Leia sobre o plano de Luiz Awazu que indica como reaquecer a economia brasileira por meio de investimentos estratégicos e inovação
11 de setembro de 2026
Por Gustavo Nicoletta
Luiz Awazu, professor da London School of Economics e ex-diretor do Banco Central, fala do Brasil como quem vê uma chance rara passando na esquina, mas com prazo de validade. Um dos autores de um estudo que propõe separar de R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões por ano para destravar investimento privado, ele defende que o País precisa voltar a crescer pelo investimento. Para Awazu, responsabilidade fiscal é indispensável, mas não é uma estratégia completa de desenvolvimento e apostar só em consumo, sem ampliar capacidade produtiva, costuma terminar em inflação, importações, juros altos e novas dificuldades fiscais.
A saída, diz, é uma terceira via: consolidação fiscal gradual e crível, ao mesmo tempo em que o Estado usa recursos de forma seletiva e catalítica para reduzir riscos e atrair capital privado. O pano de fundo é a reorganização da economia global: transição ecológica, fragmentação geopolítica e transformação tecnológica. Nesse redesenho, Awazu lista ativos que colocam o Brasil no radar, como energia limpa competitiva, água, biodiversidade, agricultura avançada, biomassa, minerais críticos.
Sobre o dinheiro, ele tenta afastar a ideia de gasto novo sem fonte. “Os R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões não seriam nova despesa sem fonte”. Viriam do espaço gerado por um ajuste fiscal de melhor qualidade, com revisão permanente de gastos e de despesas tributárias, além de ganhos de eficiência.
Na prática, Awazu mira setores em que energia limpa e barata muda o jogo. Se tivesse que escolher duas apostas já em 2026-2027, aponta biocombustíveis avançados e SAF e ferro e aço de baixo carbono. Mas faz ressalvas: apoio público, para ele, não pode virar permanente. É preciso participação real do capital privado e regras para suspender desembolsos quando metas, licenças e contratos não saírem do papel.
Veja a seguir, os principais trechos da entrevista:
Broadcast: O senhor é um dos autores de um estudo que propõe destinar de R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões por ano para mobilizar investimento privado. Como isso seria possível?
Luiz Awazu: A tese central é que o Brasil precisa voltar a crescer pelo investimento. Responsabilidade fiscal é indispensável, mas não é uma estratégia completa de desenvolvimento. E estimular só consumo sem ampliar capacidade produtiva e produtividade gera inflação, importações, juros altos e novas dificuldades fiscais. Propomos uma terceira trajetória: consolidação fiscal gradual e crível, enquanto se mobiliza investimento privado para transformar a estrutura produtiva. A transição ecológica, a fragmentação geopolítica e a transformação tecnológica estão reorganizando produção, comércio e capital e trazem uma oportunidade histórica. O Brasil tem ativos valorizados nessa nova economia, como energia limpa competitiva, água, biodiversidade, agricultura avançada, biomassa, minerais críticos, grande mercado interno e relativa neutralidade geopolítica. O desafio é transformar vantagens passivas em atração de investimento, tecnologia e novas cadeias. Como o espaço fiscal é limitado, o Estado não financiaria tudo. Usaria recursos públicos de forma seletiva e catalítica, preparando projetos, construindo infraestrutura comum, oferecendo garantias, reduzindo riscos cambiais e regulatórios e mobilizando volumes muito maiores de capital privado e investimento direto estrangeiro. Instrumentos como o orçamento verde, o Fundo Clima, o BNDES e o Eco Invest ilustram essa arquitetura.
Broadcast: Mas de onde viria o dinheiro?
Awazu: A lógica macroeconômica consiste em criar um círculo virtuoso. A consolidação fiscal gradual reduz a incerteza, os instrumentos públicos atraem investimento privado, que aumenta a produtividade, as exportações e a capacidade produtiva. O crescimento amplia a arrecadação e a melhora das perspectivas econômicas reduz gradualmente os prêmios de risco e o custo do capital. Isso reforça a sustentabilidade da dívida e abre novo espaço para investir. Os R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões não seriam nova despesa sem fonte, viriam do espaço criado por um ajuste fiscal gradual e de melhor qualidade. A revisão permanente de gastos e de despesas tributárias e os ganhos de eficiência poderiam gerar economias de 0,2% a 0,4% do PIB. Uma parte reduziria déficit e dívida. Outra financiaria instrumentos catalíticos para destravar investimento e crescimento.
Broadcast: Qual é o argumento econômico principal para afirmar que a transição ecológica abre uma janela rara para o Brasil?
Awazu: A transição está mudando preços relativos e a geografia da produção. Energia limpa, água, biomassa, biodiversidade e minerais críticos viraram ativos estratégicos. O Brasil reúne tudo isso em escala e já tem matriz elétrica quase toda renovável. A janela consiste em converter essa vantagem inicial em investimento, tecnologia e capacidade industrial antes que outros países ocupem essas cadeias.
Broadcast: Quais segmentos industriais tendem a se relocalizar para países com energia limpa e barata? Onde o Brasil é competitivo?
Awazu: A relocalização ocorre sobretudo nas etapas intensivas em energia: ferro e aço de baixo carbono, alumínio, fertilizantes, amônia, metanol, químicos básicos, hidrogênio e derivados, combustíveis sustentáveis e processamento de minerais críticos. O Brasil é mais competitivo quando combina eletricidade renovável, biomassa ou minerais com portos, logística, água e contratos de longo prazo.
Broadcast: Se tivesse que escolher dois pontos de entrada setoriais para essa estratégia em 2026-2027, quais seriam?
Awazu: Primeiro, biocombustíveis avançados e SAF. O Brasil já tem biomassa, etanol, tecnologia, empresas e infraestrutura e pode avançar com menor risco e maior rapidez. Segundo, ferro e aço de baixo carbono. O País combina minério de alta qualidade, experiência siderúrgica e energia renovável, num contexto em que mercados externos começam a penalizar produtos com alta emissão.
Broadcast: O estudo sugere que cada R$ 1 público mobilizaria cerca de R$ 4,50. O que sustenta isso?
Awazu: Não é multiplicador fiscal automático. É uma razão de alavancagem observada ou utilizada em instrumentos como o Eco Invest. O Fundo Clima, por exemplo, pode ter alavancagem menor. A média depende da combinação de instrumentos, que podem ser garantias, primeiras perdas limitadas, financiamento misto, crédito de longo prazo, hedge cambial, cofinanciamento multilateral e contratos de compra. As hipóteses críticas são a existência de projetos rentáveis, regras estáveis, demanda assegurada, boa governança e participação realmente adicional do capital privado.
Broadcast: Qual é o pacote mínimo para viabilizar dois projetos âncora já em 2026-2027?
Awazu: O pacote mínimo teria quatro componentes: energia firme e competitiva com transmissão e contratos longos, infraestrutura portuária, água e área industrial preparada, licenciamento coordenado e previsível com prazos definidos e estrutura financeira com contratos de compra, garantias, hedge cambial e financiamento de longo prazo. Para SAF e aço de baixo carbono, também é indispensável certificação internacional e compradores comprometidos antes da obra.
Broadcast: Como garantir que esse gasto não vire subsídio permanente nem substitua investimento privado?
Awazu: O apoio deve ser temporário, decrescente e condicionado a resultados, com adicionalidade comprovada. Exigir participação mínima de capital privado, compartilhamento real de riscos e data de encerramento. O Estado reduz riscos iniciais, não garante rentabilidade para sempre.
Broadcast: Quem tomaria as decisões sobre os gastos e como evitar captura política? Qual é a regra para interromper o apoio?
Awazu: Uma unidade técnica independente, com participação de ministérios econômicos e setoriais, BNDES, especialistas externos e órgãos de controle. As decisões seriam publicadas e teriam critérios comparáveis: capital privado mobilizado, produtividade, exportações, empregos qualificados, redução de emissões, desenvolvimento de fornecedores e risco fiscal. E os recursos seriam liberados por etapas. Sem licenças, contratos, capital privado ou metas no prazo, suspende-se automaticamente o próximo desembolso. Persistindo o descumprimento, o apoio é encerrado e os recursos, realocados.
Broadcast: Quanto o sucesso depende de acesso a mercados externos e certificação?
Awazu: Muito. Projetos grandes precisam de compradores e contratos longos. Barreiras ou certificações incompatíveis podem inviabilizar mesmo com custo competitivo. O Brasil deve negociar reconhecimento de certificações e rastreabilidade com União Europeia, Estados Unidos e Ásia e diversificar mercados.
Broadcast: Se pudesse escolher três mudanças regulatórias ou operacionais concretas para reduzir risco e acelerar projetos em 2026-2027, quais seriam?
Awazu: Primeiro, uma janela única de licenciamento e aprovação, com coordenação e prazos públicos, sem reduzir exigências ambientais. Em segundo lugar, organizar fila de conexão à rede elétrica, regras estáveis para transmissão e curtailment e calendário confiável de expansão. Terceiro, padronizar contratos, garantias, certificações e hedge cambial para acelerar análise e financiamento.
Broadcast: Que sinais mostrariam que a estratégia saiu do trilho? E qual seria a correção de rota mais imediata?
Awazu: Os principais sinais seriam baixa mobilização de capital privado, atrasos persistentes, aumento das garantias públicas, ausência de compradores, subsídios renovados repetidamente e resultados fracos em produtividade, exportações e empregos. Outro alerta seria a concentração dos benefícios em poucas empresas sem desenvolvimento de fornecedores. A reação deveria ser suspender novos compromissos, revisar independentemente a carteira e concentrar os recursos nos projetos mais preparados e competitivos. Se o investimento privado continuar sem responder, será necessário reduzir a escala do programa e reforçar a consolidação fiscal.
Broadcast: Como enxerga a crise recente no STF? Ela pode afetar investimentos?
Awazu: É grave porque segurança jurídica e credibilidade institucional afetam o risco-país e o custo do capital. Conflitos públicos e dúvidas sobre imparcialidade podem pesar se a crise se prolongar ou interferir em decisões econômicas e no processo eleitoral. Mas o risco é relativo: também aumentou a incerteza nos EUA com as políticas comerciais, fiscais e geopolíticas do governo Trump. Isso pode reduzir a distância entre o risco atribuído às economias avançadas e a países emergentes que demonstrem estabilidade institucional e boas oportunidades de investimento. Tenho confiança na democracia brasileira. Desde a Constituição de 1988, o País superou crises e preservou a ordem constitucional e a alternância de poder. A crise exige transparência, apuração imparcial, decisões colegiadas e regras claras. As instituições estão respondendo e o efeito sobre investimentos tende a ser limitado. Também é um momento que exige unidade nacional para resolver divergências dentro da Constituição e proteger a soberania diante de pressões externas. Unidade não significa ausência de divergências nem tolerância com erros institucionais. Significa resolver nossas diferenças dentro da Constituição, defender conjuntamente as instituições democráticas e não permitir que influências externas enfraqueçam a capacidade do país de decidir livremente seu próprio futuro.
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