A China evita se colocar como rival dos EUA em termos de guerra. Compete dentro da estrutura liberal internacional e capitalista
7 de agosto de 2026
Por Pedro Lima
O avanço dos conflitos na Europa e no Oriente Médio aproxima rivais e expõe alianças, mas ainda passa longe de uma guerra global unificada. Quem garante é Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP. Em entrevista à Broadcast Weekend, ele detalha como episódios recentes, como o ataque ucraniano a um navio iraniano no Mar Cáspio, servem como iscas geopolíticas. Mas ressalta que, apesar da instabilidade, as grandes potências calculam cada passo para não chegar ao ponto de não retorno.
Especialista em Oriente Médio e conflitos internacionais, Amaral avalia que a crescente presença econômica e diplomática da China na região tem ampliado sua inserção regional e reduzido a capacidade de influência dos Estados Unidos. “A China ampliou sua presença na região e fornece tecnologias mais baratas do que os Estados Unidos conseguem oferecer”. diz. “A posição geral desses países [do Oriente Médio] é buscar interromper os conflitos. A instabilidade é ruim para o progresso e o desenvolvimento da região”, completa. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: A aproximação entre os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio indica o surgimento de um único palco de conflito ou ainda são guerras distintas?
Amaral: Vimos recentemente o primeiro movimento de conexão entre o conflito na Europa e no Oriente Médio, quando Volodymyr Zelensky manifestou que impediria a troca comercial entre Rússia e Irã. Há um aspecto de escancaramento dos quadros de aliança e inimizade. Agora, não podemos falar que seja um conflito só. Não há manifestação iraniana de guerra contra a Ucrânia nem um apoio pleno à Rússia. Podemos estar caminhando para um processo desse tipo? Acredito que sim, mas acho improvável. As dimensões que importam para o Irã são a normalidade e a normalização. O Irã não procura a intensificação do conflito, mas o afastamento dos Estados Unidos do Oriente Médio. Declarar uma guerra contra a Ucrânia ou se envolver diretamente seria um tiro no próprio pé.
Broadcast: O ataque ucraniano ao navio iraniano no Mar Cáspio pode representar uma escalada?
Amaral: Para a Ucrânia, interessa muito mais se mostrar ativa nesse sentido porque ela depende, notoriamente, do apoio norte-americano para conseguir resistir à Rússia. Atacar o Irã e demonstrar que é aliada dos Estados Unidos é algo necessário e importante para a Ucrânia. Mas é como se fosse uma isca. Eu não acredito que o Irã atacaria ou retaliaria a Ucrânia de uma forma incisiva. Pelo contrário. Não interessa ao Irã expandir a guerra. A guerra iraniana é, de maneira geral, defensiva no que se refere aos ataques norte-americanos ao país e ofensiva apenas para tentar impedir a presença norte-americana no Oriente Médio.
Broadcast: Como o senhor interpreta a aproximação entre alguns países árabes e o Irã? Trata-se de uma mudança estrutural?
Amaral: O Irã é uma potência regional e participa da economia do Oriente Médio. Há países que têm uma rede de interdependência muito larga. O Iraque depende quase totalmente do Irã para manter de pé sua estrutura de energia elétrica. Não interessa ao Iraque um Irã enfraquecido. Mesmo a Arábia Saudita, historicamente próxima dos Estados Unidos, começou a se aproximar do Irã por meio de mediações estabelecidas pela China. Esse aspecto parece um detalhe, mas ajuda a entender por que Washington intensificou sua atuação no Oriente Médio. A China ampliou sua presença na região e fornece tecnologias mais baratas do que os Estados Unidos conseguem oferecer. Houve perda da capacidade de influência norte-americana e, por isso, a posição geral desses países é buscar interromper os conflitos. A instabilidade é ruim para o progresso e o desenvolvimento da região.
Broadcast: A China já se tornou o principal competidor geopolítico dos Estados Unidos?
Amaral: O que mudou muito de 2000 para cá é que, pela primeira vez desde que os Estados Unidos se tornaram hegemônicos, existe alguém que compete com eles na capacidade econômica internacional. A ascensão chinesa também exige uma revisão da política externa norte-americana. Nota que eu toco muito pouco no nome de Donald Trump. Quando falamos dos Estados Unidos, parece que tudo acontece por causa do Trump. Não é. Ele tem influência, claro, mas eu não considero tão diferente a política externa de Trump da de Joe Biden no que se refere à guerra e aos conflitos. Independentemente de quem é o presidente, o importante para os Estados Unidos é fazer valer o seu modelo e se colocar enquanto ator hegemônico no sistema internacional.
Broadcast: Faz sentido falar em uma nova divisão internacional entre blocos liderados por Estados Unidos e China?
Amaral: A China evita ao máximo se colocar como um país que rivaliza com os Estados Unidos em termos de guerra. Ela compete dentro da própria estrutura liberal internacional e capitalista. Os chineses competem dentro das regras do jogo. Não propõem uma mudança das regras, como propunha a União Soviética. No aspecto material, sem dúvida, parece que a China tem ganho espaço em várias regiões. No Oriente Médio, ela tem se tornado cada vez mais presente. A disputa não é um confronto entre China e Estados Unidos, mas uma competição. Eles olham pela ideia de que é uma empresa competindo com outra.
Broadcast: A cooperação entre China, Rússia e Irã mudou de patamar nos últimos anos?
Amaral: Sim, sem dúvida. A própria resistência iraniana às incursões norte-americanas e israelenses acontece porque há outras potências que podem subsidiar esse contexto. A Rússia consegue trabalhar de forma quase normal com outros países, como a China, os Brics e o próprio Brasil. Existe um contexto internacional que favorece isso. Se tudo isso estivesse acontecendo no início dos anos 1990, talvez não fosse possível. A ascensão chinesa faz dela um novo polo, e muitos países vão se agarrar a isso. Se não existissem esses países, os Estados Unidos talvez tivessem conseguido promover uma mudança de regime no Irã, como fizeram no Afeganistão e no Iraque.
Broadcast: O Irã saiu fortalecido desse conflito?
Amaral: Acredito que está sendo fortalecido, principalmente no eixo da legitimidade e da promoção de consenso. Antes do ataque norte-americano, o Irã vivia um período de protestos massivos. Quando os Estados Unidos atacam, há uma inversão da ótica social iraniana. O que toda a população iraniana compreendeu ao longo da história é que, quando o Irã dependeu de uma única potência internacional para se estruturar, era dominado. Quando resiste e consegue atacar bases americanas, demonstra força não só internamente, mas também regionalmente. Agora, no âmbito prático, o Irã tem sido muito agredido. Boa parte da capacidade de desenvolvimento econômico, energético e nuclear foi atacada. Isso atrasa o projeto nuclear do país e intensifica as dificuldades econômicas provocadas pelas sanções e pela guerra.
Broadcast: Qual é hoje o risco geopolítico mais subestimado?
Amaral: É justamente essa conexão entre conflitos distintos se intensificar. A política externa do segundo governo de Trump parece ser uma política de promoção da instabilidade. Quando você promove instabilidade, gera insegurança. Quando gera insegurança, faz com que os países tentem contar com quem é mais forte, e hoje os Estados Unidos ainda são o mais forte. O maior risco é alguém morder essa isca e ultrapassar uma linha. Se houvesse um ataque aos Estados Unidos em seu território ou o assassinato de uma grande liderança, aí veríamos algo muito mais grave. Mas acredito que Irã, Rússia e China calculam isso. Eles não devem morder a isca de uma guerra total ou de uma ação que ultrapasse uma linha de tolerância por parte da comunidade internacional.
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