A China domina boa parte dessas cadeias de minerais críticos, a tecnologia, mas não fez isso de um ano para o outro. Está investindo há anos
18 de setembro de 2026
Por Juliana Garçon
O mapa dos minerais críticos virou um jogo de alianças e o Brasil passou a receber mais visitas. Em entrevista à Broadcast Weekend, o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, descreve uma grande corrida para diversificar a origem desses insumos, puxada pela transição energética, agenda digital e mobilidade.
Ele cita EUA, União Europeia e Austrália em busca de parceiros e lembra que a China domina boa parte dessas cadeias porque está investindo há anos.
Para o Brasil, diz, o desafio é fazer parcerias em que a matéria-prima não saia do País sem deixar parte do valor aqui. “O foco é gerar emprego, renda, agregar valor ao Brasil.”
Nesse contexto, Gordon minimiza o impacto da exigência de homologação prevista na Política Nacional de Minerais Críticos, sancionada na quarta-feira, 16, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e criticada por agentes do mercado. “É um mecanismo legítimo do governo”, afirma. Ele sustenta que a regra não deve travar investimentos nem consolidação. “Não afeta as estratégias do banco em relação a alocações, seja crédito, seja M&A”, diz.
No BNDES, a agenda já está na bancada de projetos. Gordon conta que o edital com a Finep selecionou 56 propostas e que “10 a 12 estão mais maduras”, em áreas como terras raras, níquel e lítio. O gargalo, resume, é duplo: garantias e contratos de compra. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: Como o sr. vê o cenário global para minerais críticos?
José Luis Gordon: Temos visto uma grande corrida para diversificar a origem. O mundo busca caminhos para minerais críticos por causa da agenda energética, digital, aeroespacial e de mobilidade urbana. Falamos muito nos EUA, que estão atrás de novos parceiros. A União Europeia (UE) também está com essa agenda fortemente no Brasil. A Austrália também tem buscado parcerias. E tem a busca dos países pela construção dessa agenda e construção da cadeia de minerais críticos. A China domina boa parte dessas cadeias, a tecnologia. Não fez isso de um ano para o outro. Está investindo há anos, apoiando fortemente.
Broadcast: Como têm sido as relações dos países nesse xadrez?
Gordon: Os EUA fizeram uma política forte, colocando bilhões nessa agenda. A UE está buscando construir instrumentos financeiros para atrair esse tipo de recurso. O Brasil tem boa parte desses minerais críticos, principalmente terras raras. Temos visto os países interagirem com o Brasil para buscar esses minerais. Alguns só querem comprar e levar o mineral, outros querem agregar valor aqui. Esse é o desafio: construir parcerias multilaterais, desde que parte da agregação [de valor] seja feita aqui no Brasil.
Broadcast: Como estão os desenvolvimentos do edital com a Finep (chamada pública para planos de negócio para investimentos na transformação de minerais estratégicos)?
Gordon: Selecionamos 56 projetos, dos quais 10 a 12 estão mais maduros. Estamos dialogando com as empresas para buscar soluções financeiras. Não são simples. Cada um dos minerais e cada uma das empresas está em estágio diferente. Algumas têm offtake [contrato de fornecimento], outras não.
Broadcast: Esses projetos são de quais segmentos?
Gordon: Terras raras, níquel e lítio. São, na grande maioria, junior companies, pré-operacionais, que precisam ter garantias de compra para sobreviver. E temos de saber como administrar a questão de que uma parte da demanda fica no Brasil, mas uma parte vai ter que ser exportada. Estamos discutindo com as empresas desde crédito, project finance [estrutura que pode envolver ativos e produção da empresa] e condições para garantia até recursos do programa Brasil Soberano, com taxa de 3% ao ano. Em outros casos, estamos discutindo equity. O governo federal tem buscado criar soluções financeiras.
Broadcast: E do ponto de vista da demanda?
Gordon: Estamos criando instrumentos de demanda, com, por exemplo, um leilão de baterias, de BESS [Battery Energy Storage System, ou Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias], que vai sair no final do ano, com a obrigação de conteúdo local. Isso fará com que comece a se estruturar uma cadeia de BESS no Brasil.
Broadcast: As linhas de financiamento e garantia previstas na Política Nacional de Minerais Críticos atendem à necessidade do setor?
Gordon: A garantia é uma coisa muito importante, principalmente porque são junior companies, empresas pré-operacionais, e muitas vezes têm dificuldade de obter garantias. É um tamanho bem razoável.
Broadcast: Como funciona o project finance?
Gordon: Nunca foi feito no setor de mineração. O BNDES está trabalhando para criar esse modelo, usando como garantia os recebíveis da venda do mineral. A empresa tem esse contrato de offtake, que assegura a venda da produção, e poderá ser usado como garantia para pegar crédito no BNDES. Já estamos conversando com algumas empresas.
Broadcast: A Política Nacional de Minerais Críticos traz exigências de homologação de operações por empresas de minerais críticos. Como o sr. vê?
Gordon: É um mecanismo legítimo do governo, de querer acompanhar o processo de agregação de valor no Brasil e contribuir para a gente gerar emprego e renda no Brasil com qualidade. Acho bem importante.
Broadcast: A exigência afeta eventuais movimentos do BNDES?
Gordon: Não afeta as estratégias do banco em relação a alocações, seja crédito, seja M&A. O banco vai estar em parceria com as decisões do governo.
Broadcast: Pode esfriar o ímpeto de consolidação do mercado, inibindo movimentos como a compra da Serra Verde pela americana USA Rare Earth (USAR), que poderia ter de passar por homologação?
Gordon: Eu acho que não. Tudo que é novo as pessoas querem entender como funciona. Mas vai ter um conselho, vai poder analisar essas agendas. O Brasil tem minerais, capacidade técnica, energia renovável. Não vejo um problema.
Broadcast: Como o sr. viu a operação?
Gordon: Tudo o que temos de buscar é agregar valor aqui no Brasil. Isso é o mais importante. A Serra Verde tem um outro foco, não é o foco que a gente, no governo, tem tentado colocar, de subir na cadeia, fortalecer a cadeia aqui no Brasil.
Broadcast: Pode falar sobre a estratégia de equity do banco?
Gordon: Dentre as empresas que se submeteram ao edital, algumas delas tinham interesse em equity. A equipe do setor está analisando para entrar em algumas, onde for cabível.
Broadcast: A maior parte das empresas de terras raras fala em realizar a etapa inicial do processamento, mas não na etapa final, de separação dos elementos...
Gordon: É preciso começar a trabalhar com a primeira fase do beneficiamento para então avançar. Algumas empresas têm discutido a parte de maior valor agregado, de separação e talvez chegar ao refino do óxido. Mas é primeiro começar o estágio inicial, extrair, fazer o primeiro beneficiamento. Tem que ser passo a passo.
Broadcast: No chamamento com a Finep e outras linhas, quais as características da demanda?
Gordon: Os principais três segmentos são terras raras, níquel e lítio. Têm uma capacidade mais robusta. Alguns estão olhando para óxidos separados e intermediários químicos de níquel.
Broadcast: O que ainda é gargalo?
Gordon: Tem dois. Do ponto de vista financeiro, as dificuldades de garantia. Do ponto de vista de mercado, a questão do offtake. No Brasil ainda tem que se criar essa agenda do offtake. A maioria está fora do país.
Broadcast: Qual deveria ser o papel de grandes empresas como Petrobras e Vale no desenvolvimento das cadeias?
Gordon: São empresas fundamentais para a economia brasileira, estratégicas. A Vale tem um papel muito importante, mais no upstream [etapas iniciais de uma cadeia produtiva]. A Petrobras, mais no downstream [etapas mais avançadas], mais como demandante.
Broadcast: Como vai o FIP Minerais Estratégicos, lançado junto com a Vale?
Gordon: Agora começarão as primeiras fases de investimentos, mas ainda não temos números para divulgar.
Broadcast: Uma eventual mudança de governo pode afetar as estratégias do BNDES?
Gordon: É uma questão política, não posso falar sobre isso. O que existe são instrumentos atuais: o Fundo Clima, que tinha R$ 300, R$ 400 milhões, e agora são R$ 27 bilhões; o Brasil Soberano. Fazia mais de 15 anos que não havia investimento do BNDES para nenhuma empresa, foi uma retomada da atual gestão.
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