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Da selfie aos leilões de transmissão

Saiba mais sobre a corrida para expandir a infraestrutura de energia necessária para atender demanda por data centers

11 de setembro de 2026

Por Ana Paula Machado

Cada busca na internet, cada foto armazenada na nuvem e cada filme assistido em uma plataforma de streaming envia um sinal. Esse sinal, somado a bilhões de outros, cria uma demanda crescente por data centers e, como consequência, por energia. Para alimentar essas fábricas de dados, o País iniciou uma corrida para expandir sua infraestrutura de energia. E entre as ferramentas para isso estão os leilões de transmissão.

Afinal, é a certeza do aumento do consumo de energia elétrica que faz os agentes do setor elétrico correrem contra o tempo para prover infraestrutura de rede ao sistema. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), até 2030, o crescimento da carga com data centers deve ser de 5,65 mil MWm, mas a tendência é que esse número seja ainda maior.

Diante disso, o governo já calcula que, para atender a essa demanda crescente, serão necessários cerca de R$ 120 bilhões em investimentos em transmissão até 2035, com aproximadamente 30 mil quilômetros de novas linhas e 82.000 megavolt-ampère (MVA) de capacidade adicional em subestações para suportar esse aumento da carga. As estimativas constam no Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035).

Com os dados em mãos, o governo definiu que seriam necessários pelo menos dois leilões de transmissão por ano até 2035. Em 2026, já foram concedidos 859 km de linhas de transmissão e 4.350 MVA em capacidade de transformação para subestações leiloadas, o que representou investimentos totais de R$ 5,1 bilhões. Em outubro, deverá ocorrer mais uma rodada, com estimativa de R$ 8,9 bilhões em aportes e 1.866 km de novas linhas e 13.144 MVA de capacidade de transformação, isso dividido em 9 lotes nos Estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rondônia e São Paulo.

Para a Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), esse segundo leilão de transmissão dá sequência ao ritmo de expansão do setor e ajuda a acompanhar três movimentos simultâneos: expansão da geração renovável, crescimento de novas cargas (incluindo data centers) e reforço da confiabilidade e resiliência do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Dentro desse pipeline, a Aneel abriu uma consulta pública para o primeiro leilão de 2027, que prevê investimentos de R$ 12,9 bilhões e a construção de aproximadamente 3.245 km de novas linhas de transmissão e 1.386 megavolt-ampère (MVA) de capacidade de transformação. Os empreendimentos serão divididos em 12 lotes, sendo que o lote 5 prevê a implantação do primeiro sistema de armazenamento de energia por baterias no sistema de transmissão. Essa contratação será destinada ao atendimento em Cruzeiro do Sul e Feijó, no Acre. Já o lote 11 prevê as instalações associadas à interligação elétrica Brasil-Bolívia. A inclusão definitiva depende dos “requisitos institucionais” relacionados ao acordo internacional, informou a Aneel.

O sócio da área de Energia do Martorelli Advogados, Matheus Soares, disse que os leilões de transmissão são um dos poucos processos que dão certo no País, pois a regra geral não é tumultuada e não há muita judicialização. “Não traz tantas controvérsias e essa segurança jurídica propicia para alavancar os investimentos”, disse Soares. “Por isso, não acredito que o certame de 2027 não deve fugir à regra, apesar do ineditismo de se acrescentar o sistema de armazenamento por bateria em um dos lotes.”

Segundo dados da Abrate, no radar de empreendimentos já outorgados pela Aneel que estão em construção ou recém-concedidos, o setor soma R$ 86,27 bilhões, 26,6 mil km de linhas e 173,63 mil empregos – concentrados sobretudo em corredores estruturantes do Norte e Nordeste, onde estão a geração renovável mais barata e boa parte dos novos grandes consumidores, como data centers.

“O Nordeste é um gargalo cada vez mais latente, principalmente com os anúncios de investimentos em data centers que demandam carga e precisamos de infraestrutura para isso”, disse Soares. “Por isso, os temas armazenamento e data center estão em voga e estão interligados com a infraestrutura de transmissão.”

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