte sobre o mercado imobiliário. Se começarmos a apertar as condições financeiras e elevar os juros, isso vai desacelerar o crescimento. E houve uma recuperação modesta neste verão [no Hemisfério Norte] no mercado imobiliário dos Estados Unidos. Portanto, há, de fato, uma melhora, ainda que modesta. Se as taxas de juros subirem, porém, essa recuperação será interrompida. O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, tende a seguir nessa direção, mas acho que há outras considerações importantes, por isso, não deve acontecer imediatamente.

Broadcast: Uma das justificativas de Trump e membros do governo para a aplicação das tarifas é de que elas forçariam o setor manufatureiro a retornar para os Estados Unidos. Até que ponto isso é verdade?

Heckman: Isso não vai acontecer. Você teria de criar uma economia de substituição de importações fortemente subsidiada, com todos os custos envolvidos. Mas Trump nega que as pessoas estejam pagando preços mais altos, e elas estão. As pessoas falam sobre o “choque da China”. Esse choque é apresentado da seguinte forma: “a China tirou os empregos dos americanos”. Isso certamente é verdade em alguns setores. Os chineses superaram os Estados Unidos na produção de vidro e aço, por exemplo. No entanto, quando fazem esses cálculos, nunca levam em conta o fato de que os preços ao consumidor estão muito mais baixos porque a China produz bens de consumo a custos muito menores. Esse é o chamado “efeito Walmart”. Então, quando se começam a somar esses diferentes benefícios, percebe-se que há ganhos líquidos com o comércio com a China.

Broadcast: Pode-se dizer, então, que esse debate está sendo feita de forma muito populista?

Heckman: É um debate de nível muito baixo. Precisamos pensar com muito mais cuidado sobre o que as tarifas estão fazendo, sobre o que a política de juros está fazendo e sobre o que significam essas discussões sobre cortar o acesso das pessoas a determinados recursos. Se observarmos o discurso tanto dos Democratas quanto dos Republicanos, veremos que ambos estão equivocados. Essa é a parte perigosa. Os dois estão deixando de compreender os princípios básicos da economia no que diz respeito ao funcionamento do comércio mundial.

Broadcast: E como isso será visto nas eleições de novembro?

Heckman: Tenho certeza de que a Câmara vai passar para o controle dos Democratas. Isso vai impedir parte dos excessos de Trump. O Senado também pode mudar de mãos, mas a única coisa que me impede de dizer com certeza que isso vai acontecer é o fato de os Democratas estarem lançando alguns candidatos realmente muito radicais. O centro político está desaparecendo lentamente dos Estados Unidos. E, com isso, estamos caminhando cada vez mais para os extremos.

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