Além da presidência, as mulheres ocupam, pela primeira vez, quatro diretorias executivas da Petrobras, incluindo duas das áreas mais estratégicas da companhia.
31 de julho de 2026
Por Denise Luna
As mulheres ainda representam menos de 20% do quadro de funcionários da Petrobras. No topo da companhia, porém, nunca tiveram tanto espaço. Pela primeira vez, quatro diretoras executivas, sob a liderança da presidente Magda Chambriard, participam das decisões sobre os investimentos bilionários da maior empresa da América do Sul. A composição paritária da diretoria (quatro mulheres e quatro homens) é inédita na história da estatal e se tornou uma das marcas da atual gestão.
A mudança vai além da composição da diretoria. Duas das áreas mais estratégicas da estatal estão hoje sob comando feminino: Sylvia Anjos lidera Exploração e Produção, responsável pelo maior orçamento da companhia, enquanto Renata Baruzzi comanda Engenharia, Tecnologia e Inovação, área que concentra os principais projetos da Petrobras.
Ao lado de Angélica Laureano, diretora executiva de Logística, Comercialização e Mercado, e de Clarice Coppetti, diretora de Assuntos Corporativos, elas ajudam a definir os rumos da companhia.
O retrato atual contrasta com o início da carreira das cinco executivas. Quando ingressaram na Petrobras, engenharia, plataformas de petróleo e salas de decisão eram ambientes quase exclusivamente masculinos. À Broadcast Weekend, Magda Chambriard, Sylvia Anjos, Renata Baruzzi, Angélica Laureano e Clarice Coppetti reconstroem trajetórias marcadas por desafios semelhantes: conquistar credibilidade técnica, enfrentar preconceitos muitas vezes silenciosos e abrir espaço para que outras mulheres não precisem percorrer o mesmo caminho.
A trajetória até o comando
O primeiro obstáculo de Magda surgiu antes mesmo da Petrobras. O pai não queria que a filha cursasse Engenharia, mas ela insistiu. Em 1980, aos 22 anos, entrou na estatal quando mulheres ainda não eram aceitas em cursos internos voltados à engenharia de petróleo.
“Mulheres não podiam nem ver obras em plataformas, eu só podia ver obras em terra, e mesmo assim tinha que voltar para a cidade. Achavam que ia dar confusão”, diz. Mais tarde, já casada e com filhos, viu nomeações escaparem sob justificativas relacionadas à maternidade.
A presidente diz que a virada aconteceu ao trabalhar com o colega Newton Monteiro, que a ajudou a compreender como navegar em um ambiente onde era minoria.
“Eu acho que a proximidade do Newton mudou a minha carreira, porque ele, um preto brilhante, dizia o seguinte: quando você é minoria, você tem que trabalhar nas falhas do sistema”, relembra. A parceria a levaria anos depois à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), onde se tornou a primeira mulher a ocupar a direção-geral da agência.
“A Dilma me chamou em Brasília e disse: amanhã é o Dia Internacional da Mulher, eu vou te nomear por decreto diretora-geral”, conta, ao lembrar que foi a primeira mulher a comandar o órgão. “O mercado estranhou um pouco. O mercado estranha o fato de ter uma diretora mulher. Eu não posso dizer que eles não estranharam a forma de eu lidar. Eu tenho uma personalidade que eu falo baixo, eu falo manso”, diz. Ao lembrar das manchetes da época, ri das referências à chegada de “uma mão forte na ANP”.
Segundo ela, a diferença de estilo voltou a chamar atenção quando assumiu a presidência da Petrobras.
“A primeira coisa que apareceu quando eu vim para cá é que as pessoas me espelhavam na presidente anterior, que era a Graça (Foster/2012-2015), e o meu temperamento é completamente diferente do da Graça”, diz.
Os desafios em um ambiente masculino
A trajetória de Sylvia Anjos começou ainda antes. Contratada em 1978, ela também encontrou uma empresa sem referências femininas na área técnica. Primeira mulher a embarcar em uma plataforma de petróleo da Petrobras, lembra que frequentemente era a única mulher nas reuniões e que, muitas vezes, precisou reafirmar sua capacidade. A estratégia foi concentrar esforços naquilo que dependia dela: estudo, preparo técnico e entrega de resultados.
A necessidade de demonstrar competência aparece, com nuances diferentes, nos relatos das demais diretoras.
Renata Baruzzi conta que nem sempre precisou provar mais do que os homens, mas aprendeu cedo a estabelecer limites. Um episódio resume esse aprendizado. Durante uma reunião em que era a única gerente-geral mulher, ouviu de um participante: “Aqui, minha senhora, a gente está na engenharia.”
A resposta veio imediatamente: “É mesmo, meu senhor? Eu pensei que aqui a gente estivesse na Petrobras.”
Ela diz ter aprendido a enfrentar confrontos “com firmeza, mas sem perder a elegância”. Segundo ela, ainda há tentativas de desqualificar trajetórias femininas com justificativas que não sejam competência e cita o caso de quando foi promovida a gerente-geral.
“Chegaram a inventar que eu tinha sido promovida por ser ligada ao presidente Lula”. Com uma mulher no comando da companhia, pondera, esse tipo de narrativa perde força e ajuda a reduzir preconceitos.
Angélica Laureano prefere olhar para experiências semelhantes sob outra perspectiva. Primeira mulher inspetora de equipamentos da Petrobras, trabalhou em uma época em que plataformas nem sempre tinham estrutura para receber mulheres. Ainda assim, embarcava quando necessário e voltava ao continente guiada por uma convicção que, segundo ela, continua norteando sua carreira: buscar “soluções, e não justificativas”.
Ela afirma não ter enfrentado discriminação explícita, mas reconhece que suas opiniões eram mais questionadas do que as de colegas homens. “Alguns segmentos ainda seguem predominantemente masculinos”, observa, embora veja uma evolução “clara e consistente” da empresa.
O impacto da diversidade na gestão
Apesar das trajetórias distintas, as cinco executivas convergem ao avaliar que a presença feminina na alta administração produz mudanças que vão além da representatividade.
Magda afirma que, ao formar sua equipe, procurou alinhamento de propósito, não de gênero. O resultado foi uma diretoria paritária que ela considera parte do legado de sua gestão.
Para Sylvia, esse equilíbrio melhora a qualidade das decisões. A diversidade, afirma, amplia repertórios, fortalece a escuta e qualifica os debates estratégicos.
Renata identifica outro efeito. Segundo ela, a presença de Magda na presidência tornou o ambiente “mais acolhedor e confortável” para que mulheres se posicionem, reduzindo narrativas que procuram desqualificar promoções por motivos alheios à competência.
Angélica faz uma ponderação. Na sua avaliação, o avanço dependerá menos da composição da diretoria e mais da capacidade da empresa de ampliar a presença feminina nas áreas técnicas e remover “barreiras invisíveis” ligadas à oportunidade e à confiança. Ela conta que conversa frequentemente com profissionais altamente capacitadas que ainda hesitam em ocupar espaços de maior exposição e defende garantir às mulheres “direito à voz, ao protagonismo e aos espaços de decisão”.
O legado e os próximos passos
É justamente esse efeito multiplicador que mais chama a atenção de Clarice Coppetti.
Ela conta que, recentemente, durante um voo, foi abordada por uma jovem petroleira. A funcionária pediu um abraço e fez um agradecimento que a diretora diz nunca ter esquecido.
“Vocês não têm noção do tamanho do impacto e do acolhimento que nós mulheres temos pelo trabalho que estão realizando. Não desistam.”
Para Clarice, a presença de uma mulher na presidência e de mais mulheres na diretoria “muda todos os olhares e vieses da Petrobras” e produz efeitos que ultrapassam a alta administração.
Ela lembra que participa de diretorias desde 1999 e diz que esta é a primeira vez que deixa de ser a única mulher na sala. Também recorda que, quando chegou à diretoria, denúncias públicas de assédio sexual não recebiam apuração adequada e o combate ao assédio ainda não se sustentava como política empresarial. Embora reconheça avanços, defende que as conquistas em diversidade, equidade e inclusão sejam institucionalizadas para resistirem às mudanças de gestão.
No fim, as cinco executivas projetam um futuro em que a presença feminina na liderança deixe de ser um fato extraordinário. Magda fala em legado. Sylvia aposta na força do exemplo para as próximas gerações. Renata acredita que mais representatividade ajudará a atrair mulheres para a engenharia.
Angélica espera que, em dez anos, uma mulher no comando da Petrobras já não seja notícia. Clarice resume o desafio em uma frase curta: “É preciso avançar, sempre!”
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