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A IA vai comprar por você. Mas dá para confiar?

Agentes autônomos começam a fazer compras e pagamentos pelas pessoas, mas fraudes e segurança ainda são desafios. Pix pode dar vantagem ao Brasil.

16 de outubro de 2026, às 15:00

Crédito: Envato

Por Jean Mendes

Comprar leite, pagar a conta de luz, renovar um seguro. E se você pudesse delegar essas tarefas a um agente de inteligência artificial (IA), sem precisar abrir um aplicativo? A tecnologia começa a ganhar espaço nos Estados Unidos e no Canadá, em um movimento que deve chegar com força ao Brasil. Segundo a Chainalysis, os agentes já realizaram mais de 138 milhões de transações na base analisada, embora os valores movimentados ainda sejam baixos.

Nos 16 meses até setembro de 2026, mais de 87% dos pagamentos feitos pelo sistema ficaram entre US$ 0,01 e US$ 0,10. Mais do que o dinheiro movimentado, o que chama a atenção é a possibilidade de mudar a relação dos consumidores com tarefas cotidianas.

Para Guilherme Assis, cofundador e CEO do Gorila, a adoção deve começar pela parte chata do consumo: tarefas repetitivas, como comprar leite e pagar contas de luz, seguros e tarifas bancárias. “Para um tênis ou um vinho, as pessoas gostam de escolher. Para leite e conta de luz, não conheço ninguém que vá sentir saudade”, afirma.

A tecnologia já começa a chegar aos meios de pagamento, mas a segurança ainda é um desafio. No mês passado, a Meta, dona do Facebook e do Instagram, lançou nos Estados Unidos o Muse, seu primeiro agente pessoal de IA autônomo para executar tarefas complexas na internet. A ferramenta opera em uma máquina virtual segura na nuvem e pode planejar viagens, preencher formulários e fazer compras em sites de terceiros. Por enquanto, porém, transações financeiras e envio de mensagens ainda dependem de autorização humana. O serviço não está disponível no Brasil.

À Broadcast Weekend, a fintech de pagamentos em criptomoedas Oobit informou que passou a ser uma opção de pagamento no Muse. A cada compra autorizada, a empresa gera um cartão virtual de uso único, com limite definido pelo usuário. O saldo em stablecoins permanece inacessível ao assistente, uma barreira para reduzir o risco de uso indevido de dados vazados ou de gastos acima do autorizado.

“A IA já consegue entender o que você quer e descobrir como conseguir. A peça que faltava era a capacidade de pagar”, afirma Eduardo Prota, gerente-geral no Brasil e chefe da América Latina da Oobit. “Isso não deveria depender de onde você mora nem de qual cartão bancário você tem. Seja o seu dinheiro USDT, Pix ou dinheiro móvel, ele deve funcionar com a IA.”

A segurança ainda é um obstáculo. Agentes de IA que reúnem credenciais e autonomia para gastar dinheiro podem se tornar alvos valiosos para criminosos, alerta Guilherme Neves, professor de cibersegurança do Ibmec-RJ. Entre as ameaças estão comandos maliciosos escondidos em páginas de produtos, e-mails e avaliações falsas, além de falhas na interpretação do que o usuário deseja e brechas em ferramentas de terceiros.

Há também um problema de origem: os sistemas de pagamento foram criados para pessoas, não para máquinas que compram em seu nome. Por isso, nem sempre conseguem verificar se o agente é legítimo e está autorizado a fazer uma transação. Neves recomenda uma precaução básica: não deixar que o agente armazene os dados do cartão.

E se eu for vítima de fraude?

No Brasil, a responsabilidade por fraudes é distribuída entre os envolvidos, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor e as circunstâncias de cada caso. Os bancos podem ter de ressarcir o cliente por fraudes consideradas pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) como “fortuito interno”, ou seja, ligadas aos riscos da própria atividade bancária. Já a empresa que fornece o agente de IA pode responder por falhas no sistema, enquanto a loja é responsável por problemas no produto vendido. O consumidor, por sua vez, não pode ser considerado culpado automaticamente por uma fraude.

Uma decisão recente do STJ, porém, indica que o banco não é necessariamente responsável quando a transação fraudulenta é compatível com o perfil de gastos do cliente. Para Guilherme Neves, professor de cibersegurança do Ibmec-RJ, o desafio é adaptar as regras e os contratos às compras feitas por agentes de IA. Isso passa por esclarecer como funciona a contestação de uma compra — quando o cliente pede ao banco o estorno de um valor — e definir quem deve arcar com o prejuízo em caso de fraude: o banco, a empresa que desenvolveu o agente, a loja ou o próprio consumidor

Como fica o Pix nessa nova infraestrutura?

Caio Motta, arquiteto sênior de soluções da Chainalysis para América Latina e Caribe, vê no Brasil uma oportunidade de integrar o Pix aos agentes de IA por meio de uma infraestrutura de blockchain. “Temos uma oportunidade de conectar a infraestrutura financeira existente no Brasil a uma nova categoria de atividade econômica que é conduzida pela inteligência artificial”, afirma.

O próximo passo, segundo Motta, é transformar essa combinação em soluções de pagamento confiáveis, seguras e economicamente viáveis. Para isso, desenvolvedores e instituições financeiras precisam encontrar formas de viabilizar transações feitas por agentes autônomos.

Para Assis, do Gorila, o Pix coloca o País em posição vantajosa nessa corrida. “Para mexer no seu dinheiro, um agente precisa ler e executar uma ordem. Nos Estados Unidos, as duas coisas dependem de cartão e de contratos inteligentes (programas executados em uma blockchain que realizam automaticamente determinadas ações quando as condições previstas no código são atendidas). Aqui, as duas existem por regulação: o Open Finance e o Pix, que já passou o cartão de crédito no comércio eletrônico”, diz.

“Enquanto o mundo discute stablecoin para uma máquina pagar a outra, o Brasil tem um trilho público e instantâneo que liga qualquer conta a qualquer conta. O Pix Automático é o embrião do que o agente precisa: uma autorização prévia, com limite. E já tem gente construindo em cima”, afirma Assis.

Brasileiros estão mais dispostos a gastar com agentes de IA

Os brasileiros estão entre os consumidores mais dispostos a deixar a inteligência artificial fazer compras e pagamentos em seu nome. É o que mostra o Agentic Commerce Consumer Study, pesquisa da Visa com 4 mil pessoas no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido e em Singapura. No Brasil, 76% dos entrevistados dizem que pretendem usar agentes de IA para comprar, ante 44% dos americanos.

A confiança também é maior por aqui: 67% dos brasileiros afirmam sentir-se muito ou extremamente confiantes em permitir que a IA faça compras em seu nome. Além disso, 57% dizem manter a sensação de controle sobre a experiência, contra 35% nos Estados Unidos e 34% em Singapura.

A Mastercard também vê sinais de que esse mercado começa a ganhar forma. Em seu relatório A Short History of the Future of Shopping and Payments, a empresa prevê que mais de um em cada dez consumidores online deverá usar agentes de IA regularmente para fazer compras até 2030. O comércio agêntico, em que sistemas de inteligência artificial executam tarefas de compra em nome das pessoas, começa a deixar o terreno das projeções.

A companhia já testou esse modelo na prática. Por meio do Mastercard Agent Pay, emissores e processadores locais, entre eles Itaú, Santander e Dock, realizaram transações reais em sua rede. As compras, de produtos de beleza e itens de supermercado, foram iniciadas e concluídas por agentes de IA, sempre com consentimento e autorização prévia dos titulares dos cartões.

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