Em cenário de juros altos, setor busca eficiência eliminando R$ 130 milhões em exames e procedimentos desnecessários, mas desafio é qualidade do atendimento
2 de outubro de 2026, às 15:02
Willian Miron
Quando o assunto é gestão financeira, o corte precisa ser cirúrgico. Afinal, como diz a famosa máxima do mundo dos negócios atribuída ao empresário Beto Sicupira: custo é igual unha, tem que cortar sempre. O grande desafio surge quando esse corte acontece em um setor onde cada detalhe impacta vidas. Em um cenário de juros persistentemente altos e margens operacionais apertadas, a saúde suplementar brasileira enfrenta o desafio de descobrir como eliminar os excessos invisíveis. E, principalmente, sem comprometer a qualidade do atendimento ao paciente.
O cenário de juros elevados, que se mantém há 56 meses consecutivos, representa um desafio à saúde suplementar brasileira, um segmento altamente dependente das condições econômicas e da saúde financeira dos contratantes. Cerca de dois terços do mercado são formados por empresas que oferecem planos de saúde como benefício aos funcionários, o que torna as operadoras sensíveis à capacidade de pagamento das companhias e ao ritmo de crescimento da economia.
Diante desse cenário, as operadoras têm trabalhado para controlar custos e preservar a rentabilidade, mas a margem para novas medidas de contenção começa a diminuir. Alternativas como o aumento da coparticipação, a oferta de planos com acomodação em enfermaria, a regionalização das coberturas e a redução da proporção de dependentes já foram amplamente utilizadas pelo setor. Ao mesmo tempo, o avanço das recuperações judiciais de grandes empresas, o crédito mais restrito e o custo elevado do dinheiro aumentam as incertezas sobre a expansão da carteira de beneficiários.
Os resultados financeiros do primeiro semestre de 2026 já apontam sinais de perda de fôlego na recuperação do setor. As operadoras de planos de saúde registraram lucro líquido de R$ 12,1 bilhões, ante R$ 12,9 bilhões em igual período do ano passado, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A margem operacional recuou de 3,9% para 3,2%, enquanto o resultado operacional caiu 10,4%. Em sentido contrário, o resultado financeiro avançou 10,3%, evidenciando a contribuição das aplicações financeiras para o desempenho das empresas em um ambiente de juros elevados.
Pressão Alta
A dependência dos ganhos financeiros, contudo, é um ponto de atenção para a sustentabilidade do negócio. Entre 2010 e 2025, a margem líquida média do setor foi de 3,5%, enquanto a margem operacional, desconsiderados os resultados financeiros, ficou em apenas 0,6%, segundo estudo da LCA Consultoria citado pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde). A pressão sobre os custos assistenciais também permanece, com a variação dos custos médico-hospitalares acima da inflação, enquanto os reajustes dos contratos coletivos, próximos de 14%, pesam sobre os orçamentos das empresas contratantes.
Nesse contexto, a busca por eficiência ganha importância e começa a avançar para além das medidas tradicionais de contenção de despesas. Um estudo brasileiro publicado na revista International Journal for Quality in Health Care, da Oxford Academic, estima que os planos de saúde desperdiçaram pelo menos R$ 130 milhões em 2025 com consultas e exames pré-operatórios de baixo valor, que não produziram benefícios clínicos mensuráveis em cirurgias de baixo risco. O cálculo considera 678,9 mil procedimentos realizados no ano passado e indica que cerca de metade dos R$ 260 milhões gastos com esses cuidados poderia ser evitada.
A pesquisa, elaborada por médicos e pesquisadores brasileiros e portugueses, avaliou 27.678 cirurgias realizadas entre 2018 e 2023. Na amostra, os pacientes submetidos a exames pré-operatórios não apresentaram resultados clínicos melhores do que aqueles que não fizeram os procedimentos. A proporção de idas ao pronto-socorro em até 30 dias foi de 5,7% entre os pacientes examinados e de 5,2% entre os demais. As reinternações ficaram em 0,9% nos dois grupos, e não houve mortes. Os resultados reforçam o potencial de revisão de protocolos e de redução de procedimentos sem benefício comprovado, sem que isso represente uma diminuição da assistência necessária.
Além do impacto financeiro, a eliminação de cuidados de baixo valor pode contribuir para ampliar a capacidade de atendimento e reduzir a exposição dos pacientes a procedimentos desnecessários. Segundo Ana Paula Beck da Silva Etges, cofundadora da PEV Health e uma das autoras do estudo, o desperdício prejudica toda a cadeia: o paciente perde tempo e pode ser submetido a exames sem benefício, os prestadores deixam de utilizar sua capacidade para atender outras pessoas e as operadoras assumem despesas que não se traduzem em melhores resultados clínicos. A pesquisadora defende a realocação dos recursos para serviços que efetivamente ampliem o acesso e a qualidade da assistência.
O desafio, portanto, passa por coordenar os diferentes participantes da cadeia de saúde para que os ganhos de eficiência não fiquem restritos a cada empresa, mas se convertam em melhorias no cuidado. Para Luiz Feitosa, sócio-fundador da consultoria Arquitetos da Saúde, o setor precisa avançar na integração de informações, na medição e na divulgação de resultados, além de estimular maior participação das empresas contratantes na discussão sobre custos e utilização dos planos.
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