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Na guerra da cerveja, o portfólio volta a fazer a diferença

A Ambev reage ao avanço da Heineken, recupera espaço no mercado e volta a ser vista pelos investidores como uma empresa com potencial de crescimento.

24 de julho de 2026

Por Julia Pestana e Gabriel Baldocchi 

São Paulo, 21/07/2026 – A disputa entre Ambev e Heineken no mercado de cervejas no Brasil está mudando de equilíbrio. Depois de anos vendo a rival avançar no mercado premium e ganhar poder para ditar preços, a Ambev voltou a recuperar participação e encontrou no próprio portfólio uma das armas para reagir.

Por anos, foi a Heineken quem ditou o ritmo do mercado. A companhia avançou sobre o segmento premium, ganhou espaço entre os consumidores e ajudou a elevar o patamar de preços da categoria. A Ambev tentou revidar várias vezes, buscou recuperar a marca Skol, apostou em premiunização, tentou recuperar poder de precificação, mas nenhuma delas foi suficiente para convencer o mercado de que a empresa estava, de fato, retomando o terreno perdido.

A resposta começou a aparecer quando a Ambev deixou de concentrar a disputa em poucas marcas e passou a atacar diferentes ocasiões de consumo. A companhia reforçou nomes como Corona e Stella Artois, recuperou espaço em faixas intermediárias e acelerou a aposta em categorias que ganharam relevância entre os consumidores, como cervejas sem álcool, sem glúten e de menor teor calórico.

“Pela primeira vez em mais de uma década, a Ambev dá sinais de retomada de participação de receita no mercado de cerveja no Brasil. Já a Heineken, após uma notável trajetória de 15 anos, mostra sinais de maturidade de ciclo”, afirma o analista do BTG Pactual, Thiago Duarte.

Bolo do mercado

A fotografia de uma década atrás ajuda a dimensionar o tamanho da mudança. Antes da compra da Brasil Kirin, concluída em 2017, a Heineken tinha cerca de 10% do mercado brasileiro, enquanto a Ambev liderava com pouco mais de 60%, segundo dados da Nielsen divulgados à época.

A aquisição mudou o equilíbrio da disputa. A Heineken incorporou marcas como Schin, Devassa, Baden Baden e Eisenbahn e ampliou sua rede de distribuição no País. Nos anos seguintes, a companhia holandesa se aproximou de 25% de participação, enquanto a Ambev passou a operar na faixa de 58% a 59%.

Agora, os números começam a apontar para uma nova direção. A Ambev chegou a 59,8% do mercado brasileiro de cerveja em valor e a 59% em volume em abril, altas de 126 e 145 pontos-base, respectivamente, na comparação anual, segundo dados da NielsenIQ compilados pelo Citi. Entre as marcas de maior escala, como Brahma e Skol, a companhia avançou 20 pontos-base, enquanto a Heineken recuou 55 pontos-base.

A reação foi ainda mais forte no premium, justamente o segmento que sustentou a expansão da rival nos últimos anos. A Ambev alcançou 41,8% de participação, alta de 316 pontos-base, impulsionada por Corona, Stella Artois e Budweiser. A Heineken, por sua vez, perdeu 121 pontos-base.

A melhora também chegou à Bolsa. Depois de os resultados do primeiro trimestre reforçarem a recuperação operacional, a Ambev chegou a adicionar cerca de R$ 40 bilhões em valor de mercado na B3 e teve sua recomendação elevada para compra pelo BTG Pactual — pela primeira vez em 13 anos.

 Portifólio e precificação

O avanço da Heineken nos últimos 15 anos foi sustentado pelo premium, segmento que ajudou a companhia a crescer e a ganhar poder de preço. Para o BTG, porém, essa estratégia começa a mostrar sinais de maturidade justamente quando o mercado passa a exigir algo além de uma marca forte. É nesse espaço que a Ambev tenta construir sua reação.

“O portfólio da Ambev é a vantagem competitiva que a concorrência não possui”, disse Duarte. A companhia vem ampliando a oferta para alcançar públicos e ocasiões de consumo diferentes, com lançamentos como a Flying Fish, cerveja com sabor de limão, e a Michelob Ultra, de baixa caloria.

A disputa, no entanto, não se resume a volume. Segundo o Bank of America (BofA), os preços da cerveja ficaram estáveis no primeiro trimestre deste ano, mas com movimentos distintos entre as marcas. A Stella Artois liderou os reajustes no premium, com alta de 7% no trimestre, enquanto a Heineken devolveu parte dos aumentos anteriores, com queda de 3,8%.

“Com isso, o desconto da Heineken em relação à Corona voltou a se ampliar para 19%”, disse a analista Isabella Simonato, do BofA.

A reconstrução do portfólio ajudou a Ambev a recuperar algo que havia perdido nos últimos anos: protagonismo na definição de preços. O BTG estima que a companhia tenha conquistado entre 200 e 300 pontos-base de participação de mercado no último ano.

A capacidade de precificação sempre esteve no centro da geração de valor da Ambev, segundo o BTG. Entre 2005 e 2015, período classificado pelo banco como a “era de ouro”, os preços reais da cerveja subiram 1,5 ponto porcentual ao ano. Depois vieram cinco anos de preços reais negativos, a chamada “década perdida”.

Agora, com o portfólio renovado e a Heineken se aproximando dos limites de uma estratégia concentrada em uma grande marca premium, o BTG projeta uma retomada de 1,4 ponto porcentual ao ano na precificação real da Ambev.

“A Ambev tinha uma história mais sem graça. Era uma empresa líder, muito estável, mas sem grandes gatilhos de crescimento”, resume a analista do Citi, Renata Cabral. Depois de anos em que a tese de investimento se apoiava na estabilidade e na distribuição de dividendos, o mercado voltou a discutir a capacidade da companhia de recuperar participação e, com ela, acelerar o crescimento.

Heineken corre atrás

Para a Heineken, o avanço recente da Ambev faz parte dos movimentos naturais de um mercado maduro e, portanto, não representa uma mudança estrutural na disputa.

“Entendemos como algo cíclico, normal de mercado. Não vejo isso como um movimento transformacional”, diz Rafael Rizzi, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Heineken no Brasil.

Por outro lado, a resposta da Heineken também passa pela ampliação do portfólio para acompanhar as mudanças no consumo. Nos últimos anos, a companhia lançou produtos como Sol Zero e Amstel Ultra, além de versões sem álcool e sem glúten. Mais recentemente, em maio, apresentou a Heineken Ultimate, com 30% menos calorias.

“O mercado de cerveja é resiliente e grande. É uma questão de mudança de consumidor e a gente tem que entregar aquilo que ele quer”, disse Rizzi. Segundo ele, a Ultimate representa, justamente, uma nova fase dessa estratégia. “É o nosso maior lançamento, tanto em termos de investimento quanto de aposta.”

Além disso, a disputa ocorre em um momento de mudança no comando global da companhia. Pela primeira vez, a Heineken terá um brasileiro no cargo de CEO global: Rafael Oliveira assumirá o posto no lugar de Dolf van den Brink. Ao mesmo tempo, o Brasil é um dos maiores mercados da cervejaria no mundo e se tornou uma referência pelo avanço conquistado pela Heineken diante da concorrente nacional.

Ainda assim, apesar da melhora recente da Ambev, a principal pergunta é se a reação veio para ficar. De um lado, o BTG Pactual estima que a companhia ainda possa ganhar entre 200 e 300 pontos-base de participação de mercado no segundo trimestre. Por outro lado, o Itaú BBA avalia que ainda falta clareza para saber se o avanço representa uma mudança estrutural na competição ou apenas mais um ciclo da guerra da cerveja.

Nesse cenário, a sustentabilidade da recuperação passa a ser o principal ponto de atenção para os investidores. “A grande pergunta do mercado não é se 2026 será melhor do que 2025, mas se a companhia conseguirá sustentar esse movimento em 2027, quando a base de comparação deixar de ajudar”, afirma Cabral, do Citi.

Por fim, para o segundo trimestre, analistas esperam alta de 7,9% no lucro da companhia, para R$ 3 bilhões, segundo a média das estimativas de cinco instituições consultadas pelo Prévias Broadcast.

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