Para CEO, desafio é fazer as lojas lucrarem mais, vender melhor e recuperar fôlego financeiro. E, avisa: não existe discussão sobre fechamento de capital
16 de outubro de 2026, às 15:00
Por Julia Pestana
Marca forte, mas com a operação sob escrutínio. Depois de anos de prejuízos, trocas de comando e perda de confiança do mercado, a Marisa quer provar que é possível voltar a dar lucro sem crescer de tamanho. A varejista fechou lojas, enxugou a estrutura e reposicionou a marca para reconquistar sua cliente tradicional, a mulher da classe C. Agora, o desafio é fazer as lojas renderem mais, vender melhor e recuperar o fôlego financeiro. A expansão pode esperar: a prioridade é rentabilizar o negócio que já existe.
Em entrevista à Broadcast Weekend, o CEO da Marisa, Edson Garcia, afirma que a operação está mais eficiente, mas admite que a dívida de cerca de R$ 380 milhões e os juros altos ainda pesam sobre os resultados.
Após sete anos consecutivos de prejuízo anual, a companhia tenta reorganizar as contas e reconquistar a confiança dos investidores. O executivo é categórico em afirmar: “não existe discussão sobre fechamento de capital”.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
Broadcast Weekend: Depois de tudo o que a Marisa atravessou nos últimos anos, dá para dizer que a companhia já saiu do modo sobrevivência?
Edson Garcia: Acredito que sim. Quando a gente olha o operacional, a empresa mudou muito de 2024 para cá. A gente fez um trabalho de reposicionamento, de ajuste da estrutura e de busca por rentabilização. Fechamos lojas que não eram rentáveis e hoje já temos uma empresa mais enxuta. Então eu não vejo mais retrocesso, vejo daqui para frente só avanço. Tem toda uma estrutura de capital ainda pressionada pelos juros altos, mas o operacional está avançando. Resolvendo a estrutura de capital, pode falar que a Marisa virou. Então sim, já deixamos aquele passado para trás.
Broadcast Weekend: Como você percebeu o que precisava mudar?
Garcia: Quando cheguei na Marisa, em 2024, eu já tinha quase 30 anos de varejo, com passagens por Riachuelo e Caedu. Então eu conhecia os dois mundos, de um posicionamento mais alto e de outro mais popular. E a Marisa está no meio desse caminho. Comecei a olhar muito para a cliente, fazer pesquisa e entender onde estavam as oportunidades. E aí ficou claro que a gente precisava mexer em duas coisas: no posicionamento da marca e na estrutura da empresa. A Marisa já chegou a ter 14 diretorias, era um organograma maior, mas que combinava com outro momento da companhia. Fomos ajustando isso porque, se eu quero rentabilizar, preciso ter uma estrutura menor, um custo menor, uma empresa mais enxuta.
Broadcast Weekend: Por que a empresa precisou ajustar o posicionamento da marca?
Garcia: Com o tempo, a empresa acabou precisando ajustar preço e com isso, foi se inclinando um pouco mais para as mulheres das classes A e B. Mas esse tipo de movimento é natural, a Marisa tem 78 anos e viveu vários Brasis. O País e o consumidor foi mudando, enquanto a empresa foi tentando se ajustar para garantir performance. Na minha chegada, a gente percebeu que precisava voltar a focar na cliente tradicional da Marisa, que é a mulher da classe C. Seguimos usando o slogan “de mulher para mulher”. É uma forma de mostrar que a Marisa pensa de fato na mulher, no acesso à moda com custo-benefício. Hoje, mais de 70% das pessoas na empresa são mulheres, inclusive com maioria feminina nas posições de liderança. Então, de fato, é uma empresa de mulher para mulher.
Broadcast Weekend: Na prática, como esse reposicionamento aparece hoje dentro das lojas?
Garcia: Mexemos em preço, estilo e sortimento para voltar a ser mais acessível para essa cliente. E, quando olha o perfil de quem frequenta a Marisa, 84% são mulheres e 70% delas têm, em média, dois filhos. Então infantil virou uma oportunidade importante de crescimento e o masculino também entrou no radar. Ao mesmo tempo, estamos reformulando as lojas, com ambientes mais iluminados, vitrines reorganizadas e mais espaço para categorias que podem aumentar fluxo e cesta. Já estamos vendo clientes voltando e comprando mais de cinco vezes no ano.
Broadcast Weekend: Se o operacional já está mais organizado, o que ainda precisa ser resolvido para a Marisa voltar a apresentar números positivos?
Garcia: Hoje, o principal ponto é a estrutura de capital. A gente tomou dívida para capital de giro, projetos e para financiar todo esse processo de transformação da empresa, e essa dívida hoje ainda é pressionada pelos juros altos. No último balanço, ela estava em torno de R$ 380 milhões. Ao mesmo tempo, temos quase R$ 1 bilhão em créditos tributários de PIS/Cofins e INSS. A gente usa esses créditos para compensar impostos que teria de pagar e, com isso, consegue direcionar recursos para reduzir a dívida. Em algum momento, a ideia é depender cada vez menos desses créditos e fazer a operação andar por si só.
Broadcast Weekend: O balanço ainda traz uma nota com comentário dos auditores sobre risco na continuidade operacional. Por que essa sinalização permanece mesmo com a melhora dos resultados?
Garcia: Essa nota aparece porque, no curto prazo, ainda temos mais obrigações a pagar do que recursos a receber. Hoje, o passivo circulante ainda é maior que o ativo circulante. Isso vai sendo ajustado com renegociação, alongamento da dívida e melhora do resultado operacional. A gente estava com 60% da dívida no curto prazo e 40% no longo e já inverteu essa relação: no último trimestre, 61% estavam no longo prazo. Então não é um problema de continuidade no sentido de a empresa parar. É uma nota técnica do auditor, baseada em uma questão matemática da estrutura de capital, que a gente já está trabalhando para ajustar.
Broadcast Weekend: Com mais de 90% das ações nas mãos dos controladores, como a Marisa pretende recompor a parcela em circulação? E existe possibilidade de a família voltar a fazer aportes?
Garcia: Não existe discussão de fechamento de capital. Quando fizemos o aporte na minha chegada, o mercado não acompanhou e a parcela de ações em circulação ficou menor. Agora, para readequar essa fatia, a gente precisa combinar recuperação dos resultados, queda dos juros e um mercado de renda variável mais atrativo. A ideia é voltar a uma parcela de 20% em circulação, e estamos alinhados com a B3 nesse processo. Em relação à família controladora, não existe discussão de novo aporte neste momento. A operação precisa buscar os próprios resultados. A família segue presente como acionista e no conselho, apoiando dentro da governança.
Broadcast Weekend: E o fim da “taxa das blusinhas” aumenta a pressão sobre a Marisa?
Garcia: Concorrência a gente olha o tempo todo, mas nosso posicionamento é bem competitivo. Quando você olha uma blusa nessas plataformas, muitas vezes o primeiro preço está em R$ 29, R$ 39. Na Marisa, o preço está muito parecido. A diferença é que a cliente entra na loja, toca na peça, prova, leva na hora e, se precisar, troca com facilidade. Como ela tem um orçamento mais apertado, tem menos margem para errar. Então, quando compara preços parecidos, tende a migrar menos. Por isso, a gente sente menos esse impacto do que marcas de posicionamento mais alto.
Broadcast Weekend: Quais as prioridades para o ano que vem? Vai ter abertura de novas lojas?
Garcia: Independentemente de como o mercado vai se comportar no ano que vem, vejo muita oportunidade dentro de casa. Claro que um vento a favor ajuda, mas a gente não quer depender disso para avançar. Em 2027, não está nos planos abrir lojas. O foco é rentabilizar mais a operação e tirar mais produtividade do parque atual, seja com coleção, posicionamento de preço, infantil ou recorrência. Vai ter um momento de expansão, mas agora queremos aproveitar melhor o que já temos.
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